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Crônica #143 | Procrastinação.

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    Redação neonews
  • há 13 minutos
  • 8 min de leitura

Até não poder mais.



Capa Crônica #143 | Procrastinação.
Capa Crônica #143 | Procrastinação.

O que você encontrará nesta crônica:


"Há diferença entre não saber e escolher não olhar. Quase sempre sabemos onde estamos. Entre perceber e enfrentar, existe o adiamento. Procrastinamos como se houvesse tempo de sobra. Mas e se não houver? O tempo segue, acumulando tudo o que deixamos para depois. Até quando podemos ignorar o que já percebemos? Existe algo que você já reconhece, que sabe que precisa enfrentar, mas ainda deixa passar, adiando a decisão?"





I. A colisão: acaso ou providência?


A mancha de óleo escorria lentamente pela guia da calçada.

Foi ali, naquele instante, olhando para aquela linha escura que se alongava pelo asfalto, que percebi algo que já vinha sendo adiado dentro de mim há tempos: a vida, às vezes, precisa interromper nossos passos para que finalmente enxerguemos aquilo que insistimos em deixar para depois.

 

Quase sempre pela pressa e, muitas vezes, por uma escolha consciente, vamos adiando aquilo que, no fundo, já sabemos que não deveria esperar. Parece que existe uma espécie de ilusão natural de que tudo seguirá como sempre, de que nada é tão urgente assim e que sempre haverá tempo.

 

Foi ali que parei.

 

Ou melhor, foi ali que fui parado.

 

Naquele cruzamento tão conhecido, naquela esquina da avenida já domesticada pela repetição dos meus dias, o ritmo previsível da minha rotina se rompeu: uma colisão lateral, breve, seca. Nada grave, felizmente. Nada que ferisse o corpo, apenas o suficiente para interromper o curso daquele dia.

 

Eu conhecia bem aquele trajeto. Cada esquina, cada semáforo e cada tempo de espera.

 

Algumas rotinas se tornam tão familiares que quase deixam de ser percebidas, e o caminho para casa era uma dessas. Eu dirigia no piloto automático: mãos firmes no volante, os olhos atentos, enquanto a mente se dispersava entre compromissos, pensamentos soltos e pequenas promessas que eu vinha deixando de cumprir.

 

Encostei o carro na calçada e desci. Ainda sob o impacto do ocorrido, meu olhar foi puxado para uma mancha: o óleo escorrendo pelo asfalto. E logo seguiu outro percurso até encontrar a origem. Mas ela não era apenas mecânica. Era uma jovem. Trêmula, paralisada pelo susto, não conseguia reagir. Era como se ainda não tivesse voltado completamente ao momento presente.

 

Aproximei-me:

 

 - “Calma...  respire... vejo que você não se machucou... Tire o carro do meio da rua... encoste ali... puxe o freio de mão e desligue o motor.” 

 

Ela seguiu, como se precisasse, naquele instante, que alguém organizasse o mundo por ela.  Já parada, mas ainda muito abalada, estava com os olhos cheios de lágrimas.

 

- “Me desculpa, eu não te vi...”

 

Havia verdade naquele pedido, havia culpa na voz, mas havia também algo muito humano: ausência e um desamparo difícil de esconder.


É curioso como, muitas vezes, dois caminhos se cruzam justamente quando ambos estão distraídos demais para perceber. Ela disse que não me viu. E eu, por outro lado, também já não vinha vendo muitas coisas.

Dois distraídos, cada um em seu mundo, até que a realidade precisou se impor em forma de impacto.

 

- “Não se preocupe, meu veículo está assegurado.”

 

Não demorou para que seus pais chegassem. Conversamos, trocamos contatos e acionamos as seguradoras. Tudo seguiu o protocolo necessário.

 

Aos poucos, a situação foi sendo colocada em ordem, pelo menos do lado de fora. A jovem ainda estava sob o efeito do choque. O pai, apesar da frente bastante danificada, ainda conseguiu conduzir o carro da filha.

