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Crônica #144 | Conveniência.

  • há 2 minutos
  • 8 min de leitura

A verdade negociada.



Capa Crônica #144 | Conveniência.
Capa Crônica #144 | Conveniência.

O que você encontrará nesta crônica:


"Há um ponto em que a verdade começa a ser negociada. E, quase sempre, não é por falta de saber, é por escolha: agir por conveniência é humano.  

Em muitos momentos, parece aceitável e até necessário. Mas, ao escolher sempre o menor custo imediato, evitando-se o desconforto, o conflito e a perda, abrem-se caminhos de fuga e de ilusão.

O que era verdadeiro se estagna e começa a se desfazer.  

E o tempo, corroendo-se junto ao que se escolheu viver, não devolve, no fim, desgaste e infelicidade?"





I. A Escolha.


A obra, afastada da cidade, seguia seu ritmo em um condomínio de chácaras, cercado por árvores antigas.

 

Cheguei cedo, sem pressa, acreditando que a concretagem da laje, feita no dia anterior, havia seguido exatamente o planejado. Pelo menos, era o que eu pensava.  Mas, de longe, antes mesmo de me aproximar, já era possível perceber o desalinhamento: uma leve flexão. Os escoramentos com pontaletes de madeira, sob a laje recém-concretada, não estavam como deveriam.  À primeira vista, nada tão preocupante, nada que sugerisse um colapso imediato, já que ainda estava dentro da margem de segurança. Mas não estava certo. E o erro não estava escondido: estava ali, exposto, diante de todos.  Parte da laje havia cedido. Não o suficiente para desabar, mas o bastante para deixar claro que algo havia sido feito fora do que deveria. E havia.

 

Caminhei até a estrutura, observando. Passei os olhos pelos pontaletes. O improviso sempre deixa marcas.

 

- “Por que usaram essas escoras com emenda, se houve recomendação de descarte?”, perguntei, sem levantar a voz.

- “Foi mais fácil, doutor... coisa simples, só um ajuste....”, ele respondeu rápido. - “A gente reaproveitou pra não desperdiçar. Ia faltar peça pra fechar o piso... e esperar chegar mais da cidade ia atrasar tudo, né? Aí a gente foi no mais prático mesmo.” Ele falava com convicção, acreditando que sua justificativa fazia sentido.

 

Seguir o mais fácil pode ser perigoso. Não porque seja sempre errado, mas porque quase nunca parece ser. E é assim que começamos a ceder, chamando de urgência aquilo que é apenas uma escolha por conveniência.

 

- “E a recomendação de descarte?”.  Ele desviou o olhar e argumentou:

- “Ah..., mas ainda estavam boas pra usar, não dava pra descartar.”

 

No dia anterior, João tomou uma decisão que parecia inofensiva. Naquele ponto, não foi o concreto que falhou, foi a decisão tomada.  Os escoramentos, que deveriam seguir uma determinada distância segura, foram montados com um pouco mais de folga. Era apenas um pequeno ajuste, uma adaptação, uma conveniência para aproveitar o material que já estava ali, acrescida da necessidade de emendas devido aos tamanhos um pouco mais curtos.

 

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Il. A ilusão do invisível.


Sentei-me sob um abacateiro próximo, tirei o capacete e o deixei de lado. Dali, continuei observando aquela parte desalinhada, sustentada por algo que já não sustentava como deveria.

 

Ele se aproximou.

“Mas fica tranquilo, doutor...” disse, tentando aliviar. - “Depois a gente corrige. Vai ter forro de gesso acartonado e, com a massa corrida e pintura, ninguém vai ver isso.”


Ninguém veria.

 

João tentava justificar o ajuste que havia feito, apoiado na promessa de invisibilidade, prometendo que o erro não seria visto, pois haveria camadas de acabamento que fariam as correções.  Ali estava, novamente, a conveniência surgindo como justificativa, não para resolver o problema, mas para escondê-lo, para encobrir um erro com outro.

 

Olhei novamente para a laje. Depois, para ele.  E me peguei pensando em quantas outras desculpas costumamos usar para suavizar nossas pequenas escolhas erradas. Quantas vezes dizemos “depois a gente corrige”, encobrindo, adiando, emendando o que deveria ser inteiro? Foi impossível não perceber o quanto repetimos isso na vida. Existem, porém, coisas que não desaparecem só porque não estão visíveis.

 

Não seria essa uma ilusão muito comum? A de acreditar que o que não se vê deixa de existir?

