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Crônica #38 | Senhor Tempo

Atualizado: 15 de mar.

Onde estás, senhor soberano que a quase tudo consome?



Naquele dia, após ter tido uma reunião seguida de almoço, estava numa auto estrada retornando à minha cidade e parei num posto de combustível. Aproveitei o momento para dar um pequeno descanso e tomar um café. Na lanchonete, uma televisão estava ligada e inundava todos ali presentes com as costumeiras notícias diárias, na maioria das vezes nada boas.

Reparei que a maioria que ali estava eram homens. Havia entre eles algumas mulheres e algumas crianças, porém relativamente poucas.


Propositadamente eu me sentei de costas e quase embaixo do monitor de TV, ficando então de frente para os “telespectadores”. Estavam quase todos almoçando e com seus olhares fixos na televisão. Suas fisionomias alteravam conforme o noticiário, e principalmente quando passavam trechos de futebol acontecidos no final de semana.


Muitas notícias giravam em torno da pandemia, do vírus, estatísticas da mesma etc...



Observei todas aquelas pessoas, ali sentadas fazendo suas refeições e ao mesmo tempo de olhos fixos na TV, às vezes nem percebendo direito o que estavam comendo. Quase não vi fisionomias alegres, com exceção das crianças que permaneciam alheias. Muitas delas com celular nas mãos, talvez brincando com os games oferecidos pelo sistema.


Nesse momento de observação, me perguntava como cada uma dessas pessoas vivia. Como eram suas famílias, quais eram suas alegrias, seus problemas, seus sonhos... enfim, cada uma delas com sua vida totalmente diferente uma das outras. Expandindo mais, comecei a tentar equacionar a impressionante Vida no nosso planeta. Imagina, quantos bilhões de seres, individualmente com seus pensamentos, suas ações, suas personalidades. Nenhuma absolutamente igual a outra. É algo tão natural e óbvio, porém se pararmos para analisar é um tanto estrondoso e magnífico na sua magnitude. Algo racionalmente impensável e capaz de nos tirar do chão.


Fiquei a imaginar a grande rede invisível que existe ligando todos essas vidas, ligando todos esses pensamentos, saudáveis ou tóxicos; essa enorme e quase que infinita conexão de seres. Como seria se pudéssemos visualizar todo esse emaranhado de cordões que formam essa complexa rede? Pelo atual perfil humano podemos imaginar o seu teor. Será que se conseguíssemos visualizar seria o suficiente para mudarmos nossos pensamentos, intenções ou ações?


Estamos viajando numa nave chamada vida e esse ano ela sofreu um grande contratempo. Emitiu então um sinal “S.O.S.” de emergência para o tempo. Solicitou a ele se poderia abrir uma exceção para desacelerar um pouco e dar uma pausa para reparos, uma leve manutenção.


Muitos não deram conta que um dos combustíveis que alimentava essa nave, que é a harmonia, apontava para o vazio. Precisava reabastecer com essa harmonia e um aditivo chamado esperança...


Imperdoável o tempo negou, aliás parece que até “acelerou”. Disse que não recebeu autorização de uma Força Maior para alterar aquilo que sempre fez desde a existência da luz. Ainda falou que sempre lhe culpam dizendo: “maldito tempo....” Todos sempre dizem:


-“Como o tempo voa.... não dá tempo... não sobra tempo...não vi o tempo passar”.


O tempo, na nossa rudimentar maneira de medi-lo, é tão relativo quanto à forma como que caminhamos com ele. Quando estamos em alguma situação de extremo sofrimento, ele parece caminhar gotejando suas frações de segundos, parece vestir a roupa da eternidade e ficar ali parado, sentadinho. Porém, quando estamos em momentos de muita felicidade e desejamos que o tempo não passe nunca, de repente ele já se foi, tomou o atalho que não vimos, se dissipou.



Ahhhh, esse tal do complexo elemento tempo. Incompreendido por todos e acusado injustamente quando o passado que não se fez, o futuro que não se tem; e o presente, o agora, tão perfeito pelo toque do Criador não é valorizado.


O ontem é a recordação de hoje; e o amanhã? Amanhã é o sonho de hoje.


Porém, a nossa vida é esse momento presente , esse eterno presente...


Onde está o tempo? Ele existe? É real? Ou é ilusório?


E assim a nave vida prossegue sua viagem, conformada ou não, seguindo sua rota. Sempre que possível evitando colisões frontais nas incompreensões adversas da mente humana e captando as forças da bondade no percurso. O tempo seguiu e agora precisamos recuperar o eco do tic tac. Por um momento seguiremos paralelos a ele. Haverá um dia ser uma só existência; a fusão verdadeira da vida e tempo. Enquanto isso não acontece, esse lockdown serviu para muitas mudanças de padrões ou paradigmas. Muitos dos nossos hábitos foram necessariamente substituídos. E os pensamentos amadureceram. Mesmo?


Muitos partiram para outros planos por ordem do tempo específico, outros deixaram esse universo tridimensional dentro das suas próprias decisões. Entretanto, você e todos nós que aqui estamos nesse momento, somos sobreviventes” de uma viagem insólita, rumo à excelência.


Para estarmos fora do tempo seria necessário termos uma identidade mais profunda, uma consciência com maior qualidade. Então concentremos na vida e deixemos o tempo dentro das suas dimensões, das suas equações ou da sua dinâmica, seja de que maneira for.


Logo o tempo fará com que exclamemos “é tempo de Natal, é tempo de festa!”.


E o que nós fizemos ou ainda podemos fazer pela delicada nave chamada vida?

É preciso nos desfazermos de algumas crenças, de alguns dogmas, renovar alguns valores?

Aceitarmos e praticarmos o desapego, deixando nossa nave mais leve, mais aerodinâmica,

ágil, harmoniosa e bonita?



A fraternidade e a caridade onde estão? Será que não é chegada a hora?!


De que forma podemos fortalecer esse tênue fio que nos liga ao Pai ou a uma Força Maior?


Assim sendo, talvez nosso limite para a felicidade esteja livre de nuvens de inseguranças.


Como podemos deter o tempo? Talvez a palavra mais correta seja, como superar o tempo? Ao nos identificarmos com aquilo que dentro de nós não morre. Aquilo que somos, fora do corpo físico, o tempo não poderá levar. Ao encontrarmos e lapidarmos com esmero esse algo que o tempo não poderá levar, estaremos serenos e pacíficos e então, talvez, possamos nos colocar acima do tempo.


Não nos deixemos ser levados e consumidos pelo tempo. Pelo contrário, tenhamos tempo e coragem para buscar a verdade; tempo para a prática do amor , da bondade, da justiça, plenificando nossa mente e coração.


Quem sabe assim poderemos conquistar e sermos brindados e glorificados pela paz.