top of page
  • Instagram
  • X
  • LinkedIn

Crônica #139 | Novo ano, novo tempo.

  • Foto do escritor: Redação neonews
    Redação neonews
  • há 1 dia
  • 8 min de leitura

Ajustando a frequência do viver.


Capa Crônica #138 | A carta de Natal.
neOriginals Crônicas

O que você encontrará nesta crônica:


"Enquanto o Ano-Novo fazia barulho do lado de fora, o silêncio fazia seu próprio trabalho.

Num canto da casa, alguém dormia tranquilo. Alguém que não conta horas, não projeta promessas, apenas confia.

Esta crônica nasceu desse contraste: de um olhar silencioso que ensina, sem palavras, que o tempo não muda por convenção, mas por consciência, por pequenos ajustes internos. Então, o tempo deixa de ser contagem, deixa de ser cobrança.

Aqui, o tempo deixou de ser relógio e se tornou presença.

Passou a respirar, pronto para recomeçar."




I. Sinfonia de frequências.


Estava com Mafalda.

Ela é calma, serena e sempre me acompanha nas minhas escritas. Estávamos em um silêncio tão profundo que parecíamos, literalmente, mergulhados em uma única vibração, dentro de uma única respiração do universo. Meus ouvidos captavam um som inexplicável naquele silêncio. Há estados meditativos que nos fazem sentir que o silêncio também vibra. E, naquele instante, eu não me sentia observador da realidade, mas parte ativa do seu fluxo.

 

Há um saber antigo que reconhece que tudo o que existe vibra. Isso é afirmado não como uma ideia abstrata, e sim como natureza, como lei da própria vida. Então, as pedras vibram devagar; os rios, em seus movimentos contínuos, vibram rápido; e nós, humanos, vibramos de acordo com aquilo que sentimos e nutrimos por dentro.

 

Há momentos em que nossa vibração é leve e harmoniosa; em outros, torna-se pesada e fragmentada; e, tantas outras vezes, vibra em profundo desajuste. E é curioso como quase nunca paramos para perceber o ritmo interno que estamos emitindo. No entanto, a cada pensamento que escolhemos cultivar ou a cada emoção que permitimos manter, criamos um campo interno que se expressa em frequência, adquirindo um movimento próprio por meio de suas vibrações.

 

Com o tempo, vamos compreendendo a lei natural de que a frequência que escolhemos sustentar molda a realidade que atraímos, influenciando e direcionando nossas escolhas. Assim como a água segue o caminho que a terra lhe permite, nós seguimos o percurso que o nosso estado interior constrói. 

 

Quando vibramos no medo, o mundo parece se fechar.

Quando vibramos na gratidão, algo se expande.

E, quando estamos verdadeiramente presentes, algo mais profundo se manifesta, sem esforço.

 

Mafalda parece compreender isso instintivamente. Os gatos vivem em harmonia com o próprio ritmo; de algum modo, sabem se equilibrar. Com sua sinfonia de frequências, o ronronar suave e constante, quase hipnótico, cria uma espécie de harmonia ao redor. Há quem diga que ele cura; há quem diga que realinha, acalma e harmoniza, tocando camadas profundas do nosso sistema emocional.

 

Mas não é algo que precise ser provado, apenas vivido. Quem já sentiu sabe: o ronronar não tenta convencer, ele simplesmente envolve. E, aos poucos, a nossa respiração se ajusta, qualquer ansiedade perde a força desarmando o corpo e, sem perceber, nossa energia muda de tom, torna-se mais leve e mais silenciosa. E eu sentia isso com Mafalda e o seu suave ronronar.

 

Talvez os gatos saibam algo que ainda estamos aprendendo: sua vibração não é ansiosa, não é apressada nem fragmentada; mantém-se de forma constante e profunda. Produzem um ronronar que   não tenta controlar o mundo, apenas faz parte do seu agora. Mafalda não se comunica por palavras, mas por frequência, e sinto sua presença me alcançar de forma sutilmente filosófica.

 

Observo seus gestos lentos, quase meditativos. Sua tranquilidade parece lembrar, o tempo todo, que tudo tem um tempo necessário e que saber respeitá-lo é um exercício delicado de sabedoria, capaz de tornar a vida mais leve.

 

Escute nosso podcast!





Il. O tempo em tom de gato.


Dias atrás, algo especial aconteceu.

Era noite, e eu insistia em finalizar uma crônica. Buscava um título que traduzisse o encerramento de um ciclo quando Mafalda, em seus gestos silenciosos, levantou-se da almofada e veio em minha direção. Parou diante de mim, fixou seus grandes olhos amarelos nos meus e, sem urgência alguma, parecia perguntar o que eu tanto buscava naquele momento em que o mundo, lá fora, só falava de contagens regressivas e expectativas para o amanhã.

