Quando os games inspiram a vida real | O journaling de The Last of Us e Red Dead Redemption 2

Muito além de um diário comum, o journaling ajuda a organizar pensamentos, processar emoções e ganhou força entre jogadores por causa de personagens como Ellie e Arthur Morgan

(Foto: Divulgação)
Quem já explorou os mundos de The Last of Us, Red Dead Redemption 2 ou Life is Strange provavelmente já parou alguns minutos apenas para folhear o diário de um personagem. Nessas páginas estão rabiscos, desenhos, reflexões e acontecimentos que ajudam a contar uma história muito além das cutscenes.
O que muita gente talvez não saiba é que esse recurso narrativo existe também fora dos games e tem nome: journaling. A prática, que consiste em registrar pensamentos, emoções e experiências, vem ganhando espaço como uma ferramenta de organização pessoal e autoconhecimento, sem exigir regras rígidas ou textos elaborados.
Segundo especialistas citados pelo Estadão, a ideia não é criar um diário perfeito, mas encontrar um espaço para colocar no papel aquilo que ocupa a mente.

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O que é journaling?
Diferente da imagem tradicional de um diário cheio de relatos cronológicos, o journaling funciona como um registro livre. Vale escrever uma página inteira, três linhas antes de dormir, fazer desenhos ou simplesmente listar pensamentos que surgiram durante o dia.
O objetivo costuma ir além de responder "o que aconteceu hoje". A prática também abre espaço para refletir sobre como determinado acontecimento afetou quem escreve, permitindo observar emoções, preocupações e até objetivos futuros.
Esse formato flexível explica por que não existe um jeito certo de começar: o importante é encontrar uma forma de registro que faça sentido para cada pessoa.
O que os games têm a ver com isso?
Nos videogames, os diários costumam revelar lados dos personagens que dificilmente apareceriam apenas durante a ação.
O caderno de Arthur Morgan, em Red Dead Redemption 2, mistura desenhos e reflexões que mostram uma versão muito mais sensível do protagonista. Em The Last of Us Part II, Ellie usa o diário para registrar sentimentos, medos e acontecimentos marcantes da jornada. Já Max Caulfield, de Life is Strange, transforma suas anotações em uma combinação de escrita, ilustrações e fotografias.

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Em outros títulos, como The Witcher 3, Baldur's Gate 3 e Elden Ring, os journals também funcionam como registros de progresso, ajudando o jogador a acompanhar missões, personagens e acontecimentos importantes depois de horas longe da aventura.
Essa liberdade criativa é justamente uma das características que muitos levam para a prática na vida real.
Como a escrita pode ajudar
A psicóloga Lisa Guerra, que relacionou o tema aos videogames em um vídeo sobre psicologia e cultura pop, explica que escrever pode ajudar a criar distância em relação aos próprios pensamentos.
Em vez de deixar preocupações circulando apenas na mente, colocá-las no papel permite enxergá-las de outro ângulo. Isso não significa encontrar uma solução imediata para todos os problemas, mas organizar aquilo que antes parecia confuso.
Pesquisas e materiais educacionais citados pelo Estadão também apontam possíveis benefícios associados à prática, como:
organizar pensamentos;
processar emoções;
acompanhar objetivos pessoais;
reconhecer padrões de comportamento;
lidar melhor com situações estressantes.
Os especialistas reforçam, porém, que o journaling não substitui acompanhamento psicológico quando ele é necessário. Ele pode funcionar como uma ferramenta complementar de reflexão.
Como começar sem complicação
Um dos maiores erros de quem tenta começar costuma ser transformar o journaling em mais uma obrigação da rotina.
A recomendação é começar pequeno. Três ou cinco minutos já são suficientes para criar o hábito, sem a pressão de escrever páginas inteiras todos os dias.
Também não é preciso comprar um caderno específico. Vale usar:
bloco de notas do celular;
Google Docs;
Notion;
aplicativos dedicados, como Day One ou Diarium;
um caderno comum.
O mais importante é escolher um formato que seja fácil de acessar.
Quando faltar inspiração
Nem sempre é simples saber o que escrever. Algumas perguntas podem servir como ponto de partida:
O que está ocupando minha cabeça hoje?
O que mais me marcou neste dia?
O que aprendi?
Como estou me sentindo agora?
No que quero focar amanhã?
A ideia não é responder todas elas, mas usar uma delas para iniciar a escrita quando a página em branco parecer intimidadora.

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Não existe um jeito certo
Talvez seja justamente aí que o journaling encontre sua maior semelhança com os diários dos videogames.
Assim como Arthur Morgan desenha paisagens, Ellie registra emoções e Max mistura texto com imagens, cada pessoa pode construir um diário com a própria personalidade. O registro pode ser minimalista, artístico, caótico ou organizado, desde que cumpra sua principal função: tirar os pensamentos da cabeça e transformá-los em algo que possa ser revisitado depois.
No fim das contas, o journaling funciona menos como uma regra e mais como um espaço pessoal. Afinal, assim como acontece nas melhores aventuras dos games, às vezes basta registrar a própria jornada para enxergar melhor o caminho percorrido.


