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Crônica #147 | Visão da Vida.

  • Foto do escritor: Redação neonews
    Redação neonews
  • há 8 horas
  • 7 min de leitura

Quando olhar não basta.



Capa Crônica #147 | Visão da Vida.
Capa Crônica #147 | Visão da Vida.

O que você encontrará nesta crônica:


"Quantas vezes olhamos sem perceber, ouvimos sem escutar e seguimos pela vida sem reconhecer os sinais ao nosso redor? Enquanto acreditamos estar vendo tudo, quantas coisas importantes passam diante de nós? Talvez uma das grandes lições da vida seja descobrir que olhar não é enxergar, ouvir não é escutar e estar vivo não significa, necessariamente, estar presente. Em qual dessas posturas você se encontra hoje? Afinal, algumas das maiores descobertas da vida costumam estar em pequenos detalhes que deixamos de perceber."





I. O Guia Inesperado.


“Foi preciso um homem que não enxergava com os olhos para me ensinar a ver”, disse Válter depois daquele encontro.

 

Era mais uma manhã comum no metrô. Entrei em um dos vagões e logo avistei meu amigo sentado ao lado de um senhor de meia-idade. Ele trazia na cabeça uma boina escura, uma bolsa a tiracolo e um bastão-guia recolhido sobre o colo. Sua aparência revelava uma limitação; sua postura, porém, sugeria algo que eu ainda não conseguia definir.

 

Enquanto a maioria seguia mergulhada nos celulares, deslizando os dedos por mensagens, notícias e redes sociais, ele cantarolava discretamente um hino cristão. À primeira vista, parecia viver em um universo particular. Mas, observando melhor, tive a impressão oposta. Era como se estivesse mais presente naquele vagão do que todos nós. Os anúncios nos alto-falantes pareciam não lhe escapar. O ruído metálico dos trilhos, os freios rangendo, as conversas dispersas e o movimento das pessoas entrando e saindo, tudo parecia encontrar lugar dentro de sua atenção.  

 

Havia algo incomum naquela cena. Não era a deficiência que chamava atenção, mas a serenidade. Aquele senhor parecia deslocado do ritmo inquieto do vagão. Não parecia, porém, isolado do mundo; ao contrário, parecia mais conectado a ele do que todos nós. Enquanto muitos observavam alguma coisa através de uma tela, ele parecia escutar a vida acontecendo à sua volta.

 

Não sei bem, mas talvez tenha sido isso que despertou minha atenção.

 

Estamos tão acostumados à distração e à pressa inquieta das pessoas que qualquer sinal de alguém verdadeiramente atento ao presente parece, muitas vezes, fora de lugar. Ou então, talvez o estranho não fosse aquele homem. Talvez fôssemos nós, pois o único passageiro que não podia ver era justamente aquele que mais percebia o que acontecia ao redor.

 

Válter disse que desceriam na estação seguinte e me convidou para um café antes de seguir para o trabalho. Resolvi acompanhá-los.

 

Eu continuava impressionado com a naturalidade daquele senhor.  Agora, com o bastão estendido, seguia firme pela calçada movimentada. Não demonstrava hesitação. Parecia caminhar atento aos sons, em diálogo com a rua, com as distâncias e com o movimento das pessoas.

 

Paramos numa esquina. O semáforo estava vermelho, e aguardamos alguns instantes. A agência bancária para a qual ele se dirigia ficava do outro lado da avenida.

 

Com um sorriso sereno, aceitou o braço oferecido por Válter. Não como alguém dependente, mas como quem apenas compartilha um trecho da caminhada.

 

A conversa seguia tão agradável que passamos pela agência sem perceber.

Foi então que ele disse calmamente:

- “Passamos do banco.”

Olhei para os lados.


Ele estava certo.

 

Naquele instante ocorreu-me uma ironia impossível de ignorar. Nós enxergávamos as fachadas, as vitrines e toda a rua, mas não percebêramos justamente o lugar para onde estávamos indo. Ele, que não podia ver nada disso, permanecia orientado, sabendo exatamente onde estava.

 

Quem realmente precisava de um guia naquele momento?

 

Enquanto retornávamos alguns passos, ele comentou com a naturalidade de quem descreve algo evidente:

 

- “Muitas vezes não enxergamos aquilo que vemos... e vemos aquilo que não enxergamos.”

