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Crônica #65 | Raiz do apego

Acumuladores & círculos viciosos



Eu estava numa obra de demolição de várias casas, voltada para um empreendimento predial.

Andando por entre elas me deparei com uma, que a vendo pelo lado de fora, já denotava uma situação incomum. Curioso, me aproximei. Percebi a estranheza estampada nas faces de meus colegas. Uma casa totalmente abarrotada, de tudo o que a sua imaginação conseguir trazer à sua mente. Não tinha entendido direito ainda, mas os comentários logo explicaram. Todos aqueles montes desorganizados, coloridos e variados, eram de uma pessoa que ali vivia, um acumulador. Visivelmente é algo impressionante e assustador, logo fiquei a imaginar o sentimento da pessoa que ali vivia.


“Síndrome de Diógenes”, é o que poderá nos explicar.

Diógenes foi um filósofo grego, que viveu por volta de 300 anos A.C. Conta que ele vivia num barril e que acumulava coisas, objetos e animais em volta do mesmo. Ele vivia muito isolado. Afirmava que os animais eram muito mais confiáveis e preciosos que as pessoas. Dizem que ele saia com uma lanterna, mesmo durante o dia, buscando encontrar um homem que fosse íntegro. Achei interessante a sua busca, e senti não estar desatualizada dos momentos de hoje, apesar de todo esse tempo percorrido desde então.


Sabemos que os acumuladores compulsivos vão guardando objetos, animais e até lixo orgânico. Daí surgem os estigmas, de que são pessoas sujas ou preguiçosas.

Devemos nos despir de julgamentos ou preconceitos, e entender que para que isso aconteça existe todo um contexto individual, pessoal e social. Podem elas ter passado por situações de abuso, bullying ou mesmo de carências variadas. Muitos são os gatilhos que impulsionam o seu aparecimento, e na maioria das vezes, a pessoa não tem noção da dimensão dos problemas a que estão expostas. Muitos vão facilmente enquadrar como um transtorno obsessivo compulsivo.


Para que se compreenda melhor, talvez pudesse perguntar o que significa para a pessoa, o estar guardando e acumulando. Estaria o seu significado dentro de um medo, de uma insegurança, de um desespero, qual seria a sua razão? Seria uma forma de achar que está se protegendo de algo?


As coisas, os objetos ou os animais estão representando algo da sua vida, não sendo considerados lixos, por ela. O apego chega a um nível extremo, então, elas não conseguem se desfazer, jogar fora, desapegar do que guardou. É gerado um sentimento muito forte, onde se perde a lucidez e o controle, quando da postura de defender as suas coisas. O sofrimento é enorme tanto para elas próprias, quanto para as pessoas que precisam conviver com elas.


Pensei no sofrimento e na luta que foi, para a pessoa que ali naquela casa morava, ter que ser retirada da mesma. Acompanhando os serviços locais, foi assustador presenciar todo o descarte, que encerrava o ciclo da vida daquela pessoa; que fiquei a imaginar onde e como estaria naquele exato momento.


Como somos seres relacionais, estamos sempre nos vinculando à pessoas, coisas, animais, ideias; enfim, tudo nessa vida pode se tornar um elemento de apego. Importante nos atentarmos, na maneira como nós nos vinculamos com tudo isso, para que não se torne algo doentio e sofredor.


O filme Náufrago, lançado anos atrás, mostra claramente o vínculo do sentimento de apego.

Como o único sobrevivente, e logicamente pela ausência de qualquer pessoa, o náufrago cria um vínculo importante, forte e seguro com uma bola de vôlei. A angústia gerada na separação da mesma, é algo que emociona a todos que assistem, tamanho é o seu sofrimento. Percebemos então, o quão importante se tornam as coisas, a que as pessoas se apegam.


Fiquei meditando nas variadas fontes de apegos.


Perdeu a última novidade das Crônicas? Então confira este post: Podcast Crônicas #4 | Esperança



Do quanto isso, muitas vezes sem percebermos, está presente no nosso dia a dia. As próprias ideias rígidas, as crenças cristalizadas, a postura com a família, as nossas próprias emoções.

Se pensarmos nas nossas vidas, vamos perceber que estamos sempre desejando algo. O desejo de coisas, objetos, relacionamentos ou mesmo de situações. Estamos sempre querendo algo.


