Crônica #148 | Soltar? Ainda não sei.
- Redação neonews

- há 3 dias
- 9 min de leitura
Atualizado: há 21 horas
Quando já é tempo...

O que você encontrará nesta crônica:
"Há pessoas, desejos, expectativas e caminhos que fazemos de tudo para manter.
Insistimos, esperamos, buscamos respostas. Até que chega um momento em que já não há mais o que fazer além de soltar.
Mas soltar significa desistir?
Como saber quando insistir e quando deixar ir? E se algumas coisas apenas cumprissem seu tempo, como frutos que amadurecem e, quando chega a hora, precisam se desprender?
Desprender-se também é confiar. Há caminhos que só se abrem quando deixamos de controlar cada passo."

I. Enquanto Amadurecemos.
Em uma tarde desses dias de chuva, peguei-me quieto, envolvido naquele silêncio típico de uma casa em dias mais escuros. O beija-flor ainda dava o seu ar de graça, buscando a água açucarada. Eu meditava sobre as histórias de nossas vidas, essa coleção de complexidades que envolve quem somos. Pensava nos encontros que mudam nossa trajetória, nas perdas e despedidas que deixam espaços difíceis de preencher e nos caminhos inesperados pelos quais a vida tantas vezes nos conduz.
Fui interrompido pela chamada de um amigo que precisava da minha assinatura para uma questão do trabalho. A campainha tocou, colocando nossos cães em alerta, e eles dispararam, latindo em direção à garagem. Era ele, que viera buscar minha assinatura. Estava abatido. Triste, desabafou sobre o quanto estava difícil para ele lidar com a permanência da esposa no hospital. Sem diagnóstico, aguardava os resultados dos exames médicos.
Mesmo conhecendo os movimentos da vida e sabendo que nada permanece igual, qualquer um de nós é constantemente surpreendido. De uma hora para outra, a vida nos tira do lugar e nos lança ao desconhecido. Muitas vezes, leva-nos de um extremo ao outro: subimos, caímos, perdemos o rumo, até entendermos que tudo o que nos resta é reunir forças e recomeçar.
– “Meu amigo”, dizia ele, “estou me sentindo sufocado. Preciso encontrar um pouco de equilíbrio, mas os altos e baixos dos últimos tempos não me deixam nem sequer parar para buscar isso.”
Depois que ele foi embora, fiquei pensando naquela palavra: equilíbrio.
Seria o equilíbrio um ponto fixo entre dois extremos? Não seria ele também relativo, mudando conosco à medida que acumulamos experiências ao longo da vida? Muito daquilo que considerávamos importante aos vinte anos já não tem mais o mesmo peso aos quarenta. E provavelmente será diferente aos setenta ou oitenta. Na verdade, fiquei pensando no quanto tudo em nossas vidas é relativo.
Aquela dor que, em determinada época, parecia insuportável pode, anos depois, transformar-se em uma lembrança acompanhada de gratidão. Não exatamente porque a dor tenha sido boa, mas porque nós já não somos os mesmos que a experimentaram. Com o passar dos anos, é natural que o tempo transforme a maneira como olhamos para aquilo e como carregamos o que aconteceu.
Voltei à sala de jantar e fiquei observando o jardim através da ampla janela de vidro, respingada pelas águas da chuva. Meus olhos percorreram o quintal até encontrar o pé de limão-rosa, carregado naqueles dias, com os frutos já alaranjados. A chuva havia deixado tudo diferente. As folhas verde-escuras pareciam ainda mais vivas, e as gotas permaneciam suspensas em suas pontas, como pequenas pedras preciosas.
Mas, foram os frutos que prenderam meu olhar. Algum tempo antes, havia apenas as miúdas flores brancas. Os meses passaram e, num processo silencioso, a flor deu lugar ao pequeno fruto verde, que, aos poucos, cresceu e mudou de cor até chegar àquele laranja intenso. Aquilo que antes estava escondido entre as folhas passou a se destacar. Aquela bela cor alaranjada dos limões mostrava que eles haviam chegado a outro estágio. O amadurecimento acontecia naturalmente.
E pensei em quantas coisas em nossas vidas acontecem de forma semelhante. Muitas vezes, passamos anos sendo preparados para algo que ainda não conseguimos enxergar. Vivemos experiências que, naquele momento em que acontecem, parecem desconectadas umas das outras. Somente muito tempo depois percebemos que algumas delas estavam construindo algo significativo dentro de nós.
Assim como aquele limoeiro não poderia explicar o processo pelo qual seu fruto amadurece, muitas vezes também não conseguimos perceber, enquanto vivemos, aquilo que o tempo está amadurecendo em nós. Quantas vezes ansiamos por respostas enquanto ainda estamos no meio do processo?
Como se quiséssemos entender a árvore quando ainda somos apenas sementes?
Meu gatinho idoso chegou pedindo colo e se acomodou confortavelmente, como sempre fazia, transformando-se em uma macia bolinha branca.
Foi nesse instante que, de um ponto alto da árvore, um limão se desprendeu.
Eu o vi cair.
Por alguma razão, aquele movimento pareceu acontecer em câmera lenta. Por um instante, o limão pareceu suspenso entre a árvore e o chão. Depois continuou sua trajetória.
O fruto havia deixado o galho.
Escute nosso podcast!

