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Crônica #141 | A Quebra.

  • Foto do escritor: Redação neonews
    Redação neonews
  • há 2 horas
  • 7 min de leitura

Ruptura ou Libertação?



Capa Crônica #141 | A Quebra.
neOriginals Crônicas

O que você encontrará nesta crônica:


"Há momentos em que tudo se despedaça, quebra e estilhaça: um vidro, um vaso, ou até nós mesmos. Mas será que toda quebra é destruição? Nem toda ruptura é fim; às vezes, é o início de algo maior.

Esta crônica convida você a enfrentar dores e perdas, descobrindo que cada cicatriz pode ser um passo para se reorganizar e renascer em libertação - libertar-se das correntes que nos prendiam, rompendo-as, enquanto o velho se desfaz e o novo surge mais forte, mais vivo, abraçando quem podemos nos tornar.

O que é mais difícil: suportar o impacto da quebra ou se permitir renascer sobre os fragmentos?"




I. O impacto da quebra.


É comum ver equipes de instalação e manutenção trabalhando em shoppings no silêncio da madrugada. Naquela noite, nossa missão consistia na construção de uma rede de dados, envolvendo pontos de energia e monitores cuidadosamente instalados.

 

Perto das quatro horas da manhã, com todos os serviços executados e devidamente testados, recolhíamos as ferramentas, preparando-nos para encerrar a jornada. Foi então que um som seco, forte e inesperado cortou o silêncio - um estalo que fez o coração acelerar e os olhos se voltarem para o lado do estabelecimento ao nosso, enquanto o som ecoava pelo corredor deserto.

Tratava-se de um grande painel de vidro temperado, imponente e impecável, que um prestador de serviços instalava na vitrine de uma loja de roupas.

 

Entre os cacos, um dos trabalhadores estava caído, atingido pelo painel que tombara sobre ele.

Mas, graças ao uso de capacete, óculos e demais equipamentos de proteção individual, danos físicos mais graves foram evitados. Apressei-me em sua direção para prestar socorro. Já havia sido solicitado à central de segurança o apoio da equipe de enfermagem. Ao me aproximar, percebi que, felizmente, nada de muito grave havia acontecido. O susto ficou marcado apenas por alguns arranhões e pequenos sangramentos nos cortes do rosto, das mãos e dos braços, causados pelos estilhaços. 

 

- “Fique calmo, o socorro já vem....”, disse-lhe, embora, naquele momento, talvez fosse eu quem mais precisasse se acalmar. O estrondo da quebra fora forte demais para a calmaria da noite, e não apenas o vidro parecia ter se partido ali.

 

- “Rapaz... tem coisa que a gente não entende mesmo”, murmurou um deles, indignado e franzindo a testa. “O vidro já estava instalado, certinho. Eu só fui limpar e, de repente, pá! Estourou.

Que nem a vida: quando parece que está tudo certinho, no lugar, e, do nada, vira um monte de cacos.”

 

O outro balançou a cabeça suspirando: “Vidro é traiçoeiro. Às vezes já vem trincado por dentro e a gente nem vê. Ou pega tensão na hora de calçar na esquadria e fica ali, segurando, aguentando a pressão... até que qualquer toque faz estourar.”

O colega vem com uma resposta: “Tu tá dizendo, então, que a culpa não foi minha?”

“Tô dizendo que nem tudo que quebra é erro de instalação. Tem vidro que já vem com tensão acumulada.” Ficaram em silêncio, presos à dúvida, sem prova concreta do que causara o estouro.

 

Antes do acidente, eu havia observado um dos rapazes cantando alegremente enquanto trabalhava. Para mim, aquelas canções ecoavam com suavidade no silêncio do corredor vazio, misturando-se ao som distante das furadeiras que vinham de outras manutenções.

 

Apesar do tremendo susto, permanecia ali uma paz que não se quebrara com o vidro. Aquele rapaz seguia prestativo ao mestre de obras e, naquela madrugada em que o silêncio foi quebrado pelo estrondo, ficou uma lição: há quem carregue fé suficiente para permanecer inteiro, mesmo quando tudo ao redor se estilhaça.

 

Enquanto os colegas de trabalho se abaixavam para recolher os pequenos cacos de vidro que se espalharam pelo chão, as palavras de Emerson ecoavam com força sobre a “quebra”. De repente, parecia que não era apenas o vidro que havia partido; algo maior ganhava forma naquele estilhaço inesperado.

 

Suas palavras faziam sentido. Sempre acreditamos que somos capazes de construir algo sólido. Planejamos, alinhamos ideias e reforçamos estruturas. Até que um impacto, às vezes pequeno, às vezes brutal, interrompe o curso e, então, desabamos em pedaços.

 

Muitas vezes, não é a quebra em si que dói, mas a constatação de que dificilmente conseguimos nos reconstruir exatamente como éramos antes, mantendo as formas originais. Esses impactos nos fazem abandonar ou desistir de planos e sonhos. São rupturas que exigem, ou pedem, tempo demais para qualquer tentativa de recomposição.

 

Aliado a tudo isso, o tempo, indiferente, não abranda o passo. Ele segue, exigindo decisões quando ainda estamos cercados de fragmentos. E só então, nesse aperto, começamos a entender diferenças que antes pareciam apenas conceitos: chance não é oportunidade, experiência não é eficiência, meta não é objetivo. Tudo muda de peso quando o vidro já está no chão. O que parecia semelhante perde o peso; o que era teoria exige prática. Quando os cacos estão à vista, nada mais é abstrato.


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Il. Libertação pela quebra.


