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Crônica #46 | Aceitação

Atualizado: 16 de fev.

Leveza e liberdade no caminho



Na minha adolescência conheci um menino, estava com a idade por volta dos seus dez anos. Ele tinha uma certa deficiência física devido a problemas sofridos durante o seu parto. Sua mãe era uma pessoa muito trabalhadora e dedicada. Seu pai era carpinteiro. Viviam numa casa de fundos, simples e anexo a uma pequena garagem.


O menino não tinha coordenação motora para segurar uma colher, então contava sempre com ajuda dos pais e do seu irmão caçula para se alimentar. Sua vida se resumia numa cadeira de rodas, conseguia movimentá-la muito pouco, pois tinha os dedos e braços enrijecidos. Sua mãe sempre muito cuidadosa provia-o de todas as necessidades e seu pai o levava para passear numa pequena praça, próxima da sua casa. Devido a sua deficiência, seu olhar era sempre voltado para o teto. Não conseguia elaborar sentenças, apenas palavras soltas e necessárias.


O menino chamou minha atenção desde o começo. Eu estava naquela fase aborrecida de adolescente imaturo e julgava como cruel e injusto a situação do menino. Queria de alguma forma fazer alguma coisa, mas não sabia como, então decidi visitá-lo semanalmente.



Apesar de toda sua deficiência, ele entendia as conversas. Com todas as barreiras e dificuldades ele foi se alfabetizando. Aprendeu a ler pausadamente e escrever o seu nome. O primeiro livro que ele ganhou foi Contos infantis de Jesus e seus milagres. Com o tempo, aprendeu a segurar uma colher, um copo d’água e escovar os dentes. Aos doze anos, numa força descomunal física e mental, levantou-se da cadeira de rodas e mesmo com toda a dificuldade de coordenação das pernas, andou....


Cresceu apoiado em bengalas. Os passos eram lentos e pausados, mas ficou independente da cadeira de rodas e da sua prisão solitária.


Jamais reclamou da sua situação. Era muito carinhoso com sua mãe, a abraçava com carinho e falava “o-bi-ri-ga-do mãe”... Dava conselhos enérgicos sobre a vida ao seu único irmão.



Perdeu a crônica de semana passada? Leia o texto na íntegra clicando aqui: Crônica | Simplicidade



Conforme foi passando o tempo ele decidiu que queria ter seu próprio sustento. Ele pediu minha ajuda e depois de muito pensar surgiu uma ideia. Com ajuda de um outro colega, criamos uma fôrma com molde para dobrar arames para confecção de cabides. Eram arames revestidos com tubos plásticos de várias cores. Deu certo, e ele então começou a fabricar cabides coloridos. Quando eu passava em frente à sua casa, lá estava ele na sua garagem e concentrado no seu trabalho; sorria alegremente e acenava com as mãos. Realizou-se o sucesso nas vendas de milhares de peças, em feiras e no próprio portão da sua garagem..


O menino cresceu, como ser humano e nas vendas dos cabides...


Eu precisei me mudar de cidade, cursinho, faculdade e especialização no exterior. Após isso meu trabalho me distanciou ainda mais. Numa despedida marcante, ele me pediu uma dedicatória para um livro que ele iria escrever contando da sua vida. Não pude me conter em emoções... escrevi como um exemplo de vida, de batalhas e vitórias. Me senti muito envergonhado pelo meu ego, que havia julgado a realidade dele como injustiça de vida, do Criador.


O tempo passou. No início recebia as cartas, ainda que com escritas trêmulas... Lembro-me que quando encontrei com seu irmão, casualmente num shopping, ele me contou um fato ocorrido no aniversário dos seus quinze anos. Com o esforço do seu trabalho conseguira e iria entregar uma quantia razoável para comprar um carro para o negócio do seu pai. Nesse dia, serenamente, o seu pai descansou e partiu sentado numa poltrona...


Vi e convivi com o sofrimento de um pequeno menino. Aprendi com seu exemplo de vida, dar sentido verdadeiro ao que deve ser a vida.... Sem se abater e sem se vitimizar, aceitou e compreendeu sua difícil caminhada. Buscou ajuda. Desenvolveu- se e criou sua independência.


O que passa então pelos meus pensamentos hoje?



Todas as coisas e fatos estão interligados e hoje se comprovam na física e na química que isso é real no mundo atômico e cósmico. Então porque há necessidade de isolarmos achando que os pensamentos não estão ligados? Parece não existir conexões de uma coisa ou acontecimentos que vivemos no dia a dia. É algo profundo, em termos de mente humana. Ao julgarmos e rotularmos as coisas ou as pessoas, a totalidade fica cada vez mais isolada, distante de uma compreensão. E porque isso acontece? Simples! É no pensamento que deflagra a ruptura do Uno e pode perceber que essa cisão é nítida quando pensamos na Totalidade. Acredito que muitos têm seus próprios exemplos. Veja um caso de separação entre pessoas queridas. Por um acontecimento ou palavra com interpretação equivocada, geram discussões, agressões, desafetos e acusações sem notar que na sua totalidade é a União, um elemento superior entre duas pessoas. Na fragmentação do ódio que quebra uma compreensão, impondo a verdade de cada um sendo como verdadeira, única e absoluta.


