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Crônica #53 | Sem carência, com afeto!

Atualizado: há 4 dias

Entre o amor e o egoísmo




Num dia desses, assistindo a um episódio de uma série com uma trama interessante e elaborada, minha mente automaticamente voltou a uma vivência muito rica que tive a uns anos atrás. Eu já convivia um bom tempo com a família do meu professor e preceptor, do meu curso no Japão. No último dia de aula e próximo da minha formatura fui convidado para um jantar na sua casa. O jantar foi preparado carinhosamente pela sua esposa e com participação do professor. Falar da deliciosa comida japonesa é covardia. Estava divina, esplêndida e até hoje relembro daqueles agradáveis momentos de convivência.


Apesar da sua casa já ter um estilo mais moderno, o jantar foi numa sala tradicional. Seguiu então num estilo bem oriental, sentados em almofadas sobre o tatame. Logo que cheguei, fui recepcionado com um pequeno cerimonial do chá, hoje já muito conhecido pelo mundo afora. A senhora de 82 anos, que eu muito admirava, também nos fez companhia. Todas as vezes que nos encontrávamos estava sempre bem humorada, sorridente, muito alegre e falante.


Eu pensava curiosamente “ O que fazia dela ser tão feliz, alegre e divertida? ”. A sensação que eu tinha é que ela era plena de uma energia vibrante. Demonstrava isso nas palavras e atitudes. Contava histórias e mais histórias, gostava de cantar e dançar. O seu olhar dizia tudo, eram olhares carinhosos. Sentia sinceridade na comunicação da sua mente com o mundo exterior.


Pensei... era uma expressão do amor, só podia ser! Foi o que conclui na época, de forma generalizada, pois não tinha muita base para perceber com mais profundidade. E agora, vendo essa série, me voltou essa questão de postura perante a vida, independente da forma com que a vida se apresenta ou se apresentou para a pessoa.



Perdeu a crônica de semana passada? Leia o texto na íntegra clicando aqui: Crônica #52 | Luz da Vida



O amor é cantado aos quatro ventos e é uma palavra muito dita por todos. Mas será que realmente compreendemos com profundidade o seu sentido? Ele parece ser tão comum, entretanto é algo mais complexo. Dentro de nossos limites, o simplificamos e o conhecemos por vários ângulos. Ele é apresentado de diversas formas e interpretado de maneiras diferentes; passando pela mitologia, religiosidade e filosofia. Ele é um elemento básico que potencializa nossa motivação, expande o nosso ser, incentiva e nos encoraja na criação de laços e de relacionamentos com as pessoas. A pessoa que é feliz, identificada com a plenitude da vida, desapegada de conflitos e preconceitos pode amar de fato com mais maturidade. O amor é capaz de derrubar uma das maiores sombras do ser humano, o egoísmo.


O amor na sua composição única é bela, mas ele passa a ser consistente quando a vontade é integrada a ele.

A força do amor é o ponto central a nos trazer as concretizações e realizações desejadas. Na sua complexidade, pode porém, trazer também grandes frustrações. São as distorções que fazemos do amor, onde começam surgir as sombras; como por exemplo a carência afetiva. Todos nós somos carentes, em menor ou maior grau. O nível da carência é que vai determinar uma tranquilidade ou um sinal de alerta para tomada de atitudes. A nossa história pregressa pode nos dizer o porque de sermos bem resolvidos ou carentes de atenção, reconhecimento, apoio ou qualquer outra necessidade que anseia e busca.


A carência afetiva cega uma relação, tirando o domínio que se deve ter do próprio território. Ela é sempre acompanhada do egoísmo, que com ele jamais se terá uma verdadeira felicidade. A carência é uma opção egoísta do vazio existencial. Esse vazio acompanhado do sentimento de falta está identificado com o falso eu, o ego exigente e pouco gratificante. Estejamos atentos ao que o ego idealiza como amor. Podemos nos surpreender com essa análise. Podem surgir muitos desejos simplesmente efêmeros. Vá fundo e se pergunte de forma sincera e sem emoção.


Se conseguirmos enxergar e sentir quem de fato nós somos; dotados de toda grandeza e magnitude, como todos somos e infelizmente não sabemos... poderá aí surgir uma luzinha no meio da escuridão. Um ser que está abastecido completamente de si mesmo não tem carência. É bem oportuno citar que falta de carinho gera carência, mas o excesso é mais danoso ainda. O excesso desajusta a qualidade individual para a vida, pois com ele quebra-se a lógica da vida. A vida deve estar inserida num equilíbrio; excesso de proteção, alta dependência, certamente vai gerar um carente crônico no futuro. Nada em excesso é saudável.


Tem pessoas que vivem emocionalmente como eternas crianças, sempre precisando do apoio de alguém para realizar seus desejos e muitas vezes a qualquer custo, da forma e da maneira que acha que deve ser.