O vidro não quebrou apenas por ser frágil, mas porque estava exposto. Semelhante a ele também vivemos expostos aos imprevistos, às perdas, às decepções ou às pressões que a vida vem nos impondo. E, em algum momento, quebramos. Não somos tão inquebráveis quanto gostaríamos, e a quebra vem nos lembrar dessa verdade.

 

Diante do chão estilhaçado, surgiu a pergunta inevitável: seria possível religar milhares de pedaços e reconstruir algo exatamente como era antes? Talvez não seja possível, ou talvez sequer seja necessário. Há planos que, embora pareçam concluídos, precisam ser inteiramente desfeitos, recolhidos com paciência e cuidado e, então, descartados no lugar certo.

 

Curiosamente, a vida traz isso no tempo adequado. Somos nós que insistimos em manter o que já não nos serve, movidos pelo apego ao passado ou por um medo que raramente temos coragem de admitir. Assim, acabamos acumulando energias sem utilidade, carregando pesos que já perderam o sentido.

 

Quem sabe esteja na quebra os aprendizados que a estabilidade jamais nos permitiria perceber.

E se era chegada a hora - e a quebra veio, afinal, para a sua libertação?

 

Talvez existam mistérios que escapam à nossa lógica, movimentos invisíveis que só se manifestam quando o que parecia eterno começa a se desfazer, deixando nada como antes e abrindo caminho para algo que ainda nem ousamos imaginar.

 

Enquanto observava o recolhimento dos cacos de vidro, senti a sensação incômoda de que aquela cena se repetia diante de mim. Afinal, qualquer quebra tem o estranho hábito de reaparecer sob diferentes outras formas.

 

Aqueles cacos, espalhados pelo chão, despertaram uma lembrança antiga, quase esquecida, de um amigo que, por descuido, esbarrou em um delicado vaso de porcelana chinesa. Seu precioso valor, de repente, jazia caído, fragmentado em várias partes. O que antes era inteiro, admirado por sua beleza e história, estava no chão, reduzido a pedaços. Não havia cola capaz de devolver-lhe a forma original. Restava apenas a escolha entre juntar os cacos ou aceitar que algo havia cumprido seu ciclo.


O vidro da loja ao lado e o vaso do meu amigo diziam a mesma coisa, em tempos e contextos diferentes. Cada quebra é única, mas sentia com clareza que algumas simplesmente não pedem conserto. Há quebras que expõem fragilidades; porém, existem aquelas que, após o impacto, brilham com intensidade e profundidade inesperadas, manifestando força e maturidade.

Algumas pedem entendimento, exigem tempo, cuidado e intenção para se cumprirem. E, quem sabe, o espalhar dos pedaços seja também um processo de libertação.




lII. Das quebras à Unidade.


Nem tudo precisa ser refeito. Algumas rupturas existem para nos ensinar a reorganizar, a soltar e, talvez, a ter coragem de recomeçar de maneira diferente.

 

E, sendo de forma diferente, lembrei do Kintsugi, a arte japonesa de reparar cerâmicas quebradas com laca misturada a ouro. Nela, as trincas não são disfarçadas. Pelo contrário: elas permanecem visíveis e realçadas, mostrando que as quebras fazem parte da história do objeto. A peça não volta a ser o que era antes da quebra; ela se transforma. Torna-se outra: mais singular, mais forte, carregando em si a memória do impacto. Curiosamente, é nessa nova forma que muitas vezes se torna mais valiosa. O ensinamento é simples, mas profundo: as imperfeições não são defeitos. São marcas, sim, de transformação.

 

Um exemplo disso é o vaso quebrado, que, ao receber o Kintsugi, parece expressar uma força maior: a da aceitação. Em vez de esconder a dor, ele a integra. A quebra não o enfraquece; reorganiza sua forma de existir. Torna-o mais consciente de sua própria história, mais inteiro justamente por carregar suas cicatrizes.

 

Essa compreensão dialoga com o Wabi-sabi, que acolhe a impermanência de tudo o que vive, reconhecendo que nada é definitivo e nada permanece intacto. Todos temos fragilidades, fissuras invisíveis. Aceitar-se talvez seja isso: permitir que o ouro da experiência preencha as rachaduras, abraçando o que somos agora e, nesse gesto, transformar-se, dando outro significado ao tempo e à própria vida.

 

E, se olharmos para nós mesmos, não somos todos assim? Marcados pelos sinais de rupturas que não podem, e talvez não devam, ser apagadas. Cada dor enfrentada, cada falha nas escolhas difíceis, cada perda que nos obrigou a continuar, mesmo sem saber como, deixa sua marca. Nossas cicatrizes, quando devidamente aceitas, nos fortalecem e nos tornam únicos, contando quem somos.

 

Aceitar mudanças é difícil? Inegavelmente, sim, especialmente quando esquecemos que vivemos em um mundo de escolhas abertas.

E então surge a pergunta que nos desafia: o que é mais difícil: o choque da quebra ou a coragem de acolher os fragmentos e seguir de forma diferente? Quebrar ou admitir que precisamos mudar depois da quebra?

 

Enquanto esses pensamentos ainda permaneciam, o socorro finalmente chegou ao jovem. Ao me despedir, ele me olhou com serenidade e disse: “Que a paz reine no seu coração....”

 

Naquele instante, compreendi que algumas quebras não vêm para destruir, mas para revelar o ouro que existe dentro de nós.

 

Do lado de fora, timidamente, os primeiros raios de sol começavam a surgir entre as edificações.


A madrugada também aceitava o fim da noite.


E a manhã começava.


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