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Crônica #63 | Amigo, estou aqui!

Amizade: nobreza de almas



Pedimos nesse momento um rompimento do “achismo, dogmas e conceitos”, impostos pela sociedade. Procure estar num local calmo, preferencialmente isolado. Coloque fones de ouvido e escolha um fundo musical. Fique e se mantenha no sentir. De forma serena, respire profundamente pelo menos três vezes, desligue o amanhã. Com calma, pausadamente, deslize seu olhar em cada palavra. Não se preocupe se algo não tiver sentido e nem interrompa. Deixe seu pensamento navegar, flutuar. Como numa meditação, desacelere, busque entrar em um estado mental mais relaxado; traga para si a sua existência e a sua presença para este momento, pois o tema que vamos tocar é próximo ao Divino: Amizade.


Um tema lindo e ao mesmo tempo complexo no seu conteúdo. Cada palavra ou cada sentença que vem parece não completar, e a impressão que causa é que é indefinível. Tão vasto no seu verdadeiro sentido que é mencionado pelos grandes filósofos, e que sua constituição não se resume em teorias e sim na existência.


Da falsa à verdadeira amizade passam-se turbilhões de colocações, e com isso temos a tendência de perder o verdadeiro sentido que essa palavra expressa. É bem verdade que os pensadores, mestres espirituais nos direcionaram para uma compreensão, entretanto a melhor escola, o melhor laboratório para os sentimentos é a vivência e a observação do dia a dia. As minhas referências diferem das suas e vice-versa, e sem exceção, temos nossas razões nas nossas colocações e conclusões.


Eu e minha esposa, temos uma história em comum que nos traz imensa alegria. Na nossa juventude, lá pela década de 80, tivemos o privilégio de um intercâmbio com bolsa de estudos no Japão. A vida nos presenteou com ricas convivências, pessoas extraordinárias que compartilharam conosco o melhor de cada uma delas, o que nos proporcionou criar fortes laços de amizade. Seria covardia citar apenas alguns nomes, mas nesse caso vamos ilustrar com um dos casais que lá conhecemos. Ele era funcionário do Palácio do Governo, e trabalhava num dos departamentos responsáveis por nossas estadias, naquela província. Então, nos encontrávamos sempre. Tínhamos praticamente a mesma idade do casal. Foi aquela amizade gostosa, pura, que foi crescendo conforme nossa convivência. Éramos praticamente crianças nas alegrias, sem máscaras, numa troca autêntica de sentimentos e emoções. Depois de um ano, terminado o período da bolsa de estudos, voltamos para cá e as saudades se tornaram eternas. Após um tempo, eles casaram e vieram em lua de mel para o Brasil. Maravilhoso reencontro onde pudemos reviver toda nossa amizade. Foi mágico!! E mais mágico ainda foi em 2018, após exatos 36 anos desde nossos primeiros momentos; quando em viagem de férias voltamos ao Japão, agora com nossas preciosas filhas e genro. Pudemos sentir o que não imaginávamos: toda aquela amizade absolutamente de volta.


Era como se o tempo não tivesse existido, era como se tivéssemos voltado naquela exata época. A forma como nos tratávamos, o carinho, as brincadeiras, tudo igual, parecendo potencializado pela alegria do reencontro. Que benção!!

Que sentimento mágico se apossou de nós quatro, invadindo e saindo por todos os poros, numa inundação plena de felicidade. Absolutamente inexplicável ao nosso racional.

Somente o sentir, nos oferecia a constatação daquele bem querer gigante. Creio que tivemos o privilégio, de vivenciar o sentimento nobre de uma amizade abençoada, que nem mesmo a distância física conseguiu diluir.



Perdeu a crônica mais recente do Otavio? Leia o texto na íntegra clicando aqui: Crônica Pílula #1 | Você é dono da sua vida?




O verdadeiro amigo é constituído por proximidade de alma e não por proximidade física.


Vivemos atualmente num mundo inundado de infinitas informações, porém, cheias de muitas incertezas. Valores humanos e morais um tanto distorcidos, afetando todas as áreas do nosso viver, e em se tratando de relacionamento humano, as questões também não estão nada fáceis. E com isso a arte de viver, na sua pureza, na sua essência, acaba por ser deixada de lado.


Hoje, já quase não temos tanta paciência, intolerância então está próximo do zero, tudo sendo exigido de forma rápida. Ninguém mais tem tempo para nada, muita vida virtual, tudo orbitando nos pensamentos e desejos ilusórios. Não há tempo para o semear, o germinar e o florescer, então não se encontra terreno fértil para o cultivar e criar laços de amizade.


