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Crônica #142 | Toda vez que sinto algo estranho sobre alguém, estou certo?

  • Foto do escritor: Redação neonews
    Redação neonews
  • há 3 horas
  • 8 min de leitura

Intuição ou julgamento precipitado?



Capa Crônica #142 | A Quebra.
neOriginals Crônicas

O que você encontrará nesta crônica:


"Você já sentiu algo estranho sobre alguém, sem motivo aparente, e depois descobriu que estava certo? Intuição ou coincidência?

Entre percepção e julgamento, a vida frequentemente nos coloca diante de dilemas delicados: até que ponto podemos confiar no que sentimos?

Talvez a intuição perceba primeiro aquilo que a razão ainda levará tempo para compreender. Você costuma confiar na sua intuição ou prefere ignorá-la?"




I. O peso da intuição.


Era manhã de uma quarta-feira fria. Uma leve garoa caía enquanto uma neblina espessa envolvia parcialmente o local onde um homem era velado. Naquele momento, o silêncio parecia ainda mais denso que o próprio ar daquele lugar.

 

Eu permanecia isolado em um canto, observando amigos e parentes expressarem seus pesares pela partida daquele ente querido. A esposa, inconformada, fitava em silêncio a imagem imóvel diante de si, enquanto lágrimas escorriam lentamente por seu rosto, como se recusassem a aceitar a quietude que anunciava o fim.

Ao redor, coroas de flores circundavam o caixão; crisântemos brancos destacavam-se em meio ao colorido de tantas outras belas flores.

 

Lágrimas e flores compartilhavam o mesmo espaço. Dor e beleza coexistiam sem se anular, formando o paradoxo daquele instante.

 

Naquela sala cheia, percebi, porém, que ninguém dividia realmente a dor do outro. Cada lágrima pertencia a um território muito íntimo, e cada um permanecia, de algum modo, irremediavelmente só.

 

A morte reunia pessoas, mas não anulava a solidão de cada uma delas.

 

- “Mais um amigo parte no silêncio da vida, não é?”, disse Jorge ao se aproximar, com aquela serenidade reflexiva que sempre acompanhava suas observações.

 

Os encontros com ele raramente giravam em torno de política, economia ou futebol. De inclinação naturalmente filosófica, ele acabava conduzindo nossas conversas quase sempre para a razão, a moralidade e o próprio sentido da existência.

 

Enquanto conversávamos, percebi Jorge desviar discretamente o olhar para o outro lado da sala. Houve algo naquele gesto que despertou minha curiosidade. Quase por reflexo, acompanhei a direção de seu olhar.

 

Não muito longe de nós, um homem cumprimentava os presentes com um sorriso breve.

Suas palavras não eram deslocadas, e sim cuidadosamente escolhidas, refletindo expressões medidas   demais para aquele momento. Seus gestos eram discretos, nada excessivos, porém estranhamente vazios de presença, quase secos de calor humano.

 

Jorge comentou em tom baixo:


- “Curioso como, mesmo em momentos assim, a presença de certas pessoas provoca um desconforto que a razão demora a explicar.”


Conhecendo Jorge tão bem, eu sabia que ele não fazia acusações precipitadas. Seu desejo era compartilhar comigo uma forte impressão; era apenas sua percepção se traduzindo em palavras.

 

Então, quase automaticamente, observei novamente aquele homem.

Objetivamente, nada nele parecia inadequado, nenhum traço que justificasse desconfiança. Não existia nada suficientemente concreto que pudesse ser apontado para acusar aquele homem. Ainda assim, havia algo que escapava à lógica. Era como se os sentidos percebessem apenas seu olhar e pequenos sinais quase imperceptíveis, sutis desalinhamentos que a razão não conseguia alinhar de imediato.

 

Minha mente percorria pensamentos semelhantes, lembrando os resultados que a própria vida ensina com o tempo: o quanto aprendemos a desconfiar de nossas próprias percepções, silenciando essas pequenas advertências interiores. Muitas vezes isso acontece por educação ou pelo receio de parecermos precipitados, injustos ou até prudentes demais.

 

Em outras ocasiões, o conflito surge simplesmente porque não conseguimos nomear aquilo que estamos sentindo, independentemente de estarmos certos ou errados sobre alguém. E, outras tantas vezes, pelo desejo sincero de preservar a harmonia, de acreditar sempre no melhor das pessoas.