Il. Quando Soltar é Preciso.
E então pensei: quantas vezes aquilo que chamamos de queda ou perda é, na verdade, apenas o desprendimento de algo que cumpriu seu tempo para que possamos continuar? Aquele limão havia chegado ao momento de se desprender. Soltar-se era necessário.
Há momentos, porém, em nossas vidas, em que não queremos nos desprender. Insistimos em permanecer onde estamos, agarrados ao que conhecemos, sem perceber que algo pode ter sido importante, necessário e bonito e, ainda assim, ter chegado ao fim.
É muito comum termos medo de soltar e, por isso, permanecermos presos. No entanto, quantas vezes travamos a própria vida por causa desse medo? Escolhemos permanecer ligados àquilo que conhecemos, mesmo quando a vida já nos mostra que chegou a hora de mudar, deixar ir, abrir novos caminhos e seguir seu fluxo.
O fruto não negocia com o tempo. Quando chega a sua hora, ele simplesmente se desprende.
Foi então que me lembrei novamente do meu amigo, dizendo que precisava encontrar um equilíbrio.
Falamos pouco; fiquei mais a ouvir. Diante de certas dores, as palavras parecem pequenas demais.
O que se poderia dizer diante da espera por um diagnóstico?
Há situações na vida em que fazemos tudo o que podemos: buscamos ajuda e respostas, tentamos compreender, rezamos. Mas chega uma hora em que precisamos reconhecer nossos limites e aceitar que algumas coisas só podem acontecer no seu próprio tempo.
E, quando já não há mais nada a fazer, resta-nos a difícil tarefa de esperar.
Lembrei-me de ter perguntado:
- “E como tem sido pra você viver tudo isso?”
Ele respirou bem fundo e, com o olhar meio perdido, respondeu:
- “Nem sei direito. Acho que estou tentando aceitar, porque está fora do meu controle. Mas é muito difícil. A gente quer uma resposta, quer saber o que vai acontecer e, lógico, quer poder fazer alguma coisa. No fim, só me resta confiar e continuar, mesmo sem ter as respostas, mesmo sentindo medo.”
Pode ser por isso que soltar seja tão difícil. Enquanto permanecemos agarrados, ainda temos a sensação de que temos algum controle, de que podemos fazer alguma coisa. No entanto, abrir mão do controle não significa desistir daquilo que desejamos, abandonar, deixar de amar ou deixar de esperar. Pode significar apenas reconhecer que existem coisas que, por mais que desejemos e façamos tudo o que está ao nosso alcance, não podemos controlar.
E há algo curioso nesse movimento de soltar. Você já viveu aquela experiência de desejar muito alguma coisa e, por mais que tentasse, aquilo nunca acontecesse? Até que, em algum momento, cansou de insistir, soltou, deixou de tentar controlar o resultado... e, quando menos esperava, aquilo simplesmente aconteceu?
O que, afinal, estava nos prendendo? A necessidade de controlar? A ansiedade ou o medo de não conseguir? A dificuldade de confiar no tempo das coisas? Ou, quem sabe, a sensação de que não merecíamos aquilo que tanto desejávamos?
Talvez não seja nenhuma dessas respostas isoladamente. Talvez exista, no verdadeiro ato de soltar, algo que ainda não conseguimos compreender completamente. Cada desprendimento tem a sua própria natureza. Há coisas que precisamos aprender a deixar para trás: às vezes, uma expectativa, uma dor, um passado, uma pessoa... algo que chegou ao fim ou que já não podemos mudar.
A dificuldade de soltar talvez esteja também no fato de não percebermos tudo o que acontece antes de estarmos prontos para isso. Assim como o fruto não amadurece no instante em que surge, nós também precisamos de um tempo para amadurecer antes de conseguirmos nos desprender.
E você? Existe alguma coisa em sua vida que, neste momento, ainda não consegue soltar?

