Crítica | A Morte Não Tem Dono

Com Asia Argento no papel de uma herdeira que retorna à Venezuela, A Morte Não Tem Dono usa uma mansão decadente e uma antiga plantação de cacau para discutir as marcas deixadas pela colonização

(Foto: Divulgação)
Uma mansão abandonada, uma herança disputada e uma família marcada por um passado violento. A princípio, A Morte Não Tem Dono parece reunir os elementos de um suspense sobre segredos familiares. Mas o filme venezuelano de Jorge Thielen Armand vai além dessa primeira impressão e usa o horror para falar de algo muito mais concreto: quem tem o direito de possuir uma terra e o que acontece quando essa propriedade carrega uma história de exploração.
Interpretada por Asia Argento, a protagonista chega à Venezuela após a morte do pai para assumir a propriedade da família, incluindo uma antiga plantação de cacau. O retorno, porém, não é recebido com tranquilidade pelos moradores locais. A presença da estrangeira desperta hostilidade, especialmente porque sua reivindicação sobre a terra representa uma herança construída sobre a retirada dos direitos de seus antigos habitantes.

(Foto: Divulgação)
O começo apresenta uma atmosfera próxima do cinema noir, com uma trilha marcada por jazz, sombras fortes e uma fotografia de contrastes. A protagonista encontra uma casa malcuidada e uma funcionária que parece já ter tomado conta do lugar. Aos poucos, a mansão ganha importância na narrativa e o filme muda de direção, assumindo características do horror gótico. Janelas deterioradas, arcos de pedra e ambientes empoeirados ajudam a construir a sensação de que aquele espaço guarda muito mais do que lembranças.
A própria personagem de Argento parece deslocada naquele cenário. Sua postura e seu comportamento reforçam a distância entre ela e as pessoas que vivem ali. Não é apenas uma questão de antipatia: sua chegada representa um passado colonial que continua presente na organização daquela sociedade. A frase da chefe de polícia, que compara a herdeira a uma figura de autoridade colonial, resume bem a tensão que atravessa a história.
O interessante é que o terror não depende necessariamente de aparições sobrenaturais. O que assombra a propriedade é uma estrutura social que sobrevive ao tempo, sustentada por heranças e tradições que mantêm a desigualdade. A violência também aparece como reação de quem continua sofrendo as consequências desse processo. O filme trabalha com a ideia de que o passado não desaparece simplesmente porque uma época terminou.

(Foto: Divulgação)
Visualmente, A Morte Não Tem Dono tem bastante personalidade. A direção de arte e a fotografia fazem da mansão e da fazenda partes fundamentais da narrativa, enquanto a trilha sonora contribui para o clima de desconforto. As referências ao horror clássico não estão ali apenas para criar uma estética bonita: elas ajudam a contar uma história sobre poder, propriedade e pertencimento.
Opinião da Redação: "O filme chama atenção por usar o horror para tratar de um conflito que não está preso ao sobrenatural. A mansão, a fazenda e a própria herança da protagonista carregam uma história de violência que continua afetando quem vive naquele lugar. Gostei especialmente da maneira como a estética gótica conversa com o tema, sem deixar a discussão social de lado. É uma produção que desperta curiosidade também pelo olhar de um cinema venezuelano que merece chegar a mais espectadores."
Você gosta de filmes de terror que usam o gênero para discutir problemas históricos e sociais?
Ficha Técnica
Nome: A Morte Não Tem Dono
Tipo: Filme
Onde assistir: Cinema
Categoria: Horror
Duração: 1h 46m
Nota: 4/5