O desejo está dentro de uma busca que está situada no futuro, ele não está aqui no presente ainda, e esse desejo pode ser de qualquer coisa. Caso não seja conquistado, pode-se superar uma frustração, em relação a não conquista. Por outro lado, se ele for conquistado, ele vai trazer satisfação, prazer, e isso pode vir a gerar apego, em graus variados. Nem sempre o apego é algo patológico, não devemos confundir as situações.


Diferente do desejo, que nos coloca voltado para o futuro, o apego está voltado para trás.

O apego, surge do medo de se perder o desejo conquistado. Portanto, nos apegamos porque temos medo da perda. No apego, a ligação mental ou emocional que se estabelece com uma pessoa, um objeto, uma ideia, um plano, uma situação, ou qualquer outra coisa, pode se tornar quase que obsessiva. Sendo assim, é quando nasce a ideia, quando se origina uma crença irracional, de que não se pode mais ficar ou viver sem aquilo. Ou então, passando a acreditar que tendo aquilo, tendo a fonte do seu apego, vai estar em segurança.


Instala-se então, uma incapacidade de renunciar àquela fonte de apego, principalmente em momentos ou situações em que a entrega seria inevitável ou necessária.

Apego e medo: eles existem juntos, não existe o apego sem o medo da perda.

O medo da perda está inserida na raiz do apego.

O sofrimento está presente tanto no desejo quanto no apego, ambos são perturbadores das nossas mentes.


A imagem dos montes acumulados na casa da demolição, me trouxe à memória, o dia em que estive na casa da mãe de uma amiga. Semelhante cenário da casa, idosa, e que fazia questão de morar sozinha. Na verdade, ela exigia morar sozinha.


Entrando na casa, não se tinha quase como andar por ela.

Dentre todos os milhares objetos espalhados, notei que algumas peças tinham sentido especial para ela; principalmente aqueles ligados à família. Fotos penduradas numa pequena parede, um antigo e enorme relógio de chão, com suas cordas e seus grandes pêndulos; e um velho piano. Esses faziam parte do acervo de seus apegos mais profundos.


Apesar da sua avançada idade, ela tenta me explicar, cronologicamente, os momentos de todas aquelas fotos. Estavam nelas o seu falecido marido, filhos, netos, e outros muitos parentes. Contou como era a convivência num sitio do seu avô, quando seus filhos ainda eram pequenos.


Perguntei sobre o relógio, e ela prontamente me disse que era seu companheiro do dia a dia, que conversava, contava os segredos e também ouvia o seu tic- tac, dia e noite fazendo companhia para ela. Ajudava muito na sua solidão. Solidão escolhida por ela, pois se recusava veementemente qualquer pessoa ali, morando junto. Observei que o relógio estava parado e quebrado; num tom desafiador, num determinado momento perguntei que horas indicava. Prontamente ela me responde. Verifiquei no meu relógio, e simplesmente equivocou-se por alguns minutos. Pasmem! Coincidência ou não, creio que um relógio biológico, já estava constituído dentro dela.


Confira a recente participação dos seguidores das Crônicas aqui no site: A Voz do Povo é A Voz das Crônicas #1



Num canto, todo apertado e rodeado por centenas de coisas, estava um piano. Dava a impressão de estar sufocado, pois os objetos estavam ocupando cada centrímeto do seu móvel, em todos os sentidos; dos lados, em cima e embaixo. Me surpreendi quando, após tirar alguns livros que estavam em cima da tampa, ela abre devagar e cuidadosamente. Retira a flanela que cobria os teclados, que foram amarelados uniformemente, pela impiedade do tempo. Sem partitura, ela começou a tocar “Pour Elise” de Beethoven, e graciosamente seguida de Nocturne op9 no2 de Chopin. Lembrei-me do filme “O Pianista”, de Roman Polanski. Depois de um concerto de piano solo, ela também narra a vida desse piano. Pensei... como poderia ainda conseguir tocar piano, vivendo há tempos daquela forma, no meio de toda aquela bagunça e desorganização; que só de olhar já causava um transtorno angustiante...

Impressionante é o poder da mente do ser humano, jamais devemos sub-julgar alguém.


O tempo havia passado, e nem tinha percebido a chegada dos seus filhos para buscá-la. Iriam para muito longe dali, impossibilitando de deixar a mãe, na sua vida solitária. Obrigada a acompanhar os filhos, sofria muito com a situação. A muito custo concordaram e decidiram que levariam o piano, o relógio e as fotos; o que até em mim, gerou um sentimento de alívio. Poderia pelo menos, continuar apegada às suas mais importantes lembranças, pois na sua idade já não merecia essa privação. A família saudosista nas fotos, o relógio que se fazia jus, indicando o tempo ao seu lado, e o mundo das imaginações concretrizadas no seu piano. Todo o restante de nada prestava, e iria ser descartado.