Muitas vezes é na infância que se sedimenta o desalinho. O passado, assim como diversos traumas podem ter sido a causa de desajustes de carência no presente e ao longo do tempo. Identificar e trazer à tona tais situações pode ajudar no entendimento, porém com o cuidado de não cair na trama de se ficar procurando culpados. A procura de culpados pode nos levar a uma acomodação e nos tornar pobres vítimas das situações, trazendo então um outro grave problema. Todos os fracassos poderão ser atribuídos a outras pessoas, ficando cada vez mais estagnada no desenvolvimento de sua vida. As pessoas que se vitimizam raramente terão um relacionamento sadio, portanto tudo será muito doentio. De qualquer forma uma das saídas mais eficientes é chegar à conclusão que não importa como chegou a tal ponto e sim o que deverá fazer para sair da situação. Olhando para frente, tomando as rédeas, começando um novo construir.


Quando a pessoa deixa de ser protagonista de sua própria vida, terceirizando e colocando nas mãos de outros as suas necessidades; passa a acreditar que somente será feliz quando alguém fizer algo por ela. Será feliz quando for amada por alguém. Faz do outro o seu porto seguro, ancorando nele suas embarcações de emoções desordenadas.



Confira também esta crônica escrita pelo Otavio: Crônica #51 | Impaciência



Na ilusória sensação de ser amada e sempre e somente abastecida por outros, prevalecerá lá no fundo uma sensação estranha, ameaçadora e também inquietadora, pois o que vem de fora não pode garantir um amor que nem ela própria tem para si. Expectativas, ansiedade, asfixia no desespero serão constantes na espera do que o outro vai fazer por ela. Pode entrar em colapso, dependendo do grau que se deixou atingir.


O amor não pode gerar dependência. Quem procura segurança em outra pessoa, está indiretamente transferindo seus conflitos, seu tormento, sua ansiedade, suas não realizações, o seu vazio para terceiros. Numa ânsia de livrar-se de culpas pode estar mergulhado num estado de parasitismo masoquista. Trágico, porém, bem corriqueiro em qualquer canto por aí afora.


É apavorante para um carente a solidão, o medo de encontrar consigo mesmo faz com que caminhe sempre na procura do outro para que possa despejar suas insatisfações. Não consegue caminhar com as próprias pernas.


Uma carência afetiva ignorada, muitas vezes dentro do seu desdobramento, pode nos levar para uma depressão. E já muito debilitado com outros fatores passamos a não acreditar em esperanças para sair do vale das sombras. Quando a vontade se apequena, entregamos o prazer de viver.


Penso que a vózinha aprendeu a amar e valorizar a si própria, com isso demonstrava ausência de carência. Ela foi uma enfermeira, professora , mãe, avó e foi capaz de distribuir afetividade e amor, desenvolveu e possuiu essas capacidades. Ela teve a presença de vida interior. Foi uma pessoa que não dependia de aprovação externa para os seus atos e pensamentos. Adotou como código de conduta estar sempre dentro de uma moralidade e ética; esse foi o caminho escolhido e trilhado. Ela afirmou que apesar dos escorregões conseguiu se manter firme no seu propósito. Prevaleceu-se nos princípios básicos. Admitiu os erros cometidos e os foi corrigindo. Reconheceu os equívocos provocados e caminhou para uma vida plena e livre. Ela assim nos contava a todos.


Tem pessoas que ainda acreditam que: “ você é minha metade que faltava “... Por que metade? Ambos deveriam ser o inteiro de forma completa. Adianta ser somente a metade de um elo de uma corrente? Como poderão ser interligados? O outro não é a metade do outro. São caminhos paralelos. O outro não completa e sim complementa caminhando em paralelo. O ser que é completo por si mesmo sem estar na dependência de outros, leva a uma relação madura e verdadeira.


Há que se ter autorrespeito, amor por si próprio.


Ninguém pode ser o ar que o outro respira. Isso é sufocante e num determinado momento faltará esse ar, com certeza.

Muitas vezes em relacionamentos assim simbióticos, complicados, doentios e problemáticos vai-se perceber que na verdade não era amor e sim carência, perigosa e dependente. O preço a ser pago em casos assim é muito alto, gerando conflitos imensos e difíceis de serem entendidos, mas passíveis de serem superados. O fato da pessoa se anular na vida em função de outro alguém, para que esse outro se realize, dando tudo para ele acreditando que com isso está sendo amada, que está garantindo sua segurança... vai aumentando cada vez mais sua prisão e a queda num poço sem fundo. Estar junto com alguém não significa que precisamos estar grudados; é saudável e necessário preservarmos nossa própria identidade.


Já se perguntou quem é que patrocina nossos pensamentos? Quem, ou o que os influenciam?


Sabemos que um pensamento, o nosso mental, é mais rápido no seu percurso que as nossas emoções. Então, quando surge um pensamento do tipo “sou uma pessoa inútil, uma imprestável, ninguém me ama”podemos, se estivermos alertas, alterá-lo imediatamente. Logo que se pensar e antes que ele bata nas portas das emoções, colocar uma outra alternativa positiva. É uma questão de se estar atento e é realmente um treino persistente e constante. Dá tempo para reagir e dizer para si “não quero aceitar essa mente negativa”, abrindo oportunidade, em fração de segundos, de discernir raiva de inveja, de pa