 

Quando tudo parecia resolvido com o carro da jovem, voltei ao meu para avaliá-lo com mais atenção. A mancha de óleo já não era apenas um detalhe; era um aviso concreto de um problema maior. O óleo havia desenhado um caminho no chão. A batida contra o bloco de concreto do canteiro central havia provocado uma fissura no motor. Não havia o que fazer além de acionar o guincho. A previsão: quarenta minutos. Quarenta minutos de espera. Quarenta minutos de silêncio.

 

Tempo suficiente, e valioso, para algo necessário, que eu vinha evitando há tempos: olhar com honestidade para aquilo que eu já sabia e, ainda assim, vinha adiando. Foi ali, à beira da calçada, que a pergunta surgiu sem esforço, mas com mais força do que o próprio impacto. Como se já estivesse pronta, apenas aguardando o momento certo para se apresentar: acaso... ou providência?

 

Pensando bem, aquele momento não começava ali.

 

Quantas vezes a vida tenta nos avisar de algo, e quantas vezes seguimos por cima, como se não fosse nada? O impacto não era o início. Talvez fosse apenas o ponto em que já não era mais possível ignorar.

 

Para mim, havia mais do que acaso. Havia algo de providência naquele instante. E eu sentia isso na espera do guincho, naquele incômodo que dizia o que evitamos admitir: quase sempre sabemos o que pede atenção, o que exige cuidado, mas, ainda assim, seguimos adiando.


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Il. Procrastinação.


O que deixamos para depois nem sempre assusta no começo. A procrastinação surge devagar, como uma escolha temporária, sutil, um adiamento que parece inofensivo. E então seguimos. Procrastinamos. E, para tornar isso mais leve, damos outros nomes: falta de tempo, cansaço, excesso de compromissos. Às vezes, dizemos que é apenas uma fase pela qual estamos passando. Nomes que encobrem aquilo que, no fundo, sabemos: negligência disfarçada de falta de tempo. É escolha, a escolha de não parar, de não agir. Portanto, procrastinar não é esquecer. É saber e, mesmo assim, adiar.

 

Não é o tempo que passa que pesa na procrastinação, é o que deixamos acumular enquanto ele passa.

Acumula-se justamente aquilo que evitamos. O que era pequeno cresce. O que era simples se complica. E aqueles sinais, antes discretos, em algum momento deixam de avisar e se tornam limites.

 

Eu pensava nisso. Pensava em como aquela ruptura havia começado muito antes daquele dia. E já não me perguntava por que aquilo tinha acontecido comigo, mas há quanto tempo eu vinha sendo avisado.


Meses antes daquele acidente, meu carro de trabalho, um utilitário, já vinha dando sinais. Falhas discretas, pequenos incômodos, avisos de que algo não estava bem.

O primeiro foi o ar condicionado, que parou de funcionar direito. Como era inverno, não me importei e decidi que, na semana seguinte, iria resolver. Não resolvi. Duas semanas depois, o vidro do passageiro travou. Fiz outra promessa: consertaria junto com o ar condicionado. Não fui.

 

Em seguida, o farol baixo esquerdo apagou. Dessa vez, o descuido cobrou mais rápido. Numa noite, voltando pela rodovia, fui parado por um policial. Multa. Advertência. E, ainda assim, segui.

 

O problema não era que eu não visse. Eu via. Mas adiava, conscientemente, o que sabia que precisava ser feito. Tempo se arranja quando se quer; portanto, não era falta de tempo. Era o hábito de adiar aquilo que já pedia decisão.

 

Outros sinais vieram, menores, repetidos, quase como uma sequência insistente: borracha da porta, fechadura elétrica, consumo excessivo de água do radiador... até surgir, discretamente, uma mancha de óleo na garagem. Eu sabia, mas fui seguindo, ajustando o caminho ao problema, nunca o problema ao caminho. Sempre havia uma justificativa razoável, algo mais urgente, uma prioridade maior, à espera de um momento mais conveniente.

 

Esse tipo de atitude é muito mais comum, e mais nosso, do que estamos dispostos a admitir.

