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Crônica #45 | Simplicidade

Atualizado: 16 de fev.

A complexa mente vestida de simplicidade



Da janela do meu escritório acompanho algo simples e muito singelo da natureza.


Um casal de pássaros constrói seu ninho sobre um pequeno holofote, lugar seguro e protegido por uma cobertura de telhas transparentes. Pacientemente, dia a dia, eles trazem pequeninos gravetos e outros variados tipos de materiais. Graciosamente, depois de alguns dias de um frenesi de vai e vem, cessa o movimento e reparo que o ninho fica pronto. Após um tempinho vejo dois ovinhos e um deles fica ali a zelar. O pequeno ninho comporta apenas um passarinho, então vejo que há um revezamento cuidadoso para a preservação dos seus preciosos ovos. E assim vão trabalhando, incansavelmente, durante muitos dias.



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Como engenheiro, não pude deixar de observar essa construção. O casal trabalha numa coordenação invejável e na mais pura simplicidade. Nessa obra singela não usaram cálculos estruturais, nem arquitetura sofisticada e não introduziram móveis, tapetes persas e quadros assinados por artistas famosos. O seu mundo é livre, tem jardins a perder de vista e piscinas em qualquer lugar. Buscam alimentos que a natureza lhes oferece e não pecam nos exageros do consumo. Não há discórdias pelos deveres, nem discussões pela posse de local. A solidariedade reina entre eles. De vez em outra, observo um compartilhamento no trazer e oferecer insetos para aquele que ali fica chocando. São administradores natos, planejaram e escolheram o melhor local para gerarem seus filhos, mesmo que seja para apenas essa vez. Um outro local será escolhido para um novo construir e assim vivem cada fase, cada casinha, cada ninhada livremente. Sem domínio de posse, sem apego, apenas vivendo e cumprindo com a sua nobre e singela missão.





Simplicidade.... Como poderíamos pensar ou sentir com simplicidade?


A Simplicidade não está ligada com a ausência de posses e sim numa independência de elementos externos que escravizam e contaminam a nossa mente com superficialidades. As pessoas podem ser muito ricas, terem muitas posses e viverem na simplicidade, ou também não, tudo depende dos valores e do significado de vida que tiverem. Podem valorizar os materiais dando a devida importância que tiveram em cada momento da vida ou nunca valorizarem nada, desconhecendo seus reais valores.


Por que razão, nós humanos, somos tão complicados e tão exigentes com quase tudo?

Por que costumamos complicar tanto nossas vidas? Existem pessoas que são absolutamente complicadas, em todos os sentidos. Então, de maneira análoga, suas vidas tenderão a ser complicadas também. Tudo se manifesta conforme os desejos da nossa mente. Não essa mente que achamos que nos move, mas aquela que está lááááá, no profundo do nosso ser. Ela que se faz manifestar as coisas e situações de nossas vidas.


Há que organizar a mente para a realidade que desejamos ter e ser. Um bom começo é ordenar as palavras e constituir de forma simples, consequentemente refletirão para uma mente mais ordenada. Para ter um lar feliz, um pequeno diálogo antecede uma compra de tapetes... Para sentir um sorriso de alguém é olhar para os olhos e dizer “bom dia” ... Na simplicidade se conquista o caminho da paz.



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Geralmente nem percebemos a estabilidade dos nossos pensamentos, nem no quanto de negatividade nossa mente é invadida a toda hora, inúmeras e incontáveis vezes ao longo de todos os dias. Seja no trabalho, no lar ou nos momentos de uma viagem de passeio, isso acontece de uma maneira natural e automática.


Num ato simples de reflexão e meditação podemos perguntar para nós mesmos “o que são e para que servem essas transgressões; no que poderá somar para nossa evolução e como poderá servir aos outros”. Assim sendo, podemos deixar fluir como a água de um rio, que sempre passa por todos os tipos de caminhos, absorvendo, contornando ou simplesmente levando e descarregando no oceano.


O redirecionamento da força dos pensamentos pode dar nenhum ou todo poder a eles, transformando-os em nada ou em potentes geradores de vontades concretas.


De maneira generalizada, sequer, sabemos o que queremos. Quando questionadas são poucas as pessoas que conseguem dizer com clareza quais são seus reais objetivos ou desejos na vida. Acomodação para alguns, desistência para outros, fuga para os desanimados e para uns poucos a coragem para encarar os desafios do autoconhecimento. Quando se tem a vontade de conquistas relacionadas à busca do ser, todo o restante virá com mais facilidade e menos conflitos.


Tendo-se mais leveza no modo de pensar, descartando responsabilidades que seriam de outrem, vivendo com mais desapego... isso aliado ao hábito de nos perguntarmos o que de fato é importante na nossa vida, nos traria menos cargas desnecessárias a se carregar.


O que de fato nos traz a felicidade? Quando, de verdade, nos sentimos felizes? O que é realmente a felicidade para nós? No que ela consiste? Se conseguíssemos chegar a uma resposta verdadeira poderíamos viver além das aparências.






Parar-se-ia de fingir mostrar ser feliz, parar-se-ia de copiar a felicidade alheia, de querer ter a vida do outro.

É bem trabalhoso sermos o que não somos, isso acaba trazendo sempre muita dor e tristeza, pois para se preencher o vazio existente é quase que uma tarefa impossível.


Haverá sempre mais e mais e novos desejos, muitas vezes desejos infundados, elementos exteriores para uma satisfação momentânea; tão passageira quanto uma nuvem num entardecer de ventania. Desaparece tão logo o desejo se manifesta. E então novos desejos são procurados e assim vai-se a vida...


Seria hipocrisia dizer para vivermos como os passarinhos, mas observar a natureza e conquistar uma compreensão do simples viver seria no mínimo libertador. Esse simples viver não no sentido de simplicidade pela falta e sim pela abundância de verdadeiros e reais valores.


Procurar uma vida natural, onde possamos ser simples e naturalmente humanos.


Vivermos conforme nossa natureza humana, nos identificarmos com a presença da bondade, do amor, do altruísmo, das virtudes que nos fazem ser o que realmente somos na nossa essência. Sermos éticos.


Existem leis que regem para que se haja harmonia na natureza. Se fôssemos capazes de fazer uma leitura da natureza, talvez sofrêssemos menos. Talvez desperdiçaríamos menos tempo e erraríamos menos; não ficando nos tropeços dos aprendizados da nossa caminhada. Contudo, a natureza está aí, fiquemos atentos ao seu exemplo. Isso tudo é preciso aprender e dá trabalho sim. Faz parte do conhecimento e autoconhecimento e é o caminho mais curto. É preciso querer, ter vontade, força de vontade e muita disposição. É o caminho que nos dará a alforria.


Um estilo de vida mais natural e feliz é refinar nosso modo de viver.


Como a felicidade é um estado totalmente individual, é necessário que cada um entenda a sua. Geralmente gira em torno de alegrias, saúde, paz, harmonia, amor nos relacionamentos etc.

Se a cada amanhecer do dia criarmos um pensamento simples na nossa mente e nos comprometermos em criar a nós mesmos como um ser humano ético, amoroso, alegre e pacífico seria já um gigantesco passo.