Crônica #149 | E depois da verdade?

A verdade também escolhe por nós.

O que você encontrará nesta crônica:
"Há verdades que procuramos durante anos. Outras, talvez, preferíssemos nunca
encontrar.
Mas, o que acontece quando finalmente descobrimos algo que muda aquilo em que
acreditávamos? Continuamos realmente livres para escolher, ou a própria verdade
passa a escolher por nós?
E você, o que faria se a verdade que procurasse fosse diferente daquela que gostaria
de encontrar?."

I. Antes da pergunta.
O meu mundo na adolescência se resumia aos estudos. Levava uma vida um pouco mais solitária do que a maioria dos garotos da minha idade. Tinha alguns amigos, mas também havia muito tempo para pensar, às vezes, mais do que eu sabia o que fazer com ele.
Foi nesse período que conheci um seminarista que cursava teologia. Ele tinha uma maneira diferente de enxergar as coisas. Em vez de dar respostas prontas, como geralmente faziam os adultos, costumava responder com perguntas.
Vou chamá-lo de “Rio Celestial”, pois, de alguma maneira, tornou-se um ponto de referência em meio aos pensamentos turbulentos daquela idade.
Num feriado prolongado, resolvemos acampar. Também nos acompanhavam dois outros garotos, entre eles Yoshi, um amigo que morava em um sítio próximo à minha casa. Sua família vivia do cultivo de tomates.
O destino escolhido foi Ubatuba, no litoral paulista. Para nós, ainda garotos, aquela viagem já tinha o sabor de uma aventura. Tomamos um ônibus, com uma troca em São Paulo, na antiga Estação da Luz. Saímos cedo, mas o trajeto foi longo. Alguns quilômetros antes de chegarmos à cidade, quando o dia já começava a perder sua luz, Rio Celestial pediu ao motorista que nos deixasse em uma estrada de terra. Foi ali que encontramos um lugar para acampar.
Ao cair da noite, a quietude era interrompida apenas pelo canto dos grilos e, ao longe, pelo som das ondas quebrando na praia. Armamos as barracas e preparamos um jantar simples.
Hoje, olhando para trás, percebo que os grandes acontecimentos costumam ocupar um lugar privilegiado na memória. Entretanto, nem sempre são eles que mais nos transformam.
Às vezes, é a simplicidade de um dia que permanece conosco por toda a vida.
Naquela noite, eu ainda não conhecia o significado profundo da palavra filosofia. Foi ali que talvez tenha começado uma das primeiras conversas verdadeiramente filosóficas da minha vida. De alguma forma, ela mudou a maneira como eu sentia a vida caminhar ao meu lado.
Percebi que muitas perguntas não eram apenas sobre as coisas do mundo, mas sobre nós mesmos. As conversas eram sobre comportamentos, escolhas, amizades duvidosas e também sobre as influências de uma sociedade que, aos meus olhos, parecia tratar a liberdade como sinônimo de uma vida fácil e sem limites.
A Lua surgia vigorosa no horizonte. Acendemos uma fogueira e nos sentamos à sua volta.
Acompanhado pelo violão de Yoshi, Rio Celestial iniciou seu cântico de louvor. Uma brisa suave vinha do mar e, diante daquela imensidão de estrelas – estrelas que a cidade quase sempre escondia de nossos olhos -, fomos tomados por uma profunda contemplação.
Yoshi continuava dedilhando distraidamente as cordas do violão. Seu olhar estava perdido na direção do mar. Depois de alguns acordes, como se falasse mais consigo mesmo do que conosco, deixou escapar:
- “O que é a verdade? Porque, dentro de casa, parece que é uma coisa... e aqui fora é outra. Às vezes eu fico meio confuso. Não sei se é porque sou japonês, se é porque meus pais vieram de outra realidade.... Ou se é a gente que muda quando sai de casa.” Fez uma pequena pausa e voltou a falar:
“Porque o que eles falam faz sentido para eles. E aí eu olho para o mundo aqui fora e parece que ninguém pensa daquele jeito. Então, qual dos dois está certo?”
Não havia revolta na voz de Yoshi, embora houvesse certa rispidez nas palavras. Conhecia meu amigo e sabia que aquilo vinha mais da inquietação do que de contestação. Mas, de certa forma, havia também uma espécie de lamento, como se ele estivesse tentando conciliar duas realidades que começavam a se mostrar incompatíveis.
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Il. Quando a verdade nos encontra.
Rio Celestial permaneceu quieto, apenas ouvindo.