 

Nós fazemos isso não apenas com o carro. Fazemos com a saúde, quando ignoramos sinais que pedem cuidado. Com os relacionamentos, quando evitamos conversas necessárias. Com a própria vida, quando deixamos para depois aquilo que, no fundo, já sabemos que deveria ter sido olhado com mais atenção.

 

Quase sempre sabemos onde falta cuidado. Sabemos o que estamos evitando e o que estamos empurrando para depois. Procrastinamos esses cuidados, as conversas e, portanto, as decisões necessárias. Procrastinamos até aquilo que sabemos que, se resolvido hoje, evitaria dores maiores amanhã. Porque parar exige mais do que tempo. Exige disposição e coragem para olhar de perto e encarar o problema. E quantas vezes temos medo do que podemos encontrar? 

 

Então seguimos contornando os pequenos desconfortos, sustentados pela ilusão de que, enquanto ainda estamos dando conta, não é tão urgente assim. E o que passou da hora vai sendo empurrado para depois.

 

Até que, um dia, já não é mais escolha.

 

O tempo não pausa junto com a nossa negação. Ele segue e, como aquela fissura no motor, o que antes era escolha passa a ser consequência.





lII. Sinais Ignorados.


E a minha mente voltou à promessa que eu havia feito a mim mesmo: resolver tudo em dezembro. No período de recesso, eu encostaria o veículo para todos os reparos, uma manutenção completa. Prometi e continuei usando o carro como se a promessa, por si só, tivesse o poder de manter tudo funcionando. Como se pudesse substituir a decisão. E segui.

 

Dezembro chegou, e o veículo continuava trabalhando. Até que, naquele dia, tudo foi interrompido. O “depois”, tantas vezes adiado, decidiu chegar antes de mim, na forma de uma colisão.


Naquele momento, o tempo se mostrou para mim de forma simples e irredutível: ele não negocia com aquilo que adiamos; apenas segue, acumulando.

 

E, quando percebi, aquilo que poderia ter sido resolvido com cuidado e pequenas decisões, inevitavelmente exigiu uma parada completa: breve, seca, como aquela colisão. E isso foi o que exatamente aconteceu.

 

Isso é o que acontece na vida: não de uma vez, mas aos poucos. Os sinais vêm primeiro. Discretos, repetidos. Chegam insistentes, na medida certa para não nos assustar, até que nos acostumamos a conviver com eles. Diminuímos sua importância. Ajustamos o caminho e empurramos para depois.

 

Fui interrompido por um ruído que crescia ao longe. O guincho finalmente chegava.

 

Enquanto ele erguia meu carro, um forte estrondo se espalhou pela rua. Outra colisão, outro acidente. No mesmo cruzamento. Desta vez, não houve silêncio. Dois homens desceram exaltados, aos gritos e com raiva, trocando acusações e xingamentos, em meio a gestos bruscos. Não havia escuta, apenas reação. A tensão crescia, prestes a romper em algo maior. Era como se já não discutissem apenas o acidente, mas tudo aquilo que vinha se acumulando muito antes dele.

 

Eu e o motorista do guincho observamos por alguns instantes. Depois, partimos.

 

Fiquei pensando: assim como aquela explosão dos homens, o meu problema também não havia começado naquela colisão. Apenas havia chegado ao ponto em que já não podia mais se conter. Então, talvez, não seja só sobre acidentes. Talvez seja sobre tudo aquilo que vamos deixando acumular, por fora e por dentro, até que transborde em forma de reação.

 

Assim como adiamos no externo, adiamos também os ajustes internos. Vamos empurrando, quase sem perceber, até que aquilo que era simples deixa de ser.  E então transborda. Às vezes em forma de falha. Às vezes em forma de ruptura. E, às vezes em forma de colisão.  

 

Foi ali que a verdade se impôs: quando escolhemos adiar o que já nos foi mostrado, o que antes era orientação, mais cedo ou mais tarde, se transforma em limite.

E, com mais clareza do que gostaria, percebi: o problema nunca foi não saber. Foi adiar o que eu já sabia.

 

E você: o que já sabe, e ainda assim escolhe adiar?


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