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Crônica #146 | Não deu tempo...

  • Foto do escritor: Redação neonews
    Redação neonews
  • há 5 dias
  • 7 min de leitura

Para que estamos correndo?



Capa Crônica #146 | Não deu tempo...
Capa Crônica #146 | Não deu tempo...

O que você encontrará nesta crônica:


"O que está acontecendo com o tempo? Vivemos em uma corrida constante, dizendo que ele nos falta, como se estivesse sempre além do alcance.

A sensação é de que os dias passam cada vez mais rápido. Mas será que ele realmente acelerou ou somos nós que deixamos a vida escapar?

Talvez não seja o tempo que nos falte, talvez nós é que nem sempre estamos nele.

E você: está sem tempo ou apenas vivendo sem ele?"





I. Passageiros do Tempo.


Cá estou eu, na cobertura da empresa, acompanhando a tarde deslizar em direção à noite.


Abro o notebook sobre a mesa, mas adio qualquer tarefa. Naquele momento, por mais que o trabalho me chamasse, a atmosfera pedia contemplação. O entardecer tinha outros planos.


Do alto, deixo meu olhar percorrer a paisagem redesenhada pelas décadas. Onde antes se estendiam plantações de café, agora se espalham ruas, casas e alguns edifícios que avançam em direção ao horizonte. Ainda assim, campos verdes resistem, guardando vestígios de outro tempo.


Volto os olhos para o oeste. O sol se despede lentamente, tingindo o céu de dourado e laranja.


Vênus e Júpiter começam a surgir na imensidão azul que escurece. Permanecem ali, indiferentes às inquietações humanas, seguindo trajetórias que não se apressam nem se atrasam, como fazem há milênios.


Nas árvores próximas, as maritacas promovem sua costumeira e alegre algazarra antes de se recolherem para a noite.


Enquanto observo aqueles antigos viajantes celestes que encantaram gerações antes de nós, sinto meus pensamentos se afastarem das urgências do dia. Aos poucos, eles passam a flutuar em direção à imensidão do universo.


Diante dele, somos passageiros do tempo.  Talvez tenha sido por isso que me lembrei de uma amiga dos tempos de escola de nossas filhas.


Naqueles anos, vivíamos correndo. Entre trabalho, casa, filhos e compromissos, encontrávamo-nos frequentemente nas saídas do colégio, nas aulas de natação, nas festinhas de aniversário e nos eventos ligados à educação de nossas filhas. Dias pequenos demais para tudo o que precisava ser feito.


- “Como você está?”, eu perguntava.

- “Correndo”, ela respondia, sorrindo.

 

Essa expressão era quase uma senha entre nós.

- “Correndo para onde?”

E ela ria:

- “Quando eu descobrir, eu te conto.”


Era uma amiga de nossa família, de sorriso fácil e coração boníssimo. Assim fomos seguindo pela vida, entre risos, reflexões e aquelas conversas simples que costumam preencher os dias.


Foi em um desses encontros que ela disse:

- “Quando eu partir desta dimensão, vou deixar escrito na minha lápide: não deu tempo...”


Rimos. Mas a frase ficou comigo ao longo de todos esses anos: “Não deu tempo...”


Hoje, ela me parece uma verdade simples, dura e, ao mesmo tempo, libertadora.


E penso: nunca dará tempo para tudo.


Nunca haverá tempo para terminar todos os projetos, ler todos os livros, adquirir todo o conhecimento ou fazer todas as viagens. Nunca haverá tempo para tudo o que a alma deseja, porque a vida, em sua limitação, não consegue acolher.

Então, se não haverá tempo para tudo... para o que vale a pena usar o tempo que temos?

A resposta nem sempre vem. E, quando não vem, costumamos procurar um culpado.


Por isso, talvez tenhamos transformado o tempo em uma espécie de réu. Sem perceber, passamos a julgá-lo com frequência, como se fosse o responsável por tudo o que ficou pelo caminho ou deixou de ser vivido. Mas o tempo não carrega culpas. Não se justifica nem se defende; permanece indiferente às nossas acusações.


