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Crônica #51 | Impaciência

A complexa equação na ira




Ao perder o controle de si mesmo, perde-se a compostura, brota a inquietação trazendo os fantasmas por coisas banais; a prudência e o bom senso da razão nem se atrevem a aparecer. Ficando fora de si, perde-se a noção do verdadeiro e justo.


A ira é estudada como um, entre os sete pecados capitais. Os outros seis conseguem se esconder, permitindo seguir de uma forma camuflada nos comportamentos, secretamente. Mas ao contrário, a ira se estampa fisicamente de forma bem peculiar. Agora, imaginem uma pessoa irada: a cara fica vermelha, o olhar fulminante, o corpo rígido, respiração rápida, e as reações em cadeia então, nem se precisa explicar. A pessoa fica possessa, vem à tona todas as suas sombras juntas, grita, esbraveja, agride com palavras duras e segue com eloquência sem medidas. É algo assustador, quanto mais intensa a sua manifestação, pior o descontrole.


Dispare a primeira palavra de indignação quem nunca se irritou na vida. Quem nunca disse “ai que raiva”, “ai que ódio”, “se eu pegar eu enforco”, “meu sangue está fervendo”, e por aí afora...


Certa vez, numa cidade de estância hidromineral, estava eu sentado numa praça. Era uma praça toda arborizada, clima gostoso, ambiente tranquilo e pacato. E eis que se aproxima um vendedor, me oferece para comprar um dos seus biscoitos. Falou do biscoito, do preço e quando fui pagar percebi que eu tinha deixado a carteira, na bolsa da minha esposa. Logicamente ela já tinha partido para uma peregrinação e certamente iria visitar todas as lojinhas do local. Sem opção, pedi desculpas e expliquei o ocorrido.


- “Eiii, larga mão de ser mentiroso e muquirana, fala que não tem grana, mas tá cheio aí o bolso”; indicando com seu dedo o bolso da minha calça jeans. Eu tinha guardado nele o meu porta óculos e um pequeno caderninho para anotações... O rapaz exclamou em alto tom, imaginando e concluindo ser a minha carteira.


No momento isso me irritou, e muito. Antes que pudesse me levantar para mostrar-lhe os conteúdos do bolso, ele tomou a bolacha da minha mão e saiu falando palavrões, irritado, nervoso e gesticulando agitado seus braços para o alto. Seguiu seu caminho para abordar outro turista na praça. A raiva poderia ter batido num nível mais alto para provar o erro do vendedor. Além de não ter tido nem tempo de me defender, preferi não ir atrás dele. Eu estava com a minha razão e um confronto direto para explicar-lhe ia rebater a sua verdade; talvez pudesse gerar agressões.



Vemos semelhantes situações acontecendo no trânsito. Muitas vezes por tão pouco! São buzinas tocadas, palavrões, gestos obscenos...variadas formas de expor a incontrolada explosão da ira. Devemos entender que as reações agressivas dos irados não tem a ver com a outra pessoa e sim tem a ver com as suas próprias dores, suas raivas, sua intranquilidade, seu desequilíbrio. Então se pensarmos assim, entendendo a dor que é do outro, aceitamos o ocorrido e seguimos com a vida, seria mais uma prática do exercício da paciência. A paciência está do lado oposto da ira.


A ira é uma paixão tão desenfreada que provoca ódio, desejo de vingança e pode sim partir para agressões até físicas. O irado ofende as pessoas e até a Deus. Quantas vezes não ouvimos alguém dizendo “Deus, porque eu nasci? ” “Deus, porque tem que ser assim, porque esqueceu de mim? ”


Existem pessoas que não reagem imediatamente diante de um ato de agressão, já viu isso? Conhecem alguém quietinho, que quase nunca fala, que sempre engole seco? Essas pessoas tem uma resposta tardia e quando isso acontece.... Saia de perto, é uma explosão tal que surpreende e assusta qualquer um que esteja presente.


Aristóteles coloca em evidência três tipos de iras.

Ira dos violentos; são aqueles que se irritam por banalidades e são irritantes com as pessoas.

Ira dos rancorosos; se irritam pela lembrança de algo que julgou como injúria, ofensa, traição. Vivem a vida inteira trazendo e remoendo essas agressões recebidas. São raras as ocasiões em que conseguem dizer para si, “chega, basta! ”.

Ira dos obstinados; vingativos, esses são terríveis e perigosos! São pessoas que obtém sua falsa paz com a destruição do outro. Haja o que houver, sem medir ou ter arrependimentos, eles vão se vingar.


