Crônica #145 | A segurança de ser quem eu sou.
- Redação neonews

- há 5 dias
- 7 min de leitura
Ainda que... a insegurança nos engane.

O que você encontrará nesta crônica:
"Nesse mundo que exige performance constante em todas as áreas da vida, simplesmente ser quem se é parece nunca ser suficiente.
Seja no trabalho, nos relacionamentos ou nos diferentes espaços sociais que ocupamos, em que momento você percebeu que estava perdendo a própria identidade por precisar atender expectativas, sustentar desempenho ou preservar pertencimento?
Quantas partes de si mesmo já precisou sacrificar para continuar sendo aceito?
E, no fim, está valendo a pena?"

I. A exigência de funcionar.
Talvez, a exaustão mais perigosa seja aquela que ninguém percebe, porque chega acompanhada de eficiência. Durante semanas, minha vida pareceu caber dentro de uma tela acesa enquanto eu mergulhava cada vez mais em um trabalho intenso. Os dias foram perdendo a forma, os horários se confundiram, até que a rotina se reduziu a uma sequência quase mecânica de projetos exigentes, cálculos e revisões intermináveis. Tudo exigia resultados. Tudo precisava funcionar. Inclusive eu.
Entre planejamentos minuciosos, processos de fabricação e a busca quase obsessiva por entregar algo impecável aos clientes, os dias passaram a correr rápido demais. Cada etapa exigia mais do que técnica; consumia presença contínua, resistência e uma disposição constante para superar meus próprios limites.
Aos poucos, a necessidade de entregar excelência começou a me aprisionar. Minha mente passou a caminhar em círculos dentro da mesma rotina, como se cada dia repetisse o mesmo desgaste sob nomes diferentes. E, ainda assim, tudo parecia em ordem. Os projetos avançavam, os clientes estavam satisfeitos, os resultados apareciam.
Eu seguia funcionando bem, talvez até melhor do que antes. Mas, sem perceber, fui deixando pequenos fragmentos de mim espalhados entre desenhos, cálculos e expectativas. Por fora, tudo parecia controle e maturidade. Por dentro, porém, a história era outra: pequenos colapsos emocionais sinalizavam que eu já não estava tão inteiro quanto aparentava. Havia alguma coisa errada, embora eu ainda tentasse convencer a mim mesmo de que era apenas um simples cansaço.
Numa dessas noites, fechei o notebook já tarde e permaneci algum tempo olhando para a tela escura. O silêncio ali parecia estranho, quase constrangedor.
- “Só mais essa semana...”, murmurei para mim mesmo, como quem tenta negociar com o próprio limite.
A verdade é que eu já não sabia mais descansar sem sentir culpa. Precisava de uma pausa, ainda que breve. Precisava me afastar dos cálculos complexos, das cobranças e daquela necessidade exaustiva de nunca falhar.
Foi então que percebi que o problema já não era apenas o trabalho. Na tentativa de continuar sendo forte, acabei me ferindo sem perceber. Os feriados passaram despercebidos, os finais de semana deixaram de existir como descanso e, mesmo quando eu tentava parar, minha mente continuava ocupada, revisando prazos e listas que pareciam nunca ter fim.
Depois de duas semanas particularmente exaustivas, sentei-me diante da escrivaninha tentando escrever alguma coisa. Abri o documento em branco três vezes naquela noite. Nas três, fiquei apenas olhando para o cursor piscando na tela, sem conseguir escrever uma única frase.
Porque, talvez, eu tivesse passado tempo demais respondendo às exigências do mundo e tempo de menos ouvindo aquilo que ainda sobrevivia dentro de mim.
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Il. Entre ser e petencer: sobrevivência?
Foi então que o alerta do celular vibrou, interrompendo o silêncio ao redor.
Uma mensagem curta apareceu na tela:
“A segurança de ser quem eu sou...”