E, aos olhos da consciência, será que, de fato, isso se perde?

 

Na verdade, nada se apaga.  Tudo permanece, registrado, marcado pela escolha.

 

Assim como aquela estrutura, a vida responde no tempo da verdade, não no tempo da escolha.

Como aquela laje, que não caiu.  Porque nem tudo desaba de imediato; algumas coisas apenas saem do lugar.

 

E é aí que começa. O problema não é quando desaba, mas quando, sem perceber, começa a perder sustentação. Porque, quando finalmente aparece, já não se trata de um erro isolado, mas do acúmulo de tudo o que, pouco a pouco, foi se comprometendo até chegar ali.

 

Compreendi o raciocínio de João. Havia esforço ali e até boas intenções. Ainda assim, um argumento não anula o outro. Pela experiência dele como empreiteiro, ele conhecia os riscos, já que tinha conhecimento técnico.

 

Seria aquilo repreensível? Tecnicamente, sim, sem dúvida. Entretanto, o fator humano se impunha diante de mim. João foi prestativo, agiu com zelo dentro de uma ótica prática, quase emocional. Havia até certa coragem profissional naquele improviso conveniente.

Eu hesitava, sem saber se ele merecia elogio ou reprovação.

 

- “E o pé-direito vai perder altura”, continuei. Ele deu de ombros e disse que daria um jeito, que seria simples.

 

- “Vai ser difícil não ser percebido”, insisti.

 

Com um riso curto, respondeu:

- “É só o dono não ficar sabendo. Ele não vai perceber.”

 

Aquilo, para mim, pesou mais do que qualquer cálculo estrutural. Dessa vez, não respondi.

 

A conveniência, quando se repete, deixa de ser exceção e passa a se tornar padrão. E, quando isso acontece, já não lidamos mais com soluções, mas com decisões frágeis que vão perdendo firmeza ao longo do caminho.

O risco desse comportamento não aparece de imediato. Ele se constrói aos poucos, em pequenas permissões que parecem irrelevantes no momento em que são feitas.


Talvez o mais perigoso na conveniência seja justamente isso: ela não rompe no instante em que é escolhida. Apenas prepara o desalinhamento que virá.





lII. A conveniência.


Naquele instante, já não era mais sobre obra, madeira ou concreto. Era algo que eu já tinha visto antes, muitas vezes.

 

A conveniência nunca chega como erro. Parece lógica, razoável e quase necessária. Não chega, portanto, carregada de culpa ou dúvida. É assim que se instala: sustentada por justificativas que mais tranquilizam do que questionam, até se firmar como escolha, discreta, aceitável, sempre acompanhada da mesma promessa: “Depois a gente corrige.”

 

Mas estruturas não negociam com conveniências. Nem as de concreto, nem as da vida.

 

A laje não caiu, mas se comprometeu o suficiente para mostrar algo mais profundo do que um erro técnico: não foi falta de conhecimento, ele sabia. Não foi falta de orientação, foi escolha dele.

 

Escolheu facilitar o que exigia responsabilidade. Economizar onde era preciso sustentar. Reduzir esforço exatamente no ponto que sustentaria tudo o que viria depois.

 

E quase sempre é assim: no instante da escolha, nada parece definitivo, nem grave o suficiente para interromper o caminho que já se está trilhando.

 

Não é falta de saber o que é certo. Saber o caminho não impede o atalho.  O que muda não é o conhecimento, mas o momento. O certo não deixa de ser visto, apenas vai sendo adiado por conveniência. Não porque não possa ser feito, mas porque exige mais do que se está disposto a bancar naquele instante.

 

João viu sua decisão como prática, de bom senso imediato. Sabia o que deveria ser feito, mas escolheu o conveniente, justificando com a ideia de ajustar depois.  Deu um jeito de resolver.

 

No dia a dia, quantas vezes reconhecemos o caminho certo e ainda assim seguimos pelo mais fácil? E, aos poucos, passamos a tratá-los como se fossem a mesma coisa. Mas não são.

 

Fiquei em silêncio. João era cuidadoso, mas, naquela obra, o erro não nasceu da falta. Nasceu consciente. Da escolha de facilitar o que exigia responsabilidade.

 

Olhei novamente para as escoras, espaçadas e emendadas.

 

- “João... você sabia.” Ele não respondeu. Baixou o olhar e chutou de leve uma pedra no chão.

 

- “Sabia que não era pra usar assim”, continuei, sem elevar a voz.