A ira é algo momentâneo, geralmente relacionada a uma pessoa ou acontecimento específico e ligada a uma dor, como uma ofensa, como uma indiferença, um desprezo, etc. Com o passar do tempo, a tendência é o seu desaparecimento. Pode, porém, ao invés de desaparecer, se avolumar e se petrificar dentro da pessoa. Algo que seria passageiro, se estende às vezes, por anos a fio, tornando-se assim em ódio, um ódio generalizado.


Então, a partir dessa extensão incontável de duração e dependendo também da intensidade que se tomou dentro da pessoa, haverá um desencadeamento de comportamentos estranhos.



Perdeu a crônica de semana passada? Leia o texto na íntegra clicando aqui: Crônica | O Cata-vento



A impaciência; ela simplesmente passa a irritar-se com tudo e por pouca coisa. Sempre inquieta, não consegue paz no seu coração. Progredindo nessa linha utiliza-se de ameaças, palavras ameaçadoras fazem parte de forma comum nas suas atitudes, não se importa com as profundidades ditas. O ciclo caminha e se torna pior quando isso passa para agressão física; já não existe mais a razão. A ira pode estar tão presente e frequente que assume uma forma contínua na vida da pessoa, o seu ser ferve em ódio. Com esse ódio borbulhando em todas as suas células, não existe mais nada na sua frente, apenas o desejo de vingança. Totalmente cega, tomada pelo ódio, descartado todo e qualquer senso da razão, se dispõe a se vingar. A qualquer preço, não importa consequências, nem para si quanto menos para os outros. Triste rumo para a sua eterna vida.


Cabe a cada um de nós analisar o seu interior e no reconhecimento de um comportamento repetitivo e constante, interromper esse ciclo; da impaciência por exemplo, que pode sim caminhar a um ódio mortal.

Cada um tem a sua responsabilidade pessoal, afinal seu comportamento pertence a si e não ao outro.


O que gera a ira? O princípio da ira está num desejo, que não foi realizado.


Qual a origem do mal? Uma das piores coisas é aquele ser humano que se acha um deus e que assumindo ser esse deus acaba se desumanizando. Ou daquela pessoa que se acha o eleito por Ele e em seu nome se faz de poderoso. Não assumamos papéis que não nos pertencem, somos humanos, apenas humanos.


Consideremos, de forma bem realista: todo mal começa e entra pelo pensamento.

Pensemos num parâmetro interessante. No princípio o homem e a mulher viviam nus e não nasceram com vergonha. Eram donos de si. Foi no aparecimento da serpente que tudo mudou; pensemos na serpente como uma representação de um diálogo de si, consigo mesmo. A árvore proibida é representada pelo conhecimento do bem e do mal. Num determinado momento a serpente diz:


-“Falaram que você pode comer tudo, exceto uma determinada fruta.... Não acredita não, é mentira! Sabe por que Ele diz isso? Só para ninguém tomar o trono Dele. E se você tiver o conhecimento do bem e do mal será igual a Ele”.

Com isso sabe-se do primeiro mal praticado: sedução. Com essa analogia percebemos que o mal, primeiro entra no pensamento e depois seduz, fazendo parecer bem o que é mal e vice-versa.

Ao experimentar o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, sentiram vergonha das suas limitações. O Criador não queria que se negasse a nossa Humanidade, era para permanecermos plenos como humanos e não querer assumir o Seu lugar. No ato da vergonha, necessitaram cobrir-se de vestimentas, de mantos de mentiras, de maldade.... A partir desse ponto, cada um fez suas vestimentas, escolhendo suas cores, estilos, etc.… ou seja, falsidades vestidas com elogios.


Uma maneira de transpor o mal é aceitar a própria limitação. É do coração do ser humano que sai todo tipo de maldade. A pureza existe então, na não eternização do mal que existe dentro de nós.


Quem comete o mal se esconde, sempre culpando os outros. Foi ciclano que falou para eu fazer isso... Foi fulano que me ensinou que o certo é fazer tal coisa. Assim se esgueirando das responsabilidades e atribuindo para os outros seus próprios atos. A ira não é de propriedade do que o outro lhe impôs, a responsabilidade do que brota dento de nós é nossa. Fica fácil desresponsabilizarmos da culpa, o ato do mal.


A nossa essência é o bem, então o mal é uma contradição da natureza humana. A existência humana será plena quando o bem prevalecer. Somente o bem nos concederá a plenitude tão desejada e buscada, porém, muitas vezes procurada em caminhos errados.


Meditemos sobre isso!

Na nossa essência, que é puro bem, mora a semelhança