Permaneci alguns instantes olhando para aquelas palavras. Tentava entendê-las, mas era como se houvesse nelas algo maior do que a própria frase. Muitas vezes, não é a grandiosidade de uma frase que nos transforma, mas o momento em que ela encontra uma parte nossa que já estava prestes a desabar. E, curiosamente, havia algo de preciso naquele instante.
A mensagem chegou sem discursos, sem excessos, apenas verdadeira, alcançando em mim uma profundidade inesperada. Vinha de um grande amigo, alguém acostumado a espalhar palavras com delicadeza e a dizer exatamente o necessário, sem precisar insistir ou levantar a voz, como quem conhece os caminhos invisíveis por onde, às vezes, a alma começa lentamente a se perder de si mesma.
Continuei olhando para a tela. E comecei a perceber o quanto minha paz interior havia sido soterrada pelas exigências acumuladas daqueles dias. Quando a vida passa tempo demais girando em torno de cobranças, desempenho e expectativas, até parar por um instante pode parecer inadequado.
E isso me assustou.
Talvez um dos esgotamentos mais profundos não venha exatamente do excesso de trabalho, mas do esforço contínuo de sustentar expectativas, vínculos e a aparência de alguém que permanece inteiro o tempo todo. Em algum ponto entre tantos cálculos e responsabilidades, comecei a sentir que minha existência precisava ser constantemente validada pelo quanto eu conseguia suportar.
Levantei-me para pegar um chá e, enquanto a chaleira aquecia lentamente na cozinha, pensei: Quantas pessoas vivem assim sem perceber?
Pessoas que, por diferentes razões, não possuem a segurança de ser quem são e acabam vivendo como num palco de adaptação contínua. Algumas aprenderam a ser fortes cedo demais. Outras se acostumaram tanto a corresponder às expectativas externas que nunca desenvolveram a segurança de simplesmente ser quem são. E, sem perceber, foram fazendo da adaptação uma identidade.
Pessoas que funcionam socialmente, produzem, resolvem problemas, cumprem papéis, mas que, por dentro, permanecem presas a versões de si mesmas criadas apenas para sobreviver.
Pensei em como a vida inteira talvez gire em torno dessa dor: o conflito entre ser quem se é e tornar-se aquilo que preserva o pertencimento.
Autenticidade ou adaptação?
Quem sabe essa seja uma das lutas mais permanentes da condição humana, porque existir autenticamente exige muito mais coragem do que imaginamos.
Ser quem se é parece bonito na teoria. Mas, na prática, exige coragem para decepcionar expectativas, suportar rejeições, impor limites, enfrentar rupturas e até certas solidões temporárias. Porque algumas relações importantes talvez não sobrevivam àquilo que realmente somos.
Por isso, adaptar-se parece tão mais seguro. Tão mais fácil continuar sendo aquilo que esperam de nós nos diferentes espaços da vida: no trabalho, nos afetos, nos relacionamentos e até diante de nós mesmos.

lII. Além do visível: Essência.
Enquanto o chá esfriava ao meu lado, pensei em como, às vezes, adaptação demais acaba sendo confundida com maturidade. Quantas vezes nos moldamos tanto ao que esperam de nós que começamos a acreditar que isso é amadurecer?
E, sem perceber, passamos a confundir adaptação com crescimento, enquanto sacrificamos partes de nós mesmos para preservar vínculos, imagens e aprovações.
Comecei a pensar em quantas vezes aprendemos cedo demais a observar o que agrada, o que evita rejeição e o que garante aceitação. Talvez seja assim que começamos, quase sem perceber, a esconder fragilidades, opiniões e desejos mais profundos. Não por falsidade, mas por sobrevivência.
E então nos tornamos eficientes. Competentes. Adaptáveis, mas profundamente dependentes das expectativas externas.
Será que não é por isso que tantas pessoas extremamente produtivas vivem internamente esgotadas? Aos poucos, o próprio valor passa a depender da capacidade de corresponder, produzir e não decepcionar. E então passamos a trabalhar além do limite, corresponder demais e suportar mais do que deveríamos.