 

Assim seguimos pela vida, pouco a pouco desaprendendo a confiar na própria percepção, até que a experiência, quase sempre tardia, nos devolve aquilo que, no fundo, já sabíamos, mas que preferimos deixar em silêncio.


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Il. Antes da razão, o coração.


Enquanto pensava nesse conflito entre razão e percepção, veio-me à memória uma frase que a própria vida parece repetir em momentos como aquele.

 

Voltei-me para Jorge. Bastou um breve olhar entre nós para que a mesma frase surgisse, dita quase ao mesmo tempo:

- “Toda vez que tenho uma sensação estranha sobre uma pessoa, eu estou certo.”

 

Um leve sorriso surgiu em nossos olhares, e então parei por um instante. De tão repetida, aquela frase parecia carregar a força de uma verdade universal.

 

- “Mas será mesmo?”   

 

Jorge permaneceu alguns instantes em silêncio antes de comentar:

- “Talvez ela não seja inteiramente verdadeira, mas também não seja completamente falsa.”

 

Suas palavras ficaram pulsando em minha mente. Às vezes, essa frase realmente soa excessiva, quase arrogante, como se carregasse uma certeza absoluta. E a vida raramente cabe em certezas tão definitivas. Afinal, nossas impressões podem ser contaminadas por nossos medos, experiências passadas ou até mesmo por projeções inconscientes que ainda não compreendemos plenamente.

E mesmo assim, há momentos em que sentimos, com uma clareza quase impossível de ignorar, que a intuição fala antes da razão.

 

Por algum tempo ficamos observando o movimento discreto das pessoas na sala.

- “Sabe”, eu disse, “nem sempre aquilo que sentimos diz respeito ao outro; muitas vezes fala mais de nós do que do outro.” Jorge concordou com a cabeça.

 

Embora essa ideia pareça simples, ela carrega uma verdade difícil de aceitar. E, embora nem sempre estejamos certos sobre o outro, quase sempre somos avisados sobre algo que merece ser observado com mais cuidado e atenção.

 

Pensei naquilo por alguns instantes.

- “Talvez o mais difícil seja justamente isso”, comentei: “olhar com atenção e cuidado para o que sentimos, e não transformar, de imediato, a sensação estranha em julgamento.”

 

Jorge concordou e complementou:

 

- “A razão deveria fazer exatamente esse trabalho: escutar com calma aquilo que o coração percebeu primeiro.”

 

Nosso olhar foi chamado para um movimento que acontecia na sala.

 

Com o tempo e com as experiências que a vida traz, a sensibilidade naturalmente amadurece. O discernimento também se amplia, e ambos vão se refinando. Então começamos a compreender que o encontro entre duas pessoas é sempre delicado... e quase nunca tão simples quanto parece.

 

Estava pensando em como a experiência nos ensina que algumas percepções surgem antes das palavras, quando os movimentos internos já se manifestaram, antecipando qualquer explicação racional. Elas não apresentam provas, nem acusam; apenas pedem atenção. Nem toda sensação estranha revela uma verdade, mas ignorá-la por completo é uma forma sutil de cegueira.

 

Jorge sorriu de leve, como quem reconhece um pensamento compartilhado.

 

- “Há presenças”, disse ele pausadamente, “que ocupam espaço, mas não alcançam o coração.”

 

Essas palavras nos deixaram novamente em silêncio.

 

Talvez o difícil não seja sentir. O difícil seja acolher aquilo que sentimos sem permitir que o julgamento fale mais alto que a compreensão.

 

Jorge continuava observando, e meus olhos, curiosos, também o seguiam. O homem, agora, aproximava-se para cumprimentar a esposa.

Não estávamos com a intenção de julgar ninguém; apenas reconhecíamos aquelas sensações, fruto da experiência e da memória do coração, sem a necessidade de estarmos certos sobre ele.

 

Quase casualmente, Jorge voltou-se para mim e comentou:

- “Você já percebeu como, muitas vezes, demoramos a confiar no que sentimos?”

 

Quantas vezes ignoramos esses pequenos alertas para evitar conflitos, preservar relações ou permanecer próximos não por afinidade, mas por hábito, expectativa ou medo da ruptura? Muitos vínculos em nossas vidas já perderam a autenticidade e, mesmo assim, permanecemos neles como se não quiséssemos admitir essa verdade.




lII. O delicado equilíbrio.