lII. No Tempo das Coisas.
Assim como precisamos da escola da vida para nos tornarmos quem somos, aquele fruto também precisou de muito mais do que podemos ver para chegar até ali. Precisou da terra, da água, da luz e do tempo. Precisou de forças que estavam além do seu controle. Afinal, nenhum fruto produz sozinho tudo aquilo de que necessita para crescer e amadurecer.
Fiquei pensando no quanto também nós chegamos até aqui amparados por tantas coisas que não escolhemos e nem sempre conseguimos perceber: pessoas que cruzaram nosso caminho, mãos que nos sustentaram, palavras que chegaram no momento certo, oportunidades que não esperávamos e até livramentos cujo significado só conseguimos compreender muitos anos depois.
Já pensou em quantas coisas aconteceram sem que tivéssemos qualquer controle sobre elas?
Quantas vezes fomos conduzidos por caminhos que só mais tarde fizeram sentido?
Existe um estranho paradoxo em nossas vidas: quanto mais aprendemos sobre o mundo, mais tendemos a acreditar que tudo depende apenas de nós. E, nessa tentativa de conduzir a própria vida, talvez nos
esqueçamos de olhar para além de nós mesmos. Há coisas que não estão sob nosso controle, e reconhecer isso também pode ser uma forma de amadurecer.
Não estaria também no amadurecimento a capacidade de aceitar que, embora tenhamos feito a nossa parte, nunca caminhamos sozinhos? Que existe, por trás de tudo aquilo que nos sustenta e nos conduz, uma presença maior, mesmo quando não conseguimos percebê-la e ainda não somos capazes de compreender o caminho?
Naquela tarde, a chuva ainda insistia, suave. Meus olhos encontraram novamente aquele limão no chão. A árvore permanecia de pé, toda molhada, mas imponente, carregada de frutos alaranjados, muitos deles ainda precisando amadurecer.
Aquele, porém, já havia chegado ao seu tempo.
Foi então que comecei a enxergar naquela árvore um pouco de nossa própria história. Um dia fomos uma pequena semente escondida debaixo da terra, sem saber que nos tornaríamos árvore. A árvore cresceu, floresceu e, quando chegou o momento, deu frutos. E o fruto, por sua vez, amadureceu sem saber quando chegaria a hora de se desprender.
E, quanto mais olhava para ela, mais reconhecia naquele ciclo algo de nossas vidas. Temos raízes profundas e invisíveis, formadas por tudo aquilo que nos sustenta e nos trouxe até aqui. Há os galhos que se abrem em diferentes direções, como os encontros e relacionamentos que vão compondo nossa trajetória. Há folhas que nascem, caem e tornam a nascer, como tantas de nossas escolhas. Há flores que anunciam aquilo que ainda está por vir, nossos sonhos. E há frutos, frutos de tudo o que fomos vivendo e construindo ao longo da vida: alguns ainda verdes, outros amadurecendo, outros já pedindo uma mudança.
Quantos pensamentos me trouxe aquele limão caindo!
Ele não sabia o que existia depois da queda, nem onde iria parar. Apenas havia chegado o momento de deixar o galho. Talvez já tivesse recebido da árvore tudo aquilo de que precisava para amadurecer.
Foi então que meu amigo voltou aos meus pensamentos. Pensei nele voltando para casa, carregando consigo a espera pelo diagnóstico da esposa, a angústia de não saber o que viria depois e aquela necessidade tão humana de encontrar algum equilíbrio em meio àquilo que não podia controlar.
A parte mais difícil era justamente essa: depois de fazer tudo o que estava ao seu alcance, não havia mais o que fazer senão esperar. Tentamos permanecer firmes enquanto a vida faz seus movimentos e nos pede algo que ninguém escolhe: confiar sem saber.
Olhei para o limoeiro. Ele não parecia ter pressa. Vivia um dia de cada vez, uma estação de cada vez. Crescia, florescia, amadurecia. E, quando chegava o seu tempo, entregava seus frutos.
Quem sabe a confiança também seja um pouco assim, tenha também o seu tempo. Talvez amadureça em nós enquanto aprendemos a continuar sem conhecer todo o caminho, a seguir mesmo sem todas as respostas. Talvez seja suficiente confiar o bastante para dar o próximo passo.
Lembrei-me então de uma mensagem de uma amiga querida: “Como aquilo que hoje parece apenas mais um passo pode, no futuro, revelar-se exatamente o passo que encerrou uma história inteira de sofrimento. As grandes libertações raramente acontecem em um único instante; costumam ser construídas na fidelidade de muitos pequenos passos.”
Pensei em nós.
Por que sentimos tanta necessidade de saber onde estamos, quanto ainda falta ou o que virá depois?
Seria porque ainda não aprendemos a confiar no tempo das coisas?
Há coisas que precisam permanecer.
Outras precisam amadurecer.
E algumas, quando chega a hora, precisam simplesmente se desprender.
E se nem toda queda fosse o fim de um caminho?
E se, às vezes, fosse apenas o desprendimento necessário para chegarmos a lugares onde jamais chegaríamos se permanecêssemos presos ao mesmo galho?
Escute nosso podcast!
Veja Também: Crônica #147 | Visão da Vida.
Time Crônicas
Comunicado neonews
Queridos leitores, informamos que os comentários ainda estão offline, devido ao fato de a ferramenta utilizada ser terceirizada e estar passando por atualizações, para melhor atendê-los.
Esta é uma obra editada sob aspectos do cotidiano, retratando questões comuns do nosso dia a dia. A crônica não tem como objetivo trazer verdades absolutas, e sim reflexões para nossas questões humanas.







