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Crônica #55 | Grandiosidade do perdão

O martírio da alma culpada




Recentemente presenciei uma cena um tanto chocante, que de início me deixou aflito e depois muito interrogativo.


Estava de carro em uma das ruas movimentadas de um famoso bairro atacadista, da cidade de São Paulo. Em plena luz do dia, um menino ainda, praticou um assalto a uma senhora usando em sua vantagem a força e rapidez. Ao tentar arrancar a bolsa que ela carregava, a senhora perdeu o equilíbrio, caiu e acabou por não soltar os seus pertences. Imediatamente, um grupo próximo vendo essa ação, foi em seu auxilio. Entretanto, dois rapazes perceberam que o garoto não estava armado e logo o detiveram. Daí então, podemos imaginar as cenas que rolaram. O menino já rendido e no chão, seguido de uma sessão de agressões físicas e verbais. Foi um descarregamento de sentimentos de raiva, vingança, ódio e de um certo “dever” de se estar fazendo justiça sobre o praticante. Tudo muito rápido, sem medir a real situação ou a razão por trás daquele ato. A cena de agressão ocorreu por vários minutos e me lembrou das épocas medievais, quando a população incitava a morte num alvoroço de gritaria. A situação foi amenizada quando aquela mesma senhora, se ajoelha, abraça o menino e com seu próprio corpo, se coloca protegendo-o daquela atrocidade.

Que magnitude de compreensão e compaixão irradiou naquele ato, naquele exato momento!

Imediatamente encerram-se as agressões e as pessoas ao redor ficam sem muito entender, a atitude da senhora. Que momento presenciei! Não estava ainda acreditando no ocorrido, pois raramente nos deparamos com situações semelhantes. Por muito tempo ainda, aquela cena se repetia em minha mente, trazendo vários questionamentos.


Comecei a repensar conceitos e a correlacionar com o fato ocorrido...

Voltei nas histórias da era cristã.


Nas escrituras, aparecem centenas de vezes “perdoar” e suas conjugações. Existe uma passagem linda, quando é transmitida a parábola do filho pródigo, onde Ele fala da capacidade de amar, mesmo dentro dos desvios cometidos. Existe outra passagem interessante, quando nos é dito que é preciso perdoar 70x7 vezes. Não é o resultado dessa equação que nos interessa e sim a metáfora, que representa a constância da aplicação do ato do perdão. Pois, como seres imperfeitos e em evolução, somos capazes de errar muito mais que 70x7 vezes, nos nossos dias normais do cotidiano.


Como humanos, os erros são inevitáveis e haverá sempre a necessidade de perdoar e ser perdoado. Se não tivermos essa capacidade uns com os outros, então como poderemos manter um laço com nosso Criador? É um caminho de mão dupla, para sermos perdoados precisamos saber perdoar. O perdão ou o ato de perdoar é delicado e principalmente complexo, no âmbito religioso. Ele não pode ser considerado como mercadoria, por ser profundo e significativo. Diferente de um pedido de desculpas, que acontece praticamente a todo tempo, pelos inúmeros equívocos que cometemos ou passamos, coisas corriqueiras do dia a dia, sem muita profundidade.


Se partirmos do princípio que devemos perdoar a todos e a tudo, então não faz razão de existir justiça, julgamentos e leis. É onde entramos em choque com a justiça versus o amor do perdão.

Será? E onde se encaixa a punição?


Perdão é diferente de justiça. O fato de perdoarmos alguém, não quer dizer que somos coniventes com o ato errado que a pessoa cometeu. Se conseguirmos, podemos apenas não estar contra essa pessoa. Agora, se não conseguirmos; também não adianta fingir que perdoamos. É pior. Se alguém nos ofender e pedir perdão, por exemplo, e não conseguirmos perdoar naquele momento... é questão de se admitir e dizer “no momento não posso, vou pensar e digerir”. E dar esse tempo para analisar e diluir a questão. Se tirarmos o componente emoção, seremos capazes de ver e analisar com maior lucidez. Se nos colocarmos no lugar do outro, perguntando o que teríamos feito naquela mesma situação, seria de grande valia.



