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Crônica #47 | A garotinha de patins

Atualizado: 16 de fev.

Coragem ou imprudência. Eis a questão!




Moro num residencial composto por casas, muito tranquilo e propício para belas caminhadas. Em frente a minha casa, uma pequena pracinha e com a rua de menor movimento de todo condomínio. Essa rua tem uma parte plana, seguida de um ligeiro declive quase imperceptível.


Certo dia vejo um pequeno grupo de crianças e os adultos sentados sob a sombra da mangueira da pracinha. De pé, um homem gesticulando como se fosse um palestrante. Depois de um bate papo, eles vão alegremente até ao veículo estacionado e o homem retira uma sacola. Como se fossem presentes de natal, curiosos e empolgados se juntam ao redor daquele homem. Num trabalho alegre e ao mesmo tempo enérgico, ele controla a situação das crianças. Ele era um instrutor de patins. Percebo que eram marcadas duas aulas práticas na semana.


Pacientemente os pais uniformizam os pequenos com luvas, capacete, cotoveleiras e joelheiras. Equipados e parecendo patinhos fora d’água se inicia a aula. A primeira aula foi engraçada. Reclamações, risadas, tombos, gritaria, fazendo um mix de incentivos das mães que acompanham os movimentos estranhos ainda. Minha observação me rendeu uma grande lição.



Entre o grupo de meninos, já quase na pré-adolescência, uma garotinha se distava dos demais. Não aparentava ter mais que cinco a seis anos. Os meninos, no seu estilo “vamos que vamos”, já partiram para a parte prática. Consequentemente, vários tombos e arranhões. A garotinha bem mais cuidadosa pediu ajuda da mãe para os seus primeiros passinhos. Ela segurava firme com as duas mãos demonstrando medo e insegurança; o desconhecido estava ali diante dela.


Foi um exemplo de coragem!


Como coragem? Corajosos são os meninos que partiram aos tropeços arriscando já uma descida... é o que a maioria vai dizer.


Engana-se.



Ter coragem não é ter impulsividade, não é a ausência do medo e muito menos entrar na postura do “vamos que vamos”. Podemos dizer que é imprudência e não coragem. A imprudência não dá espaço para se analisar a razão. Não há tempo para ter razão suficiente para se saber se deve ou não fazer


Coragem não tem nada a ver com sorte. Coragem vem de Core, de “Coração”. É agir com o coração e com amor. O sentimento de amor é capaz de romper barreiras travadas pelo medo, é onde surge uma expansão, uma abertura para as situações ou mesmo para a vida, falando de uma maneira mais ampla. Independente das situações limites de desejos, de prazer ou de uma dor que possam vir, a coragem nos capacita manter o domínio da razão, de seguir as ordens da razão, do que realmente deve ser feito. É a prudência se antecedendo, analisando, escolhendo com sagacidade para dar passagem à ação da coragem.


E dentro desse conceito, ela é um elemento que dá chance de pensar em uma saída planejada, estratégica e com audácia tomar uma decisão mais assertiva. A coragem tem aversão à inércia, só tem sentido quando está unida com ação.

Coragem é um ato.


Perdeu a crônica de semana passada? Leia o texto na íntegra clicando aqui: Crônica | Aceitação



É ela também que nos tira da inércia, do conforto, do prazer ou mesmo da preguiça para enfrentarmos nossos medos, desafios ou mesmo nossos defeitos.


Ao se seguir a razão, as virtudes, aos princípios; haverá o fortalecimento do ponto de apoio interno. Se assim formos capazes de determinar nossos valores, teremos como escolher o elemento que nos dará a estruturação de liberdade e determinação do que pode ser nossa vida. A segurança vai se fortalecendo e o medo vai ficando mais tímido. Porém, sempre surgirão novos medos, é meio que inevitável nessa vida. A cada apego que vai surgindo novos medos vão aparecendo e assim continua nossa jornada. Ter medo faz parte do ser humano, não existe pessoa que não tenha medo de nada. Ele é importante até para nossa sobrevivência, pois sem ele ficaríamos vulneráveis. Ele age como um sinalizador que dispara um alerta... “prepare-se que lá vem um tsunami!”


Não devemos confundir medo com pânico. Pânico é algo mais profundo que sequer tem ação.

O medo faz agir e o pânico deixa sem ação.



Com medo ou sem medo não devemos parar, pois à medida que formos experienciando, desenvolvendo domínio sobre nós mesmos e sobre as situações, vamos adquirindo mais confiança e vendo a coragem surgir com mais frequência. A coragem é temporal, ela só existe no presente. Não é porque se foi corajoso uma vez que se será para sempre, então para que ela se manifeste nas situações do presente ou futuras de necessidade, é necessário fazê-la acontecer novamente. Daí então entra a capacidade e entendimento individual de cada um em relação às suas questões.


Passa-se o tempo e o treinamento das crianças continua. Os meninos numa rebeldia só! Sempre provocando quedas, avanço de sarjetas, constante gritaria de como se equilibrar ou não. A garotinha obediente, segue à risca o treinamento de postura, balanço de corpo, impulso em cada perna, grau de abertura dos patins, força aplicada, centro de gravidade deslocada, posicionamento dos braços etc. Graciosamente o seu movimento começa a se assemelhar a uma dançarina olímpica de patinação no gelo. Na sua graça, na sua coragem, determinação, dedicação e leveza atinge o seu objetivo.



Leia também para mais uma dose de filosofia em seu dia: A vida em arte



Lembro-me do dia em que ela chorou por uma queda mais forte. O seu instrutor chegou próximo dela, ajoelhou-se e disse:


- “Vamos garotaaaaa! Tu és forte! Levanta-te! Mostre para você mesma que tu podes! Não se importe com as risadas dos seus irmãos. ”

- “Tio não quero mais. Isso é para os meninos...”

- “Quem disse isso? ”


As quedas são inevitáveis no processo de aprendizado de qualquer coisa que se quer conquistar na vida, indubitavelmente. Não há conquistas sem antes tentar e tentar e tentar... O treinamento desenvolve a capacidade de se dominar o desconhecido. Assim como o domínio das emoções, dos sentimentos e do próprio corpo, no caso da garotinha dos patins. Fugir das situações ou do treinamento nos torna mais fracos e vai limitando tudo a nossa volta, até mesmo nosso espaço psicológico. Nos tornamos reféns do medo e consequente fracasso. Não se realiza o prazer de experimentar o sabor da superação e preenchimento do ser com a conquista da coragem. Tudo requer treinamento, persistência, força de vo