Fortes aos olhos do mundo.
Mas, quase ninguém percebe que, às vezes, por trás da eficiência pode existir apenas alguém cansado de sobreviver tentando não decepcionar o tempo inteiro. E talvez esse seja o preço mais alto da adaptação: a pessoa passa tanto tempo tentando caber no mundo que, aos poucos, já não sabe mais o que realmente deseja fora dele.
Eu havia ido longe demais. Em algum momento, comecei a perder algo difícil de explicar. Não era insegurança ligada ao conforto material, nem à estabilidade profissional. Era algo mais profundo.
Aquele esgotamento não vinha apenas do trabalho, mas do esforço contínuo de corresponder às expectativas. Quase no piloto automático, aquilo começou a abafar partes minhas que antes eram inegociáveis: minhas pausas, meus silêncios e até minha própria presença, então reduzida a uma vida movida apenas pela produtividade.
De volta à escrivaninha, o cursor ainda piscava na tela vazia.
E então escrevi: “A segurança de simplesmente ser quem eu sou...”
Enquanto observava a frase na tela, algumas reflexões começaram a se reorganizar dentro de mim. Lembrei-me de Byung-Chul Han e de sua ideia sobre a sociedade do cansaço, marcada pelo excesso de desempenho e produtividade.
E talvez, o mais inquietante fosse perceber que eu mesmo, embora estivesse vivendo exatamente assim, já não conseguia enxergar com clareza o quanto meus próprios excessos haviam se tornado naturais enquanto aconteciam.
Foi então que aquelas poucas palavras começaram a ganhar outro significado dentro de mim. Eu começava a perceber como elas podem parecer simples para quem já encontrou paz dentro de si. Mas não para quem passou tempo demais tentando apenas corresponder. Porque, depois de muito tempo vivendo voltado para fora, voltar para si exige coragem.
Aos poucos, elas foram me conduzindo para uma espécie de reconciliação comigo mesmo. Depois de tanta cobrança, percebi o quanto havia atropelado minhas próprias limitações sem me permitir nenhum perdão.
Às vezes, alguém nos devolve a nós mesmos sem perceber. Meu amigo não chegou com conselhos, discursos ou tentativas de consertar nada. Ainda assim, sua sensibilidade naquela breve mensagem me ajudou a reencontrar uma parte de mim que eu já não percebia estar deixando para trás.
“A segurança de ser quem eu sou...”, pensei. Existencialmente, ela não significa rigidez, orgulho ou ausência de medo. E talvez também não tenha relação com perfeição, produtividade ou reconhecimento. Quem sabe ela nasça quando finalmente percebemos que existe uma parte da vida que não pertence ao tempo, às cobranças ou às exigências do mundo.
Porque não somos apenas matéria tentando vencer o cansaço dos dias. Existe em nós algo que ultrapassa o corpo, os títulos e tudo aquilo que aprendemos a sustentar para corresponder. Algo mais profundo do que aquilo que o mundo vê. Algo que nenhuma produtividade ou conquista material consegue preencher completamente.
A verdadeira segurança talvez esteja justamente na capacidade de permanecer inteiro por dentro, mesmo quando a vida exige versões nossas construídas apenas para corresponder.
Porque, no fim, não seremos definidos apenas pelo que fizemos, mas também por aquilo que construímos dentro de nós ao longo da caminhada. Algo invisível aos olhos, mas essencial diante da eternidade, e que um dia levaremos para além do tempo.
E então, diante de tudo aquilo que o mundo exige que sejamos, talvez reste apenas uma pergunta:
O que estamos preservando dentro de nós enquanto tentamos sobreviver aos nossos dias?
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Esta é uma obra editada sob aspectos do cotidiano, retratando questões comuns do nosso dia a dia. A crônica não tem como objetivo trazer verdades absolutas, e sim reflexões para nossas questões humanas.