O apego pode nos cegar. Ele se cristaliza de tal forma, que um toque um pouco mais forte nele, tudo desaba em cristais de sofrimentos. Dor e sofrimento, esse é o resultado do apego.


Nós nos apegamos ao passado, às coisas, às pessoas, às situações, às dores, ao luto, às magoas... criando relações obsessivas. Valeria a pena o tempo consumido em apegos excessivos, se tudo neste plano é transitório e passageiro?

O que fazer para desapegar?


Muito presente na filosofia Budista, ela nos ensina que o desapego é um dos principais caminhos, para não se ter ou evitar sofrimentos.


Entrar no fluxo da Vida, deixar a Vida fluir, possuir flexibilidade psicológica, ser desprendido, soltar...


Para nós, os ocidentais, parece existir uma certa dificuldade e uma má interpretação, confundindo o deixar fluir com uma passividade. Achar que se deve cruzar os braços e nada fazer, deixando tudo acontecer por si só. Longe disso... desapegar não significa não fazer nada, ficar numa apatia, esperando que tudo caia do céu.

Não é nada disso. A vida é dinâmica, e deve ser vivida plenamente com todos os seus conteúdos, ora de alegrias, tristezas, frustrações, conquistas, felicidade, harmonia...


Desapegar é viver normalmente, fazendo tudo o que faz, mas deixando fluir.

Apesar de toda a complexidade do conceito, tudo é muito simples se for bem entendido.

Desapego, não significa estar separada da realidade. É estar em fluxo com as coisas, da maneira como são. Estando o dia com sol ou sem sol, aceitar que tudo bem, em ambas as situações, por exemplo.


A linha divisória que indica a apatia com o desapego, é quase que imperceptível. Acostumados com a correria alucinante do dia a dia, ficamos desatentos e condicionados com a presença do poder da mente, que facilmente nos engana.


O que seria, propriamente, deixar fluir?

Simplesmente e nada mais do que tirar o controle.

Quem cria o controle, a manipulação e todas as suas variantes, é o nosso ego, a nossa mente.

E perante o Universo, perante todo processo universal, perante suas Leis, nossa mente é muito limitada. Ela não tem ainda, como dominar tamanha sabedoria universal.

Na nossa vida tudo tem uma razão de ser, para tudo existe uma causa. As coisas acontecem ou aconteceram da maneira que deveriam ter acontecido, por mais que não entendamos ou concordemos com isso. Existe sempre um propósito, que posteriormente, talvez venhamos a compreender. O deixar fluir e sair da posição de tudo querer controlar, é uma postura que abrirá essa compreensão, é entrar em fluxo com a Vida. Portanto, aceitemos e tomemos consciência, busquemos o entendimento, a compreensão e a ajuda de profissionais capacitados. Poderemos nos surpreender com as novas visões e caminhos apontados. O primeiro passo nesse percurso, deverá ser dado por nossa própria vontade, isso ninguém fará por nós. Portanto, coragem!


Falando de uma maneira bem simples, isso tem a ver com o “se eu tenho algo, tudo bem, mas se eu não tenho, tudo bem também”. O desapego é uma habilidade que deve ser desenvolvida, e a incorporação dela nas nossas vidas, é de extrema importância para a nossa verdadeira evolução.


Estaria no desapego, uma fórmula meio que mágica aos nossos olhos; o segredo da concretização das coisas? A paz nos nossos corações?


De fato, é interessante observar que com o desapego, ao invés de não acontecerem, as coisas começam a acontecer. Sabe aquela situação que você quer, porque quer, e não arreda pé de querer, e que nunca acontece? E no momento em que você desiste, que você se desapega, aí milagrosamente acontece?


Fluxo da Vida, só se sente a sua energia quando soltar, quando relaxar. A obsessão por algo, apenas oprime e dificulta a abertura para uma concretização. É algo muito simples, e também muito complexo de se entender, se a pessoa não se abrir, se a pessoa não se permitir quebrar crenças e paradigmas. O mundo é tão cheio e repleto de infinitas possibilidades, precisamos aprender a acessá-las.


Porque é tão difícil ter uma postura desapegada?


Leia a Crônica anterior a esta, caso ainda não tenha visto: Crônica #64 | Juventude, onde está sua fonte?



