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Crônica | O silêncio da alma




Por uma razão familiar a vida me levou novamente à Linz, uma pequena cidade do interior da Áustria, que fica às margens do rio Danúbio. A cidade conserva bairros antigos e modernos. Lá, tivemos oportunidade de conhecer muitos pontos turísticos, mas uma catedral me chamou a atenção: a Catedral Ursulinenkirche.


Empurramos uma porta de madeira alta e pesadíssima... fiquei maravilhado com a riqueza dos detalhes entalhados nas madeiras, vitrais coloridos representando a vida de Cristo e da esplêndida arquitetura do século XVII.


Por alguns instantes, fechei os olhos e senti uma forte emoção por estar naquele local. Ficamos muito tempo caminhando por entre os espaços dos salões.


Não era domingo, e eu imaginava uma maravilhosa cerimônia de missa com fundo musical sacra de Bach. A catedral parecia estar adormecida diante do silêncio. Observo apenas algumas senhoras cuidando dos vasos, altares, bancos de madeira maciça. Entre um visitante e outro, um grupo de turistas atentos aprecia e ouve as explicações detalhadas que o guia, respeitosamente, fala em tom baixo.



No centro, fica o púlpito num nível um pouco mais elevado, rodeado por alguns degraus. Noto que uma senhora está ajoelhada. Estava coberta com um fino e bonito véu de renda. À sua frente um livro, talvez uma Bíblia, e com as mãos unidas mantinha seu olhar para o crucifixo. Depois de alguns instantes faz o sinal da cruz, se retira e se acomoda em um dos enormes bancos de madeira maciça. Cabisbaixa, com o livro aberto, agora seu olhar não se atenta nem para o que passa ao seu redor, totalmente absorta em seus pensamentos.


Fiquei sentado de frente para aquela senhora, do lado oposto. A vontade de conversar com ela era grande, porém a barreira da língua impediu de me aproximar.


Os meus pensamentos levitam naquele ambiente.


Orações, preces e fé. Uma composição de forças que vem perdendo gradativamente o seu significado com uma invasão de comportamentos modernos.


Hábito de agradecimento antes das refeições é coisa antiga. Orar antes de dormir é só para criancinhas. Lembrar de uma missa, somente a do Galo. Comemorar o nascimento de Jesus é esperar presentes de quem dá o melhor. Conversar com Deus é apenas quando está desesperado. Lembrar dos santos somente quando é festa. Missa é celebrada via internet. Dízimo por PIX. Benção via live.


E o conteúdo da fé fica mais vazio quando achamos que todo dia é rotina.


Que o raiar do sol é obrigação da natureza.


Que só existe tristeza.


Uma pequena prece revitaliza a alma, traz a conexão forte com o Universo. Uma oração sincera vinda do coração eleva a vibração, sutiliza nosso ser. Faz acontecer o desejo em realidade. Uma prece verdadeira é irradiante e confecciona sonhos lindos. Revitaliza a ligação com os seres humanos. Traz surpresas que antes eram inimagináveis. Mesmo que tenha esquecido como é uma oração, não se preocupe. Nosso Criador lê perfeitamente o pensamento. Basta se entregar ao infinito mundo abstrato deixando-o despertar.


Confie.



Porém, como sempre estamos ocupados com o trabalho, com a diversão , com jogos e redes sociais; qualquer dia desses a seguinte mensagem do Grande Criador estará gravada na nossa caixa postal:



“Pára de ficar rezando e batendo no peito.

O que eu quero que faças é que saias pelo mundo, desfrutes de tua vida.

Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.

Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nas praias.

Aí é onde eu vivo e expresso o meu amor por ti.

Pára de me culpar pela tua vida miserável; eu nunca te disse que eras um pecador.

Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo.

Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar dos teus amigos, nos olhos de teu filhinho... não me encontrarás em nenhum livro...

Pára de ter medo de mim.

Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem me incomodo, nem te castigo.

Eu sou puro amor.

Respeita o teu próximo e não faças aos outros o que não queiras para ti.

A única coisa que te peço é que prestes atenção à tua vida; que teu estado de alerta seja o teu guia.

Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.

Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho de mar.

Pára de louvar-me de maneira errada! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja?

Tu te sentes grato?

Demonstra-o cuidando de ti, da tua saúde, das tuas relações, do mundo.

Expressa tua alegria!

Esse é o jeito de me louvar.

Não me procures fora! Não me acharás.

Procura-me dentro... aí é que estou, dentro de ti."*


Viva a realidade, não a falsidade. Transcenda a causalidade, e vá em busca da liberdade harmoniosa da Vida.


*Transcrição de alguns trechos do texto “Deus Falando com você”

Filósofo holandês Baruch Spinoza