 

A frase permaneceu no ar, porque não consegui refletir sobre ela de imediato.

Paramos em frente à agência. Ainda faltava algum tempo para a abertura.

Sem que ninguém dissesse nada, ele perguntou:

 

- “Fechado, não é?”

- “Mas abrirá em poucos minutos.”, ele mesmo respondeu.

- “Podem seguir. Obrigado pela companhia.” 

Ele recusou o convite para nos acompanhar no café, pois já havia tomado o seu antes de sair de casa.

 

Na despedida, não resisti à curiosidade.

 

- “Como o senhor sabia que faltavam poucos minutos para o banco abrir?” 

 

Ele sorriu com simplicidade.

 

Quase sussurrando, explicou que uma senhora reclamava de uma conta atrasada, enquanto dois homens conversavam sobre aposentadoria e mencionavam que a agência abriria em cerca de dez minutos. Disse aquilo com absoluta simplicidade, como se não houvesse nada de extraordinário.

 

Mas havia.

 


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Il. A Escolha da Gratidão


Embora todos nós vivamos cercados de sons, palavras e pessoas, raramente estamos atentos o suficiente para realmente escutá-los.

 

Fiquei em silêncio.

 

Sentia, naquele instante, o quanto escutar não é o mesmo que ouvir, assim como enxergar não é o mesmo que perceber.

 

E tentava me convencer de que isso não nos acontecia apenas por uma limitação dos sentidos, mas que, nos dias de hoje, talvez fosse agravado pelo excesso de distrações que disputam continuamente o nosso olhar. Não seria por essa razão que tantas coisas importantes passam diante de nós sem serem percebidas?

 

Afinal, enxergamos apenas aquilo para o qual voltamos a nossa atenção.


E se estivermos tão distraídos que deixamos passar justamente as coisas mais importantes da vida?

 

Eu e Válter seguimos até uma pequena cafeteria próxima à estação. O aroma gostoso do café parecia   desacelerar as pessoas por alguns instantes.

 

Sentados à mesa, naquele momento sagrado de pausa, a conversa ganhou profundidade.

 

- “Você parece admirar muito aquele senhor”, comentei.

 

Válter permaneceu alguns segundos girando a colher dentro da xícara antes de responder.

 

- “No começo foi diferente.”

 

- “Diferente como?”

 

- “Ele me causava estranheza.”

 

Aquilo despertou minha curiosidade.

 

Então me contou que o senhor havia perdido a visão ainda garoto por não ter tido acesso a um socorro básico. Apesar disso, jamais o ouvira lamentar a própria condição.

 

- “Nunca reclamou?”

 

- “Nunca. Pelo menos não na minha frente. E também nunca se mostrou ressentido.”

 

Fez uma breve pausa.

 

- “E era justamente isso que me incomodava.”

 

- “Incomodava por quê?”

 

Válter apoiou a xícara sobre o pires e, olhando para mim, exclamou:

 

- “Porque eu não conseguia entender.”

 

- “Mas entender o quê?”  

 

- “Como alguém que tinha tantos motivos para viver amargurado não havia endurecido o coração e parecia estar sempre mais em paz do que eu. Eu vivia observando-o e tentava encontrar alguma explicação”, continuou. “Mas ele nunca pareceu revoltado, nunca falava daquilo que havia perdido.

A maneira como vivia, a gratidão que demonstrava todos os dias, apesar das dificuldades que sua deficiência lhe impunha, era algo intrigante, fora do normal, fora do esperado pela maioria das pessoas.”

 

Olhou para mim novamente e sorriu de leve.

 

- “E eu me perguntava como isso era possível. Afinal, eu enxergava perfeitamente e estava muito mais perdido do que ele.”





lII. A Nossa Cegueira


Minha atenção permanecia na pergunta que Válter me dirigira:

 

- “O que será que sustenta um ser humano quando lhe falta algo que a maioria considera indispensável?

 

Pela primeira vez percebi um peso diferente em sua voz.

 

E continuou:

 

- “Ele nunca me deu conselhos”, disse Válter. “Nunca tentou me ensinar nada. Mas prestava atenção em tudo. Nas pessoas, nas palavras, até naquelas pequenas coisas que a maioria de nós ignora e deixa passar.”