Perdeu a crônica de semana passada? Leia o texto na íntegra clicando aqui: Crônica #54 | Casa



Nossa natureza humana é muito complexa e entender todos os seus desdobramentos não é tarefa fácil. Qualquer julgamento exige muita lucidez, autocontrole e sabedoria. É de amadurecimento de consciência sermos prudentes e não querermos devolver o mal que nos fizeram.

Para isso precisamos confiar muito na Vida.


Perdoemos e deixemos que a Vida dê à pessoa o que corresponde a ela. A questão passa a ser da pessoa com a Vida, com o Universo ou qualquer outro nome que se queira dar. Sempre estará em ação a fundamental Lei da Causa e Efeito e consequentemente, em seguida, a Lei do Retorno. São Leis que não admitem exceções, são aplicadas em todas as questões das nossas vidas e na questão do perdão também. Somos muito materialistas ainda e achamos que essas Leis se aplicam mais à materialidade, ao plano físico, porém, ela acontece também em nossas dimensões internas, no mental e emocional. Será devolvido à pessoa o que ela projetou, intencionou e lançou para o mundo e para as outras pessoas, na mesma intensidade e peso.


A Vida preside Soberana e Justa!

A justiça vai acontecer para cada um, separadamente, conforme todas as suas ações e intenções.


Por isso, se pensarmos de maneira até mais racional, podemos chegar à conclusão que perdoar é uma atitude inteligente, uma maneira de garantir serenidade, paz interior e principalmente liberdade da alma. Vivendo mais feliz, sem pesos nas costas, sem amarras e até se curando de doenças, caso já esteja nesse nível.


É difícil? É!!

Mas se descobrirmos o real sentido de nossas vidas, nos responsabilizando e compreendendo o porquê de passarmos por determinadas situações; sem nos colocarmos como vítimas e sem jogarmos a culpa em outros... aí então, o “milagre” começa a acontecer.


Escolhamos confiar na Vida e sermos leves, pacíficos e felizes. Na mente de pessoas felizes de verdade, não cabem situações de ofensas e maldades para com os outros; não há espaço para isso. A sua própria alegria e felicidade serve de escudo rebatendo as vibrações de baixa densidade. As pessoas infelizes sim, precisam o tempo todo mostrarem o que não são, ostentar uma realidade que não existe e atacarem aqueles a quem invejam, ofendendo-os. Pobre alma penada, vivendo sua realidade tão distorcida. Não possuem a coragem de trocar o espelho trincado, onde estão refletidas suas ilusões. Desviam o olhar para os lados, sem verem e admitirem que na frente existe algo maior: enxergar além dessa tridimensionalidade ilusória.


Jesus, a pedido dos seus discípulos, os ensinou a orar... e num trecho importante diz: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...” profundo ensinamento da importância do perdão.


A filosofia budista transmite algo muito interessante. Se alguém nos prejudicou com mentiras, traições ou enganações financeiras etc.… e se ficarmos na insistência da vingança, cometemos dois erros. Um deles é a vaidade, vem da ideia de que somos melhores que a pessoa que praticou a ofensa e o outro erro é a falta de compreensão. Se enraizarmos na vaidade muito pouco poderá se fazer. O enfrentamento da realidade bate de frente com a vaidade pessoal, que faz enxergar os erros dos outros, sem perceber que talvez nós, sejamos piores. Precisamos reconhecer que muitas vezes ela acaba cegando e bloqueando atitudes necessárias.

Crescer com esse fato, é permanecer em um movimento circular da culpa do erro, do ódio e da vingança.

Necessário seria sair desse movimento apenas circular e atingir um outro movimento, circular, espiral e ascendente.


A raiva, ligada diretamente ao ego ferido, revela quem somos realmente, já perceberam isso?


Como na questão da agressão ao garoto. A justiça foi feita pelo que se viu e com uma ação imediata. Ninguém perguntou ao garoto qual a razão de ele estar extraindo objetos naquele momento. Ninguém se importou com a situação real do ocorrido, assim reconhecemos aqui os limites de nossa compreensão. Não que qualquer situação justifique o que ele fez, mas em tudo há uma razão de ocorrer. O “olho por olho, dente por dente” desponta sem igual, desde aquela época de Moisés. Séculos se passaram e muito pouco mudou; mesmo depois com a era cristã, onde surgiu “o amor cobre uma multidão de pecados”.


Confira também esta crônica escrita pelo Otavio: Crônica #52 | Luz da Vida