Crítica | Cairn - Escalar também é sentir o peso de estar vivo
- Redação neonews

- há 11 horas
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Entre silêncio, fôlego e persistência, o jogo Cairn transforma cada subida em um confronto íntimo consigo mesmo

(Foto: Divulgação)
Entreter é uma das funções mais óbvias dos videogames, mas Cairn surge para lembrar que jogar também pode ser um exercício de introspecção. Desenvolvido pela The Game Bakers, o estúdio francês por trás de Furi, o jogo se afasta da adrenalina pura para apostar em uma experiência contemplativa, exigente e, acima de tudo, humana. Logo nos primeiros minutos, fica claro que não se trata apenas de chegar ao topo, mas de entender o custo emocional de cada passo. Um bom ponto para inserir uma imagem aqui seria a primeira grande vista da montanha, reforçando a sensação de isolamento e grandiosidade.

(Foto: Divulgação)
A narrativa acompanha Aava, uma escaladora profissional que decide enfrentar o Monte Kami, um desafio considerado impossível dentro do universo do jogo. A protagonista é introspectiva, solitária e carregada de um humor irônico sutil, que aparece em pequenos comentários e momentos de respiro. Cairn não se preocupa em explicar demais quem ela é ou de onde vem, e essa escolha narrativa funciona. Aava se revela na forma como respira, hesita, insiste e cai. É uma história contada mais pelo corpo do que pelas palavras.
A jogabilidade é o coração pulsante da experiência. Controlar braços e pernas de forma independente, buscando fissuras quase invisíveis nas rochas, transforma cada escalada em um verdadeiro quebra-cabeça físico. Não existe um único caminho correto. O jogador decide sua rota, avalia riscos e aprende, muitas vezes da forma mais cruel, que algumas paredes lisas demais cobram um preço alto. O uso do mapa, quando disponível, adiciona uma camada estratégica essencial e poderia render um vídeo curto demonstrando diferentes rotas possíveis para a mesma montanha.
Um dos aspectos mais brilhantes de Cairn é a ausência de uma barra tradicional de estamina. O cansaço de Aava é comunicado pela respiração, pelo tremor dos movimentos e pelo som ambiente. Esse detalhe ganha força graças ao trabalho impecável de som, com colaboração de Lukas Julian Lentz e Martin Stig Andersen. O contraste entre o silêncio quase absoluto da montanha e a respiração ofegante da personagem cria uma tensão constante. Em muitos momentos, o som é mais angustiante do que qualquer trilha musical, e aqui caberia perfeitamente um vídeo destacando apenas o design sonoro do jogo.
As quedas são parte inevitável da jornada e carregam um peso psicológico enorme. Os pitões, transportados pelo simpático Climbot, funcionam como âncoras de segurança, permitindo erros e recuperando o fôlego, mas sem eliminar o medo. Cairn não pune de forma imediata toda falha, mas exige atenção aos seus sistemas de sobrevivência. Fome, sede e temperatura formam um trio de ameaças silenciosas. Comer se torna prioridade absoluta, enquanto água e calor oferecem momentos de alívio. Esses sistemas reforçam a sensação de vulnerabilidade constante e poderiam ser ilustrados com uma imagem do acampamento improvisado após uma escalada exaustiva.

(Foto: Divulgação)
Além do desafio físico, Cairn se destaca pelo seu caráter contemplativo. Em certos momentos, a experiência lembra Death Stranding, mas sem longas travessias ou ameaças sobrenaturais. O jogo convida o jogador a parar, observar e simplesmente existir naquele espaço. Visualmente, o impacto não vem de realismo gráfico, mas da arte de Mathieu Bablet, que combina um estilo cartunesco com paisagens de tirar o fôlego. A recompensa por insistir quase sempre é uma vista silenciosa e bela, daquelas que fazem valer cada tentativa frustrada.
Tecnicamente, Cairn se comporta bem no PlayStation 5, embora não esteja livre de problemas. Alguns bugs ocasionais, como Aava ficando presa nas rochas, quebram a imersão e podem gerar frustrações desnecessárias. Ainda assim, a presença de legendas em português brasileiro e três níveis de dificuldade, incluindo um modo extremo com morte permanente, mostram um cuidado em acolher diferentes perfis de jogadores. No fim, Cairn é uma experiência difícil, sensível e paciente. Um jogo que não pede pressa, mas respeito ao ritmo da própria montanha.
Opinião pessoal: "Com essa nota, Cairn ficou comigo mesmo depois de desligar o console. Não é um jogo para todo mundo, mas é exatamente esse o ponto. Ele exige calma, atenção e entrega emocional. Para quem aceita o desafio, a recompensa não está apenas no topo da montanha, mas na sensação rara de ter vencido a si mesmo."
Você prefere jogos que desafiam sua habilidade ou aqueles que desafiam sua paciência e estado emocional?
Ficha Técnica
Nome: Cairn
Tipo: Jogo
Onde jogar: PlayStation 5 e PC
Categoria: Aventura
Nota 4/5