- “O que foi, Mafalda! Por que está me olhando assim?”, perguntei em voz baixa.  “Já sei... está com fome, não é?” 

 

Ela não se moveu nem respondeu. Não pediu nada. Eu sorri sozinho. Não era fome. Ela apenas permaneceu ali, inteira, com aquele olhar tranquilo, como se a pergunta fosse desnecessária. Senti que me chamava para sair da cabeça e voltar ao agora, àquele instante. E eu entendi que, naquele momento, o texto podia esperar.

 

Claro que, para ela, o calendário não tinha importância. Nem datas, nem qualquer simbolismo humano de começo ou fim. Mafalda não reconhecia anos, não celebrava viradas; apenas pedia por companhia. E, naquele olhar silencioso, percebi que o tempo havia resolvido sentar-se comigo, personificado naquele pequeno ser que respirava calmamente à minha frente.

 

O silêncio persistia quando, em um movimento inesperado, ela tocou o teclado do meu notebook. A tela escureceu, apagou-se. Era como se dissesse, sem palavras: delete, pause, turn off ; como se também estivesse cansada das minhas tentativas de capturar o tempo com palavras.

 

Mafalda então deu um pequeno giro, escolheu outro canto da grande almofada e se acomodou ali. Corpo relaxado, respiração mansa. E, olhando para mim, começou a ronronar, como quem dizia: “Dê um tempo... apenas sente-se comigo.”

 

E eu me sentei. Sem intenção clara, deixando a urgência de lado e sem o compromisso de produzir nada. E então apenas fiquei. E algo em mim cedeu. O corpo relaxou, a pressa começou a se dissolver pela mente que havia afrouxado o controle.

 

Ali, a vida aconteceu fora e além dos meus roteiros detalhados. E, muitas vezes, ela se mostra justamente quando abrimos mão do controle. É curioso como o tempo se comporta nessas horas: quanto mais acelerados estamos, mais ele parece correr conosco, como se incorporasse a impaciência. Mas, quando paramos, verdadeiramente paramos, ele se expande.


Ao lado de Mafalda, o tempo havia se tornado largo dentro de mim. E eu não fazia nada, apenas estava. Presente, enxergando a beleza daquele agora. A passagem do tempo se mostrou em profundidade, dizendo que o novo não começa depois da meia-noite ou em uma data marcada. O novo somente começa quando ajustamos a nossa frequência interna, mudando a nossa forma de estar na vida.


Olhei para Mafalda, que já havia se deitado e cochilava, e eu naturalmente sorri. Agradeci em silêncio por aquela pausa oferecida, pela confiança criada e pela simplicidade de quem ensina que estar presente é suficiente. Naquele momento, era tudo o que eu precisava.

 

Veio-me à lembrança sua chegada à nossa família: Mafalda, nossa amável gatinha preta, chegou até nós anos atrás, resgatada, com ferimentos graves provocados por uma coleira que se enroscou e prendeu seu bracinho ao pescoço. Sobreviveu. Curou-se. Confiou novamente.


Os gatos atravessam os ciclos com leveza. Enquanto nós nos perdemos no peso dos dias, eles seguem em outra frequência, alinhados a outra ordem. Não carregam o que pesa, não insistem no que machuca, não retornam ao que não acolhe. Não guardam ressentimentos e não forçam nada. Não perseguem o que não lhes pertence.

 

Ajustam-se com naturalidade e, se precisar, mudam de posição, de vibração ou de cômodo. Quando o sol muda de lugar, eles mudam junto. Vivem sem pressa e sem luta, na frequência que lhes é natural.


Obedecem apenas ao chamado daquilo que faz bem. Sabem então quando se mover, quando parar ou quando apenas observar. Vivem em uma frequência coerente com o próprio corpo, sem forçar o dia ou brigar com o tempo.




lII. Ajustes da alma. 


Amar gatos é aprender sobre frequências. Conviver com eles é aprender sobre presença. Com eles, entendemos que, às vezes, nem tudo precisa de explicação; algumas verdades precisam apenas ser sentidas. Muitas vezes, alinhar-se não exige esforço, apenas atenção.

Talvez seja uma lição profunda para nós, pois a vida, muitas vezes, pede sensibilidade para perceber quando é hora de ficar, quando é hora de partir e quando simplesmente é hora de apenas estar.