 

Continuei em silêncio, observando seu semblante e, não me contendo, perguntei:

 

- “O que estava acontecendo com você naquela época?”

 

Válter sorriu com uma expressão de quem ainda procurava respostas.

 

- “Essa é a parte mais difícil de explicar.”

 

Olhou por alguns instantes para a rua antes de continuar.

 

- “Não aconteceu nenhuma tragédia. Ninguém havia morrido. Eu não tinha perdido tudo. A vida seguia normalmente.”

 

Esperei que continuasse.

 

- “Eu trabalhava, cumpria compromissos e recomeçava tudo no dia seguinte. Havia dias em que eu não encontrava uma razão clara para sair da cama.”

 

O que acontece quando nada parece necessariamente errado e, ainda assim, alguma coisa parece fora do lugar?

 

Suas palavras me fizeram lembrar os passageiros do metrô. Todos ocupados. Todos em movimento. Todos seguindo para algum lugar. No entanto, quantas pessoas seguem com sua rotina sem perceber que já não se reconhecem nela? Quantas pessoas já não sofrem profundamente, mas também já não se alegram profundamente, perdendo aos poucos o encanto pela vida?

 

Válter atravessava uma dessas fases em que a vida continua acontecendo por fora, mas totalmente apagada e desalinhada por dentro. Ele não sabia explicar o que estava acontecendo consigo mesmo, e essa inquietação havia roubado seu sorriso. Em meio a esse conflito, conheceu aquele senhor e, por circunstâncias necessárias, passou a conviver com ele parte dos seus dias.

 

“Você sabe o que mais me intrigava nele?”, perguntou, girando lentamente a xícara de café. “Ele perdeu a visão, mas parece enxergar a vida melhor do que muita gente que vê perfeitamente. E eu me incluía entre essas pessoas. O que aquele homem enxergava na vida que eu ainda não conseguia ver?”


Eu permaneci em silêncio.

Enquanto falava, vieram-me à mente pessoas que possuíam quase tudo o que costumamos considerar importante e que, ainda assim, caminhavam pela vida como quem procura algo sem saber exatamente o quê.

 

Válter me olhou e, franzindo a testa, acrescentou:

 

- “O curioso é que eu tinha uma vida muito mais fácil que a dele e, ainda assim, era eu quem caminhava sem rumo.”

 

Assenti sem dizer nada.

 

- “Sabe aquela ideia de que seremos mais felizes quando conquistarmos mais alguma coisa? Mais dinheiro, mais conforto ou mais reconhecimento? Aquele homem parecia contradizer tudo isso.”

 

Diante de nós existia aquele senhor, a quem faltava algo que muitos julgariam indispensável e que, mesmo assim, parecia menos distante da vida do que muita gente que possuía tudo.

 

- “Talvez porque ele não tenha apenas aprendido a viver sem a visão”, respondi. Talvez tenha aprendido a valorizar aquilo que permaneceu.”

 

- “Talvez.”

 

Válter ficou pensativo por alguns instantes.

 

Tomou o último gole de café e disse:

 

- “Sabe, durante muito tempo procurei entender o que estava errado comigo. Achava que, quando finalmente encontrasse as respostas, conseguiria voltar a viver.”

 

Fez uma breve pausa.

 

- “Ele, porém, com tudo o que lhe faltava, não parecia esperar que alguma coisa acontecesse para então começar a viver. Não vivia à espera de uma solução, de uma resposta ou de circunstâncias perfeitas. Parecia ter feito as pazes com cada dia que recebia. Foi isso o que mais aprendi com ele.”

 

Saímos da cafeteria logo depois.

 

Enquanto caminhava de volta à estação, percebi que aquele encontro nunca tinha sido sobre a falta de visão daquele senhor. Talvez fosse sobre a nossa.

 

Sobre todas as vezes que não reconhecemos as belezas ao nosso redor. Não reconhecemos o amor e, muitas vezes, nem reconhecemos a nós mesmos.

 

Eu me vi nessa cegueira.

 

Quantos de nós enxergamos perfeitamente e, mesmo assim, passamos a vida sem realmente ver?



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