Crônica #140 | Sob a psicosfera.
- Redação neonews

- há 5 horas
- 7 min de leitura
Convite a um Levante!

O que você encontrará nesta crônica:
"Você já parou para pensar no que está respirando emocionalmente? Nem tudo o que nos afeta é visível. Às vezes, o que te sufoca não é o ar, mas aquilo que circula nele. Influências sutis que se infiltram por dentro e por fora: medos normalizados, ideias repetidas ou verdades aceitas sem reflexão. Sob a psicosfera não oferece respostas prontas. É um convite a um levante íntimo e consciente, como gesto de cuidado e libertação. Porque a consciência nasce da coragem de questionar. O quanto você percebe do que te envolve... e do que já faz parte de você?"

I. Quando o controle vaza.
Na engenharia, quase tudo se move sob as regras do previsível.
Cálculos, estatísticas e probabilidades organizam um mundo traduzido em números, com margens de erro cuidadosamente definidas. Nela, até o erro é calculado. Essa matemática que organiza o mundo nos tranquiliza, talvez porque nos ofereça algo precioso: a sensação de controle, uma ilusão confortável de que o controle é possível.
É claro que existem ocorrências extraordinárias na engenharia: eventos pontuais que escapam ao controle, mas que, ainda assim, costumam ser resolvidos e compreendidos dentro de uma lógica técnica. A exceção, portanto, raramente se transforma em regra.
O problema começa quando essa mesma lógica tenta explicar aquilo que não se deixa medir. Quando envolve e entra em cena o fator humano, a matemática perde sua soberania. É nesse ponto que a falha deixa de ser um acidente raro e passa a ser uma possibilidade constante. Se, na engenharia, o erro é previsto, na vida social ele costuma ser justificado, e essa diferença muda tudo.
E foi exatamente assim que, tarde da noite, em um final de semana, a rotina se rompeu. Uma notificação no celular acendeu um alerta: falha nos serviços de reforma de um posto de combustível.
- “Boa noite, meu amigo! Preciso de ajuda urgente... um cheiro forte de querosene no bueiro próximo ao meu posto. Pode me apresentar uma solução?”
Imediatamente retornei o contato.
- “Faça o seguinte: contate um tanqueiro (caminhão-tanque) e transfira todo o combustível. Assim, evitamos maiores danos a você e ao meio ambiente. Estarei aí em breve.”
O relógio marcava duas da manhã quando cheguei ao local. A providência já estava em curso e o risco imediato estava contido, restava apenas acompanhar o fim da operação. E então, com o problema sob controle, o cliente, agora mais tranquilo, convidou-me para um chocolate quente na loja de conveniência anexa ao posto. Era uma noite de inverno, e o frio parecia ter congelado o movimento daquela rua, que estava quase deserta.
Enquanto falávamos sobre o ocorrido, a televisão, ligada, exibia um documentário sobre guerras contemporâneas, lembrando a recorrente ameaça de uma terceira guerra mundial. Era impossível ignorar que nós ali, mesmo protegidos pelas paredes, estávamos isolados de verdade, porque o mundo lá fora ainda nos alcançava. Somos tocados por esses vazamentos, por esses medos, por essas ligações invisíveis que não sabemos, ou não conseguimos, desligar.
Apontei para a tela e comentei:
— “Olha só. Mesmo aqui, no nosso pequeno mundo, mesmo sem querer ser atingido, essas notícias sempre acabam encontrando um jeito de entrar. Será que essa exposição constante é um alerta para a gente... ou só espalha ainda mais pavor nessa sociedade já tão frágil e fragmentada em que vivemos?”
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Il. Psicosfera contaminada.
Pensando no tanque sendo esvaziado, a lembrança do perigo persistia, e pensei no humano como solo. Quantas e quantas contaminações começam de forma discreta e quase imperceptível?
Não precisamos ir muito longe para termos uma ideia. Basta começar pelas notícias falsas, hoje chamadas de fake news. Vejo-as como pequenos vazamentos emocionais, lançados com intenção e espalhados com uma velocidade impressionante. Elas invadem e quase sempre encontram solo fértil nos corações inquietos, nas mentes fragilizadas, nas sociedades já tensionadas.
Enquanto pensava nisso, percebi como a indignação, o desespero e o medo vão crescendo aos poucos. Esses sentimentos não chegam de uma vez; infiltram-se lentamente, como o combustível no subsolo. O acúmulo de desinformação, somado a esse estado emocional, vai se condensando em pensamentos que, mais cedo ou mais tarde, se transformam em ações. E assim se espalham, criando uma espécie de psicosfera contaminada que nos envolve sem que percebamos.
Apontei para o local e comentei:
- “Semelhante ao que aconteceu aqui com a contaminação do solo, vivemos sob uma psicosfera igualmente contaminada.”
Ele me olhou com curiosidade:
- “Psicosfera contaminada? O que você quer dizer?”
Respirei fundo. Antes de responder, formou-se, na minha mente, um cenário claro: assim como aquele combustível que já havia escapado continuava se espalhando por baixo, hoje, grande parte da psicosfera se difunde, adoecendo e intoxicando mentes e corpos.
E seguimos vivendo, muitas vezes sem perceber, numa sociedade do medo, onde a razão se encolhe e o caos domina de forma discreta, quase invisível e, justamente por isso, tão letal. A matemática nem se dá conta de explicar tamanho alcance. Nem sempre os maiores estragos ou a destruição acontecem de uma vez. Quase sempre começam nos pequenos vazamentos tolerados: uma concessão aqui, um alerta ignorado ali. Às vezes, no silêncio das palavras que não dizemos, nas escolhas que adiamos, nas omissões até por nós mesmos produzidas. Percebo que a contaminação vai muito além do corpo, ampliando-se como um adoecimento da própria vida coletiva.
Não falo apenas das doenças antigas ou das epidemias recentes. Falo de algo mais amplo, embora menos visível: um desgaste lento, resultante de processos sociais, culturais, políticos e tecnológicos que se espalham gradualmente, corroendo valores, distorcendo afetos, comprometendo relações e alterando o modo como convivemos.
É uma contaminação invisível e progressiva, eficiente justamente por passar despercebida e, talvez por isso mesmo, amplamente tolerada. O que se infiltra sem interromper rotinas nem causar dor imediata acaba parecendo normal. E o normal, quando não é questionado, se espalha, atingindo tanto o indivíduo quanto as estruturas que sustentam nossa vida coletiva. E o mais perigoso? Quase ninguém percebe.
O que se vê por aí, infelizmente, é a falsidade que se tornou rotina, e a mentira que já não escandaliza. Adapta-se, circula e se apresenta com aparência ética, disfarçada de boas intenções. Enquanto especialistas de ocasião, seguros demais em suas vozes, afirmam com convicção absoluta o que são apenas verdades provisórias. Prontos para explorar a fragilidade dos desavisados, de quem está cansado, mas ainda acredita e confia.
E assim seguimos: consumindo discursos, respirando contaminação. Tentamos manter a lucidez, mesmo quando a mente permanece dominada por esse ambiente saturado, em meio a um mundo que nem percebe o quanto está cansado. Talvez clareza seja resistir ao que se apresenta como natural demais e, sobretudo, ter disposição para questionar aquilo que já não provoca estranhamento. Nem tudo a que nos acostumamos faz bem.
Nada parece errado à primeira vista. Os dias se repetem, as coisas funcionam, e as pessoas seguem andando. Ainda assim, ao acordar, fica a sensação de que algo está fora do lugar. Não é exatamente um fato nem um acontecimento específico; é mais um clima, um peso no ar. Fomos, com o tempo, aprendendo a chamar isso de normalidade. E seguimos vivendo, mesmo sem saber exatamente o que está se espalhando enquanto respiramos. Não há febre visível. Não há isolamento possível. Talvez apenas a impressão persistente de que respiramos alguma coisa que não escolhemos.