- “Sabia que podia dar problema.”

 

Ele tentou responder, mas não encontrou palavras prontas dessa vez.

- “Eu tentei resolver... achei que ia aguentar...” 

 

Balancei a cabeça, devagar.


- “E aguentou. Mas não sustentou como devia. Tem coisa que não é pra resolver... é pra fazer certo.”

 

Silêncio.

 

Ele disse, quase se justificando:

- “Mas, na hora, parecia suficiente.” 

 

Em obra, não basta parecer. Dentro dela, trabalho e relações exigem postura técnica, baseada em cálculo e precisão. Nada se sustenta sem exatidão.

O que se escolhe por conveniência não desaparece; incorpora-se ao que se constrói e, com o tempo, manifesta-se em falhas, rachaduras e prejuízos.

 

- “Então foi erro mesmo?”, ele perguntou.

- “Não foi falta de conhecimento”, respondi. - “Foi escolha.” 

 

O que se evita hoje costuma aparecer amanhã como fragilidade.

 

Ficamos em silêncio, não por desconforto, mas por reconhecimento.

 

E é assim também fora dali. As estruturas da vida falham do mesmo modo; seguimos a mesma lógica. Os estragos acontecem, apenas de forma menos visível e mais disfarçada, mas não menos graves do que em uma obra.

 

Nos relacionamentos, nas escolhas, nos afetos, no trabalho. Em tudo. Quase nunca é diferente: evita-se o problema imediato, adia-se o inevitável. Porque não é o erro isolado que derruba, é o afastamento contínuo daquilo que já sabíamos ser o certo, e, ainda assim, adiamos.

 

Pensei em quantas estruturas, fora dali, cedem do mesmo jeito... só que sem concreto.

Na obra, vira falha técnica. Na vida, desgaste emocional, distanciamento e ruptura.




IV. A verdade negociada.


A conveniência começa onde a verdade exige custo, e recuamos.  Sua raiz não é praticidade, é fuga do desconforto, do conflito ou da perda imediata. Optar pelo conveniente quase sempre cobra depois o que se tentou poupar antes.

 

 - “João, aquilo que você tentou ajeitar, você já não sabia, no fundo, que era só conveniência?”  

 

O silêncio que veio não era dúvida. Era confirmação. Não era desconhecimento. Ele sabia. E toda escolha feita contra aquilo que já se sabe, cobra.  E talvez seja justamente por isso que a história dele não seja só dele.

 

Quantas vezes escolhemos adiar o fim, nos agarrando ao que já acabou, só para não enfrentar o vazio do rompimento?

 

Permanecemos por apego, hábito, conveniência. Estendendo o que perdeu o sentido. Evitando encerrar ciclos em histórias que, há muito, já terminaram.


Quantas vezes oferecemos mais uma chance, insistindo, prolongando decisões que, intimamente, já foram tomadas?                                                                                                                  

Isso não é tentativa. É a conveniência que apenas adia. Adia o enfrentamento, adia a decisão, adia o inevitável.

 

João sabia. E, no fundo, nós também sabemos.

 

Tudo aquilo que é adiado com consciência não se dissolve no tempo; portanto, não desaparece. Mais cedo ou mais tarde, retorna com mais força, mais clareza e menos espaço para fuga e negociação.  E, quando volta, se coloca diante de nós, cobrando e exigindo decisão.

 

Porque a verdade, depois de reconhecida, não se desfaz. Pode até ser contornada, evitada por um tempo, mas nunca anulada. Ela permanece, íntegra, à espera, não de mais tentativas, mas de um posicionamento definitivo.

 

Talvez viver certo nunca tenha sido sobre não errar, mas sobre não permanecer, por escolha, naquilo que já sabemos que não dá mais para “ajeitar”.  Depois que se sabe, a dúvida já não se mantém. Resta apenas tomar uma decisão.

 

Ou se faz o certo, ou se carrega o peso de conviver com aquilo que já se sabia e não se fez.

 

E, nesse ponto, não há mais meio-termo. Não há mais espaço para indefinição. Há apenas a linha.

Essa linha existe e é clara. E, no fundo, todos nós sabemos exatamente quando a cruzamos.

 

Você já cruzou essa linha alguma vez?

Sabe, com clareza, das suas escolhas, e ainda assim insiste na conveniência?

Até quando isso pode ser mantido?

Até quando...

enquanto o tempo, precioso, se corrói ... e não retorna mais.



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