Ao longe, o mar continuava repetindo seu movimento interminável contra a praia e, diante de nós, o fogo dançava, fazendo estalar os pequenos galhos. Por alguns instantes, ninguém pareceu ter pressa de quebrar aquele silêncio. Então, ele perguntou:
- “Yoshi, e se a questão não for descobrir qual das duas verdades está certa?”
Yoshi voltou seu olhar para ele, sem entender.
- “Como assim?”
Rio Celestial mexeu uma pequena brasa com um graveto.
- “E se o problema for outro? E se a gente descobrir a verdade e, mesmo assim, não quiser aceitar? Talvez o difícil não seja descobrir a verdade, mas o que fazer depois que a gente descobre.”
Rio Celestial levantou os olhos para o céu.
- “Talvez a gente só procure a verdade quando acha que vai gostar da resposta. O problema é quando ela vem diferente do que a gente esperava... aí a gente não sabe mais o que fazer com aquilo.”
Hoje entendo que, muitas vezes, a verdade também nos encontra. E, quando isso acontece, raramente permanece apenas como conhecimento. Ela nos tira o conforto de acreditar que estamos certos e nos obriga a rever certezas, escolhas e caminhos.
Naquela noite, eu imaginava que a resposta à inquietação de Yoshi estivesse em algum lugar entre acreditar e duvidar. Porém, hoje percebo que a questão era muito mais profunda. Não se tratava apenas de descobrir a verdade, mas de saber o que faríamos depois de descobri-la, principalmente se ela fosse diferente daquilo que desejávamos que fosse.
Com o tempo, comecei a perceber que existem verdades que chegam como esclarecimento. Elas se mostram na família, nas relações, nas decisões que tomamos e até nas próprias ilusões.
Percebi também nas verdades que chegam acompanhadas de perdas: aquelas que nos obrigam a reconhecer que um caminho já não pode ser retomado, que alguém mudou ou que alguma coisa terminou. E outras verdades que demoramos décadas para admitir, mesmo sabendo, no fundo, que sempre estiveram ali. Muitas vezes as evitamos porque aceitá-las significaria reconhecer que não poderemos continuar vivendo exatamente da mesma maneira.
Naquela época, eu ainda acreditava que a vida caminhava ao nosso lado. Hoje suspeito de algo diferente: somos nós que caminhamos ao lado da vida, tentando aprender a reconhecê-la enquanto ela acontece.
Por isso, talvez, algumas respostas só possam ser compreendidas muito tempo depois de terem sido ouvidas. E algumas perguntas permanecem anos conosco, até que uma experiência, uma perda ou simplesmente a passagem do tempo nos devolva a elas com outro significado.
Ainda não sabíamos disso. Éramos apenas três garotos diante de uma fogueira, tentando encontrar uma resposta para uma pergunta que talvez fosse grande demais para a nossa idade. Ninguém quis falar. Permanecemos calados e ainda mais pensativos.
O silêncio se prolongou.
Rio Celestial também permaneceu em silêncio, como se não tivesse pressa de nos oferecer uma resposta. Talvez soubesse que, diante de determinadas verdades, uma resposta pronta poderia ser apenas outra forma de não pensar. Talvez aquela pergunta precisasse amadurecer dentro de nós.
Ela me pareceu apenas mais uma das muitas perguntas de Rio Celestial. Mas, hoje, olhando para trás, percebo que talvez tenha sido uma das mais importantes que ele nos fez.
Afinal, uma coisa é descobrir uma verdade; outra é estar disposto a viver de acordo com ela.
Não estávamos apenas tentando descobrir o que era verdade. Sem saber, estávamos começando a descobrir o que a verdade faria conosco.
Essa talvez seja a parte que só compreendi mais tarde. A imaturidade daquela época não me permitiu compreender o que aquela pergunta carregava. Penso que, talvez, tenha sido justamente isso que Rio Celestial desejava: apenas deixar a pergunta conosco.
Entendo hoje que muitas perguntas precisam primeiro viver em nós para depois voltarem com suas respostas.
E aquela viveu.
Aquela conversa continuou acontecendo dentro de mim décadas depois de ter terminado.
Foi preciso tempo para perceber que reconhecer uma verdade não significava necessariamente gostar dela, tampouco concordar com tudo aquilo que acontecia.
Aceitar pode ser apenas reconhecer que alguma coisa é o que é, mesmo quando, no fundo, ainda gostaríamos que fosse diferente.

lII. Que é a verdade?
Na adolescência, porém, eu ainda imaginava que encontrar a verdade seria, de algum modo, chegar ao fim das dúvidas. Doce ilusão de um adolescente. Não sabia que algumas verdades podem fazer justamente o contrário: abrir novas perguntas e nos colocar diante de escolhas que muitas vezes preferiríamos não fazer.