lII. Levante.
O aspecto mais inquietante da vida moderna, talvez, seja perceber que o escuro já não assusta. Não porque a luz tenha desaparecido, mas porque nos acostumamos a andar às cegas. Seguimos vozes, repetimos discursos e aceitamos atalhos. Respiramos o que está no ar. O excesso de informações parece ter ocupado o lugar do pensamento. Porque pensar dá trabalho, e questionar exige tempo. E o tempo anda muito raro.
Quando o mal vira rotina, ele deixa de chocar. Não precisa de ódio ou violência explícita; basta a indiferença. Como percebeu a filósofa Hannah Arendt, ao acompanhar o julgamento de um dos responsáveis pela logística do Holocausto: o mal não exige monstros, apenas a ausência de pensamento. E, dentro de sistemas assim, a injustiça passa a operar como procedimento, eficiente e discreta.
No posto, o vazamento passou despercebido a princípio. A superfície estava limpa, tudo parecia em ordem. Mas Carlos, o técnico do posto, percebeu algo estranho, que não se podia ignorar: não se via, mas se sentia no ar, no incômodo do cheiro. Agora que tínhamos mais informações, ele falava baixo, quase pedindo desculpas por insistir.
- “Essas coisas demoram a aparecer e a ser percebidas, e não param só porque a válvula foi fechada”, dizia. “Por baixo, o combustível vazado continua seu caminho, se espalhando e se infiltrando.”
Enquanto ouvia, pensei em quantas vezes também seguimos assim na vida: confiando no que parece resolvido, ignorando que o que está por baixo não desaparece, apenas se move.
Nem toda contaminação, contudo, é definitiva. O antídoto não se compra, não se vê e não se encontra em frascos; existe no questionar, no duvidar, no pensar com as pequenas doses de atenção crítica, em um mundo intoxicado pela pressa e pela obediência.
Apesar de tudo, algo ainda se move. Há quem pense contra a corrente, quem pare, quem se recuse a se acostumar com o que parece inevitável. Enquanto houver quem resista, e há, a vida persiste. Mesmo em corpos adoecidos, ela insiste. E, às vezes, pensa.
E quando pensa, abre espaço para a justiça, para a paz, para uma liberdade que não precisa ser solitária. Há um Levante silencioso neste exato momento, e ele se abre a todos que se recusam a aceitar o que está contaminado, respirando naqueles que ainda ousam questionar, resistir e escolher a liberdade. A sociedade contaminada não é destino inevitável; é um alerta. Ainda há espaço para a descontaminação.
Eu e Carlos saímos do posto. Ele limpou as mãos no pano escurecido de graxa e ficou um instante a mais em silêncio, deixando escapar o peso de algo que se recusava a desaparecer.
Nesse gesto modesto, a resistência estava lá, discreta, viva.
E então, só o ar pesado pareceu pulsar sobre a superfície e por baixo dela, onde nada se vê, mas tudo continua a se mover.
Nós, o mundo e a psicosfera, respirando juntos, inseparáveis, invisíveis e ainda sem a plena consciência do que nos envolve.
Do que, afinal, temos consciência?
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Esta é uma obra editada sob aspectos do cotidiano, retratando questões comuns do nosso dia a dia. A crônica não tem como objetivo trazer verdades absolutas, e sim reflexões para nossas questões humanas.