Ainda consigo ouvi-la dizer: “Não tive tempo. Preciso correr. Como sempre, o tempo foi curto demais... depois a gente conversa.”


E, nesse julgamento, acabamos inevitavelmente presos a Kronos, um dos Titãs da mitologia grega. Representado como um velho de foice em mãos, símbolo do tempo que tudo consome, ele é o   devorador que engole aquilo que ele mesmo cria. Um governante absoluto, senhor dos ciclos inevitáveis da existência. Kronos nos lembra de que nada permanece, nem mesmo o tempo que acreditamos possuir.


E é por isso que o tempo nos confunde.

 


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Il. A Outra Face do Tempo.


Apesar do desconforto que possa nos causar, o tempo não é nosso adversário. Permanece fiel à sua própria natureza: passar. Não favorece nem prejudica, não acelera nem espera. Apenas cumpre seu curso.


Somos nós que escolhemos o que fazer enquanto ele passa.


Mas, será que o tempo se resume apenas a essa passagem?


Os antigos gregos perceberam algo extraordinário, algo que ainda hoje nos escapa. Eles não possuíam apenas uma palavra para designar o tempo. Falavam de Kronos, o tempo que mede, que devora e que se deixa contar pelos relógios e calendários, conduzindo tudo à sua inevitável passagem. Mas havia também Kairos.


Kairos não se prende ao que pode ser medido. Não era o tempo dos relógios, mas o das experiências que nos transformam. Era o instante oportuno: aquele abraço que permanece na memória, a conversa que muda uma vida, o encontro que marca uma existência.


Instantes que não passam apenas pelo tempo, permanecem nele.


Enquanto Kronos nos lembra da finitude, Kairos nos chama a viver plenamente o instante. Um fala daquilo que perdemos; o outro, daquilo que ainda podemos perceber enquanto acontece.


Nesse entrelaçar de ambos, talvez aconteça a experiência humana do tempo: entre aquilo que nos escapa e aquilo que, por um breve instante, nos permite estar inteiros.


Não seria nesse ponto que o tempo deixa de ser apenas medida ou conceito e passa a ser escolha?


O relógio contabiliza Kronos. A alma guarda Kairos.


Kronos pode me explicar quantos anos se passaram desde os tempos de escola de nossas filhas. Naquela época, quando nossa amiga falou sobre a própria lápide, eu ainda não conhecia Kairos. Hoje, porém, é ele quem me ajuda a compreender por que aquela frase continua viva dentro de mim: “Não deu tempo...”.


O mundo mudou, e vivemos um tempo curioso. Naquela época, corríamos para dar conta da vida, porque, afinal, tudo exigia presença física.


Hoje, temos à disposição recursos que nos dão a impressão de administrar Kronos com eficiência. Organizamos a vida em aplicativos, contamos nossos passos em relógios, encurtamos caminhos com algoritmos e delegamos tarefas a plataformas que operam quase sem pausa.


Tudo parece mais rápido e, mesmo com toda essa eficiência, algo ainda escapa à lógica dos relógios. Mudaram as relações, os trabalhos, as formas de aprender, de consumir informações e até a maneira como nós nos percebemos nesse movimento constante, como se o mundo externo tivesse alterado também a forma como vivemos o tempo.


Nesse novo ritmo, vivemos um paradoxo: temos mais tempo e, ao mesmo tempo, menos vida vivida. Aceleramos a caminhada sem necessariamente compreender melhor o caminho. Ganhamos tempo e, ainda assim, deixamos momentos únicos passarem.


E, ainda assim, continuamos dizendo que não temos tempo. 


Por um instante, o tempo pareceu dobrar-se sobre si mesmo, e nossa amiga voltou a estar ali. Cercada por celulares, mensagens e notificações incessantes, sorrindo daquele mesmo jeito, como se dissesse:


“Engraçado... hoje a gente tem tudo pra ganhar tempo e continua correndo. Talvez até muito mais do que antes. E, no entanto, sem tempo nenhum.”


Eu sorri junto com ela.


Nossas vidas foram rapidamente preenchidas por novas demandas, novas urgências e novas distrações. Ganhamos velocidade, mas não necessariamente sabedoria.