Alguns dias se passaram.

 

No sábado daquela mesma semana, estávamos novamente juntos, desta vez em uma igreja, no casamento da filha de uma amiga querida. Era curioso perceber como a vida nos conduz de um extremo a outro: poucos dias antes nos despedíamos em um velório e, agora, éramos testemunhas de uma união.

 

O cenário era outro, mas algo ali soava estranhamente familiar.

 

Pensei que, também naquele momento, a fragilidade se fazia presente. Não na dor que nos envolvera dias antes, mas na intensidade do amor que preenchia o ambiente.

 

Jorge e eu nos sentamos lado a lado, na segunda fila. Ele observava tudo com a mesma atenção que demonstrara dias antes, durante o velório.

 

A noiva surgiu deslumbrante, conduzida pelo pai até o altar. No momento da entrega, ele se emocionou profundamente, incapaz de conter as lágrimas, emoção que também transbordou nos olhos da mãe. Havia naquele gesto algo profundamente humano: uma expressão de cuidado, amor e confiança.

 

Foi então que meu olhar pousou em algo curioso. Entre as flores que ornamentavam a igreja reapareciam os mesmos crisântemos brancos. Dispostos agora em elegantes arranjos, iluminados pela luz, espalhavam suavidade pelo espaço e se misturavam a outras flores delicadas em tons pastéis.

Os mesmos que, poucos dias antes, cercavam um caixão.

 

Transformados pelo contexto, antes associados à dor, agora participavam da celebração, envolvidos por risos, música e promessas de futuro. Pareciam lembrar que a vida, em sua delicada impermanência, é tecida por contrastes: perdas e encontros, despedidas e recomeços, em que aquilo que acompanha a dor também pode, em outro instante, abrir espaço para o inesperado. Talvez por isso, no ar parecia espalhar-se um perfume discreto de ternura e esperança.

 

Eu observava o casal diante do altar. Ao meu lado, Jorge também acompanhava a cena em silêncio. Pensei que talvez todo encontro humano comece assim: com uma percepção silenciosa que antecede qualquer explicação. Antes das promessas e das palavras ditas no altar, algo dentro de nós reconhece ou estranha uma presença. São sinais discretos, insuficientes como prova, mas suficientes para despertar atenção.

 

Por isso, o casamento parece sempre tão delicado. Diante do altar estavam dois mundos interiores ainda desconhecidos um do outro, cada qual trazendo suas histórias, fragilidades e expectativas. Dois seres humanos decidindo confiar um no outro, apesar de tudo aquilo que ainda ignoravam.

 

Em algum momento, eles sentiram que a presença um do outro despertava confiança, de onde nascem os vínculos mais genuínos, aqueles que seguem alimentando a vida.

 

Não será a vida, afinal, esse difícil e delicado equilíbrio?

 

Entre percepção e razão, entre o desconforto que nos alerta e a confiança que nos aproxima.  

 

Conseguimos realmente perceber antes de julgar? Ou, muitas vezes, transformamos cada sensação em uma sentença precipitada? Nem sempre é fácil manter esse equilíbrio diante da complexidade das relações humanas.

 

Enquanto a igreja se esvaziava, eu e Jorge ainda conversávamos, lembrando da manhã de quarta-feira, quando a neblina envolvia o lugar onde nosso amigo era velado.

 

Olhando as pessoas se movimentarem, falávamos sobre como elas entram em nossas vidas: às vezes como sombras, outras como faróis, umas discretas, outras radiantes, e algumas como raios, capazes de iluminar ou de perturbar.

E nem tudo precisa ser explicado. Sempre existirão percepções que chegam primeiro ao coração; pressentimentos que só a razão e o tempo conseguem decifrar.

 

Ali, ao lado de Jorge, senti como sua amizade nos ajuda a compreender a vida. Não apenas pelas palavras que oferece, mas pelo silêncio atento e pela presença constante, que acolhe e ensina com simplicidade.

 

Ao me despedir daquele encontro, pareceu-me que o peso daquela velha frase, dita quase ao mesmo tempo por nós dois naquele dia, resumia agora muito do que havíamos vivido nos últimos dias. Era como se ela voltasse a dizer:

 

“Toda vez que tenho uma sensação estranha sobre uma pessoa, eu estou certo.”

 

E você, já teve essa sensação estranha e confiou no que sentia antes mesmo da razão?


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