Pelo mundo material em que vivemos, e por todas as suas ofertas prometendo felicidade. Pela ilusão do que nos é apresentado como ideal de vida e de conquistas. Pela imaturidade emocional, espiritual a que nos encontramos. Dependendo dos momentos e fases de nossas vidas, vamos estar mais intensamente ligados nos valores do ter, do conquistar, do vencer, do querer; ou então, já paralelamente com a presença do querer ser. Todas as fases são importantes e devem ser vividas plenamente, afinal, a soma de tudo é que nos levará a um efetivo amadurecimento, crescimento e evolução. Tudo faz parte do nosso longo caminhar. Tudo ao seu devido tempo, individual e específico a cada um de nós.


Entrando na consciência da busca e conquista do ser, abre-se uma ampla visão, nos levando a compreender a transitoriedade das coisas. A compreender o quanto tudo é efêmero, irreal, inconstante. Começamos a ir em busca do que é perene, a entender mais o que pode ser eterno ou imortal. Tais questionamentos nos trazem mais consistência e cuidado nas escolhas, nas reais necessidades e nos desejos.


Desapegar pode ser muito simples, e ao mesmo tempo muito difícil, dependendo de como é interpretado por nós, o sentido da vida e de tudo o que nos rodeia.


O desapegar também estará na linha de frente, encarando o medo da perda que gerou o apego.

Mais uma vez entra em cena o autoconhecimento, uma auto reflexão para entender o porque desse medo. Afinal, foi esse medo da perda que nos fez ficar apegado a alguma coisa, a alguma pessoa. Podemos nos perguntar de onde ele surgiu, o que ele traz de tão ruim, a ponto de nos deixar ansiosos ou medonhos. Estaria relacionado a alguma crença, a algum fato presenciado? Identificado o fator causador do medo, podemos nos colocar imaginando a terrível perda acontecendo, assim sendo, haverá uma quebra nessa dependência. Nesse momento, já com o nosso apego quebrado, podemos imaginar o que faríamos, quais os recursos usaríamos, e quais os elementos que estariam presentes para uma superação. Nessa quebra, quase que automaticamente, a perda assume um papel de ter sido aceita, pois já existem os elementos com as forças de enfrentamento. O caminho é enfrentar os nossos medos.


É difícil? Sim, muito difícil, muitas e muitas vezes assustador, a ponto de nos paralisar. Porém, fugir, camuflar, só vai postergar uma situação, que nós mesmos, devemos enfrentar.


À medida que formos vencendo os desafios, as batalhas repletas de medos e dores, vamos nos fortalecendo e adquirindo confiança. Nos convencendo que somos sim, capazes de dominar nossos fantasmas, e enfrentar a realidade assim como ela é, assim como ela se apresenta. Essa prática poderá e deverá se estender, a todas as situações das nossas vidas.


Uma vez cientes do percurso, que nos traz essa sugestão, podemos tentar com coragem, encarar e enfrentar o que nos tira o equilíbrio.


Um pouco mais fortalecidos, experimentemos vivenciar, o que pode nos proporcionar o desapego.


Escolha aquele apego que está tentando vencer.


Imagine você desapegando de forma real, soltando, se livrando dele, desprendendo do que o mantém acorrentado. Se solte no ar... solte esse apego, deixe ele ir, acompanhe o seu distanciar, veja ele desaparecendo como uma nuvem ao vento, sumindo... se dissolvendo completamente.


Respire, respire, abra os braços, sinta a leve brisa tocando o seu rosto. Perceba então, o sentimento de paz invadir aos poucos o seu ser, até que você seja preenchido totalmente por essa paz, pela harmonia e pela leveza do seu ser.


Sinta como é algo surreal, é algo quase que sagrado, é algo que liberta e faz você se sentir como uma célula solta, a voar livremente e sendo abraçada, aconchegada em todas as suas dimensões, pela energia de vida e alegria, do nosso sagrado e imenso Universo.


No término do descarte dos amontoados daquela casa demolida, não restou nada…nada além do pó.


Numa pequena fração de tempo, os pertences da vida daquela pessoa foram totalmente apagados.

Fiquei a pensar o que de fato aquela pessoa possuiu…

O que ela possuiu que não fosse aquilo que precisou catar, comprar e juntar com tanto afinco ao longo de seus anos?



 


Que tal baixar e compartilhar trechos dessa crônica com a galera?



 


 

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