Então, talvez a grande escassez dos nossos dias não seja a falta de tempo. Talvez nem nos faltem horas. Não estariam, talvez, faltando momentos que mereçam permanecer?


Talvez porque passamos tanto tempo tentando fazer tudo caber dentro dos nossos dias.


Porque nem tudo foi feito para caber. E nem tudo precisa caber. Há coisas que apenas passam, e há escolhas que fazem o tempo deixar de ser medida e voltar a ser experiência.


E quando essa percepção se amplia, ela já não pertence apenas ao indivíduo.


Há quem veja nisso apenas progresso tecnológico. Há quem perceba algo mais profundo: uma transição de consciência, como se uma antiga forma de viver estivesse chegando ao fim, dando lugar a outra. Como em toda mudança profunda, surge uma inevitável sensação de incerteza: percebemos que algo está terminando antes de compreendermos plenamente o que está começando.


Então, não sabemos exatamente para onde estamos indo. O que sabemos, contudo, é que os sinais de mudança já se manifestam em praticamente todos os setores da vida humana.

E fica uma pergunta: estamos usando a vida para aquilo que permanecerá quando o tempo já não estiver disponível?


Enquanto fecho o notebook, volto a olhar para o céu. Vênus continua lá. Júpiter também. As maritacas já se recolheram, e a noite cumpria, mais uma vez, seu antigo percurso.





lII. Enquanto Ainda Há Tempo.


Penso novamente na frase de nossa amiga: “Não deu tempo...”


Agora, ela me soa como uma das mais sinceras reflexões sobre a condição humana. Mais cedo ou mais tarde, todos descobrimos a mesma verdade: não haverá tempo para tudo.


Então, para que ainda estamos correndo? Será que conseguimos responder a essa pergunta?


Talvez não. Apenas seguimos adiando aquilo que mais importa, como se sempre houvesse um depois. Depois para começar. Depois para mudar. Depois para amar. Depois para perdoar. Como se Kronos tivesse assumido o compromisso de esperar por nós.


Mas um dia haveremos de perceber que Kronos nunca prometeu isso. Ele apenas segue, como sempre seguiu - sem promessas e sem pausa. E é nesse ponto que Kairos se torna precioso. Porque ele não fala do tempo que teremos. Fala do tempo que vivemos.


Não seria por isso que algumas lembranças sobrevivem por décadas, enquanto anos inteiros desaparecem da memória? Existem instantes que ocupam apenas alguns minutos no relógio, mas permanecem vivos por toda a vida. O instante oportuno: o que não se explica, apenas permanece.


Momentos breves para Kronos. Momentos eternos para Kairos.


Nenhum de nós sabe quanto de Kronos ainda nos será concedido. Essa é uma pergunta sem resposta, que pertence ao mistério da vida.


Mas existe outra pergunta que depende apenas de nós: o que estamos fazendo dos nossos momentos de Kairos?


Dos vínculos que construímos? Dos encontros que a vida oferece? Das oportunidades de aprender, servir, amar. E de crescer um pouco além de quem éramos?


Porque, no fim, a vida talvez não seja medida apenas pelos anos que acumulamos. Nem pelas metas que alcançamos. Nem pelas tarefas que concluímos.


Quem sabe ela seja medida pelos instantes que nos transformaram, dando sentido à nossa passagem por aqui.


Quantos deles ainda vivem dentro de você?


E meus olhos continuam observando aqueles antigos viajantes celestes atravessando o céu: Vênus seguirá seu caminho; Júpiter também.  As gerações virão e partirão. E nós? Nós também passaremos. Por isso, a grande questão não é quanto tempo teremos, mas o que faremos com ele.


Pois um dia, para cada um de nós, as agendas se encerrarão, os projetos ficarão para trás, e tudo o que hoje parece urgente perderá importância.


Quando esse momento chegar, será que diremos apenas: “Não deu tempo...”?


Ou, compreenderemos o que realmente mereceu, e ainda merece, a nossa corrida?



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Esta é uma obra editada sob aspectos do cotidiano, retratando questões comuns do nosso dia a dia. A crônica não tem como objetivo trazer verdades absolutas, e sim reflexões para nossas questões humanas.


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