Imagino que cada fato seja uma peça de um vasto quebra cabeça. No começo essa peça pode ser uma peça qualquer esparramada entre outras tantas de um todo. Com as conexões das peças, essas que são fatos e que aparentam ser insignificantes e não ter sentido, exercerão funções importantíssimas quando se aproxima na montagem final. Isto é, aquela única peça servirá no seu eixo, preenchendo o vazio e dando conexão ao todo. Quando se começa a aceitar os fatos tais como são e admitir que eles cumprem uma função específica, inicia-se um processo de entendimento da totalidade, rumo à liberdade e fim de sofrimento.


Quanto ao menino, acredito que passou por seus pensamentos e se perguntou “...sou infeliz....” ou “...estou infeliz...”?


Geralmente a infelicidade tem uma conexão com um fato, unida num tempo que ocorreu. A infelicidade não veio no pacote quando nascemos e sim adquirida durante a vida “montada” pela mente. Apenas uma conexão com identificação do ocorrido e numa determinada época, ou seja, no tempo. Ora, se o controle do tempo passado e futuro fogem das nossas mãos então o que resta? Apenas o fato. Pode vir à tona raiva ou arrependimento. Isso não é infelicidade e sim uma forte pressão que vai acabar se descarregando em determinados órgãos do corpo. Pressão é vista como concentração de energia, ela não ativa sensação de infeliz estou.


Não são as situações que provocam infelicidade e sim as interpretações que são feitas, as montagens de histórias para si. Vitimização, pena, fracasso, inferiorização... e a nossa subconsciência “se livra” por comodidade e passa a responsabilidade às coisas, ou diz que as outras pessoas é que estão erradas.


Leia também para mais uma dose de filosofia em seu dia: A vida em arte




No “achismo” de imaginações de que eu estou certo e os demais estão errados faz com que sejamos colocados num pódio de primeiro lugar, com uma taça confeccionada com “ouro de tolo”. A ilusória superioridade nos dá o não reconhecimento da falsa noção do “EU”.


Hábitos poderão ser rompidos.


Evitar críticas, julgamentos das pequenas coisas de si e de outras pessoas amadas já é um bom começo. Não podemos rotular sempre como desastroso, ruins e caóticos os fatos e sim desenvolver a capacidade de aceitar as situações tais quais são no momento. Existiu uma razão para estarem como estão. Evita-se assim uma tensão emocional desnecessária. Deixar fluir. Sair dos extremos do errado e certo, boa ou má; porque na classificação, o universo da mente ruma para o complexo. Quando coisas ruins acontecem, deixem elas tal como elas são. Ao sentirmos raiva ou ressentimentos, logo pensemos: “Não vale a pena levar e manter isso dentro de mim....”. Pior: um sofrimento seu pode influenciar outro próximo.


Não deixemos que os pensamentos negativos dominem. Percebamos rapidamente logo que surgem, pois poderão ser transformados para o pensamento positivo. Digamos para nós mesmos: “é para o meu crescimento e aprendendo agora, quando esse mesmo fato acontecer em outro momento já estarei com a lição feita, não sendo necessário repeti-la”. Assim, o bem se revela internamente e reflete no seu eu externo. Não resista ao mal, necessário se faz compreendê-lo como ele é...


Cada coisa está no seu devido lugar, ao tentar rebatê-lo cria-se um sofrimento e assim na somatização a vida se torna sem sentido.


Talvez o ponto crucial de tudo isso é não aceitar a aceitação.


Como tudo que existe no nosso mundo é dinâmico, não podemos lutar pela estática, não devemos ficar na resignação. Existe o perigo de se entrar num processo de vitimização. Aceitando os fatos, situações ou mesmo questões interiores nossas; mas aceitando de forma verdadeira, abraçando-as, acolhendo-as do jeito que são ou estão, pelo fato de compreendermos que somos responsáveis pela criação de nossa vida e realidade. Que de alguma forma fomos os semeadores e estamos na colheita das semeaduras, sejam desta ou de outros tempos. E que essa colheita não é uma sentença final e imutável, pode sim ser transformada ou transmutada a todo momento que decidirmos. Não nos culpemos em excesso, não nos cobremos com tanto rigor, pois na semeadura foi o que pudemos fazer, de acordo com as nossas crenças da época, do nosso conhecimento da época. Aceitar-se incondicionalmente com todas as virtudes, com todas as sombras, com todas as limitações para se poder abrir as portas de possibilidades que a aceitação traz. O primeiro passo para a mudança de qualquer coisa ou situação é a aceitação, a resistência atrasará o processo que poderá se iniciar no agora. A resistência é inútil e possivelmente estará sob o comando do ego, ele é que trava transformando simples fatos em monstros assustadores.