“Amizade pela metade não pode ser considerada amizade, é mais uma conveniência”, diz o filósofo Sêneca.


O egocentrismo que prevalece atualmente, vem gerando uma desumanização generalizada. A ausência dos verdadeiros valores faz crescer cada vez mais o egoísmo, e o homem egoísta não consegue despertar os verdadeiros sentimentos. Tudo gravita à sua volta, em torno dos seus próprios interesses. Assim sendo, não consegue sentir o outro, se torna solitário; o outro existe apenas para ser usado e manipulado pelos seus desejos egoístas. Sua vida acontece dentro de uma bolha, onde não há espaço para compartilhar, apenas receber.


Onde se encontra a possibilidade de se estabelecer relações profundas, dessa forma?

Quanto mais egoísta, mais brutalizado se torna, vive no instinto, na vaidade, na procura da realização de seus muitos ilusórios caprichos.


O amigo, porém, vem em sentido contrário a esse egocentrismo todo. Ele vem nos oferecendo a oportunidade de nos humanizar, de descobrir e perceber o outro. Nós nos encontramos e crescemos através uns dos outros. Ele é a resposta não aos nossos desejos, mas às nossas necessidades, de humanização, diminuindo o egoísmo e trazendo talvez a principal delas, que é a prática da fraternidade.


Não seremos verdadeiramente felizes olhando somente para nós mesmos, para os nossos próprios interesses. Jamais se conseguirá estabelecer relações profundas, sem a necessidade do bem presente em nossas vidas.


Existe uma primeira, primordial e essencial entre todas as amizades: que é a amizade da nossa existência com a nossa essência. A nossa essência, reconsidera a própria máscara personalista com a própria identidade. Num avanço constante dos atritos existenciais, ao reconhecer-se ou tornar-se um amigo da sua própria existência, pode-se considerar um privilegiado e um pouco mais iluminado. Assim sendo, o seu mundo expande, deixando-o melhor.



Confira também esta crônica postada no nosso site: Crônica #62 | Esperança




Haverá o encontro conosco mesmo, profundamente, e através desse encontro seremos capazes de também sermos profundos em relação aos outros, é onde se estabelecerá os laços numa mesma profundidade de proporção.

Neste estado de comprometimento consigo e com os demais, não haverá mais carências e sim um transbordar de vontade de compartilhamento, de tudo que vivenciar. E esse compartilhar poderá naturalmente ser com um amigo, uma amizade estabelecida por abundância e não por carência.

Quando estamos íntegros não procuramos um amigo para servir de escora e sim compartilhar, e na reciprocidade recebemos com honra seus conhecimentos.


A nobreza de uma verdadeira amizade é um dos pilares que nos oferece um sentido de vida, dando sabor, cor, alegria, coragem ao longo de nossa caminhada.


A vida é feita de escolhas, e se usarmos a sabedoria e integridade o caminho é claro, assim também é escolher alguém como amigo. Para a escolha de um amigo é preciso ter prudência. Prudência e honestidade. Sem esses dois pontos, uma entrega às cegas pode ser usada e manipulada por aquilo que cedemos com boa vontade. O amigo será uma pessoa com quem vamos dividir a vida tal qual ela é, na sua forma íntegra, isso exigirá confiança e responsabilidade.


É ele que poderá ajudar na sobrevivência dos piores momentos existenciais, bem como elevar num patamar maior do próprio bem-estar. Essa relação será sempre recíproca, não criando um vínculo de dependência; haverá o dar o melhor de si para que juntos possam crescer. Despontarão brio, caráter e identidade, dentro dos princípios humanos. A entrega dentro de uma verdadeira amizade, não deixa que exista o temor e nem a desconfiança, a integridade não será corrompida. Na integração, a lei da separatividade é anulada. Se assim não for, será apenas um relacionamento por conveniência.


Se uma amizade normal entre pessoas do mesmo sexo já está escassa, o que podemos dizer então, de uma amizade verdadeira entre os sexos opostos?


É possível uma amizade sincera entre homens e mulheres? É um tabu?


Há quem afirme, categoricamente que não, não existe nenhuma possibilidade.

Neste assunto não existe unanimidade.

Porém, sabemos que toda regra tem sempre sua exceção; podemos adotar aqui essa opção.