Rio Celestial talvez soubesse disso. Ou percebesse que estávamos procurando uma resposta simples para uma questão que não era simples.
Ele permaneceu nos observando em silêncio.
Foi então que citou uma frase dita por Pilatos a Jesus: “Que é a verdade?”
Yoshi deixou seu violão encostado na barraca e se acomodou ao seu lado. Eu também me aproximei. A fogueira já começava a perder a força, mas ninguém parecia preocupado em alimentá-la. Aquela pergunta parecia ter despertado ainda mais nossa atenção.
Tomada isoladamente, a pergunta de Pilatos parece simples, quase ingênua: “Que é a verdade?”. Mas, dentro da narrativa das Escrituras, ela ganha uma dimensão muito maior. Não era apenas uma pergunta sobre um conceito. Era uma pergunta feita diante de alguém que afirmava ser a própria verdade.
Havia algo naquela cena que me fazia pensar. A pergunta era sobre a verdade, mas a resposta estava ali, diante de Pilatos, em uma pessoa.
Talvez seja justamente por isso que essa pergunta atravesse os séculos sem deixar de provocar novas perguntas.
Se a verdade fosse apenas uma ideia, poderíamos compará-la com outras ideias, aceitá-la ou rejeitá-la e seguir adiante. Mas, e quando a verdade deixa de ser apenas aquilo que pensamos e passa a confrontar aquilo que somos?
Era justamente esse o ponto que, naquela idade, ainda nos escapava.
Ali, a verdade que discutíamos não estava nos livros, não era apenas filosófica. Ela estava ali, sentada ao nosso lado, personificada nas dúvidas de Yoshi. Não se tratava simplesmente dele rejeitar o que vinha de casa, tampouco de aceitar ingenuamente o que encontrava lá fora. Havia uma distância entre aquilo que havia aprendido e aquilo que começava a descobrir. E, para Yoshi, essa distância parecia ter se tornado maior do que ele conseguia compreender.
Hoje, conhecendo melhor Yoshi e olhando para aquela noite com a distância dos anos, percebo que sua pergunta não era apenas sobre a verdade. Talvez ele estivesse tentando entender a si mesmo. Havia nele o desejo de construir uma compreensão própria daquilo que havia recebido e daquilo que começava a encontrar. Talvez quisesse saber o que devia conservar, o que devia transformar e o que precisava deixar para trás.
E havia também uma terceira palavra escondida nas entrelinhas de suas perguntas: liberdade.
Queríamos ser livres, mas naquela idade acreditávamos que ser livre significava apenas poder escolher. Ainda não compreendíamos que existia uma dimensão mais difícil da liberdade: aceitar que toda escolha nos escolhe também. Que podíamos escolher qualquer caminho, mas não podíamos escolher as consequências de cada caminho. Que podíamos decidir permanecer, mas teríamos de responder pelo que significaria permanecer. Que podíamos partir, mas levaríamos conosco aquilo que a partida produziria. E até mesmo podíamos não escolher, mas a omissão também deixaria sua marca.
Naquela idade, porém, ainda não sabíamos disso. Éramos apenas três garotos tentando compreender o mundo, em busca de respostas.
Tantos anos depois, percebo que algumas perguntas não envelhecem. Apenas mudam de lugar dentro de nós.
Aquela conversa continuou acontecendo em mim muito depois de ter terminado. Talvez esse tenha sido o maior ensinamento de Rio Celestial: não nos entregar uma resposta, mas deixar conosco uma pergunta da qual não conseguíamos mais fugir.
Pouco tempo depois daquele acampamento, Rio Celestial partiu. Eu jamais poderia imaginar que aquela seria uma das últimas vezes em que estaríamos juntos daquela maneira. Tampouco poderia prever que, muitos anos depois, eu voltaria àquela noite não mais procurando uma resposta, mas tentando compreender o significado que aquela pergunta havia adquirido dentro de mim.
Quando penso naquela noite, ainda consigo imaginar a fogueira perdendo lentamente a força, as estrelas indiferentes às nossas perguntas e o mar continuando a quebrar ao longe.
E, diante de nós, aquela antiga pergunta permanecia:
“Que é a verdade?”
Algumas perguntas não precisam de uma resposta definitiva para transformar uma vida.
Algumas apenas precisam permanecer acesas.
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Esta é uma obra editada sob aspectos do cotidiano, retratando questões comuns do nosso dia a dia. A crônica não tem como objetivo trazer verdades absolutas, e sim reflexões para nossas questões humanas.