 

Na véspera de um novo ano, enquanto o mundo se apressa, correndo atrás de metas e promessas, eles seguem enroscados em um canto tranquilo, fecham os olhos e confiam.

É como se soubessem que o tempo não muda porque viramos a página; muda porque algo em nós se transforma por dentro.

 

Mudar o ano é simples; difícil e precioso é mudar a frequência da alma. A verdadeira virada não é externa, não acontece fora, e sim dentro: é interna, espiritual e acontece nos pequenos ajustes diários.

 

Mafalda, naquela noite, sem dizer nada, apenas confirmou essa verdade. Diante de todo o barulho dos dias de festa, percebemos que vibrar alto não é celebrar em excesso, gritando felicidade em uma euforia constante. É, sobretudo, a capacidade de sustentar a luz mesmo reconhecendo as próprias sombras.  E, ainda assim, escolher caminhar em direção ao que faz bem, ao que promove equilíbrio e bem-estar. Isso é consciência.

 

Eles parecem saber que toda sombra nasce da luz; portanto, a sombra só existe porque há luz. Para eles, o descanso parece ser uma resposta sábia do corpo: não é preguiça, é também sabedoria.

 

Quando compreendemos que a verdadeira virada acontece por dentro e que todo recomeço pede silêncio e ajuste interno, não há por que encenar renascimentos ou forçar a alegria. O que a vida pede, muitas vezes, é honestidade emocional: que apenas sejamos honestos com o que sentimos. A partir daí, que saibamos nos afastar do que nos desorganiza emocionalmente e nos aproximar do que nos faz respirar melhor.

 

Possamos, neste ano que se abre, não nos ocupar apenas em virar a página do calendário. Divino, talvez, seja termos coragem de transformar a forma como vibramos no mundo, ajustando, com cuidado, o tom do nosso viver. Podemos escolher vibrar em presença, na verdade que sustenta, no amor que sempre nos expande.

 

Em que frequência queremos vibrar neste novo tempo?

Nem tudo nos cabe controlar, mas a forma como escolhemos estar é sempre nossa, e se manifesta em cada ajuste interno que fazemos.


A filosofia não oferece respostas prontas; ela apenas nos convida a nos tornar conscientes. E, talvez, seja isso o suficiente agora: sentir, com honestidade, o que dentro de nós deseja ficar e o que pede para ser deixado no ano que se encerrou. Deixar ir o que já cumpriu seu ciclo, abrindo espaço para que o novo se revele com serenidade e segurança.

 

Que este novo ciclo nos encontre mais lúcidos, menos fragmentados, alinhados com nós mesmos e em paz com a nossa própria frequência.

 

A vida, afinal, responde menos ao controle e mais à coerência entre o que somos e o que vivemos.

 

Que cada passo desse novo caminho possa ser sustentado por uma fé serena, alimentada pela confiança no processo. Fé que se sente no silêncio, como a de quem, ao se sentar no chão, aprende com a leveza de um gato que, muitas vezes, simplesmente estar já é suficiente. E, nesse estar pleno, a vida encontra naturalmente seu ritmo.

 

Assim como os gatos, e como Mafalda nos ensina com o ritmo sereno de seu ronronar, cada um de nós também carrega um ritmo interior, uma energia única. Que saibamos honrá-la, acolher sua presença e caminhar em plena sintonia com ela.

 

Possam nossos passos ser guiados pela serenidade, pela consciência e pelo ritmo próprio neste novo ano que se inicia.

 

Feliz Ano-Novo!


Foto real de Mafalda, capturada pelo olhar de sua companheira humana, Fernanda Yukari.
Foto real de Mafalda, capturada pelo olhar de sua companheira humana, Fernanda Yukari.

Escute nosso podcast!






Time Crônicas





Comunicado neonews


Queridos leitores, informamos que os comentários ainda estão offline, devido ao fato de a ferramenta utilizada ser terceirizada e estar passando por atualizações, para melhor atendê-los.


Esta é uma obra editada sob aspectos do cotidiano, retratando questões comuns do nosso dia a dia. A crônica não tem como objetivo trazer verdades absolutas, e sim reflexões para nossas questões humanas.


neonews, neoriginals e ClasTech são marcas neoCompany. neoCompany Ltda. Todos os direitos reservados.

  • LinkedIn
  • Youtube

neonews, neoriginals e ClasTech são marcas neoCompany.

neoCompany ltda. Todos os direitos reservados.

Entre em contato com o neonews

Tem alguma sugestão de pauta, eventos ou deseja apenas fazer uma crítica ou sugestão, manda um email pra gente.

  • Instagram
  • X
  • LinkedIn
bottom of page