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Crônica #49 | Síndrome de Frankenstein

Atualizado: 19 de fev.

Sobrevivendo nas múltiplas máscaras



Estava na companhia aconchegante dos meus gatos, num desses dias em que a chuva persistiu por muitos e muitos dias, deixando nosso céu cinzento por um bem prolongado tempo. Num misto de cenário sem muita luz solar, pensamentos mais densos e profundos fui arremessado a uns títulos de romances clássicos. Conde Drácula, Fantasma da Ópera, O Corcunda de Notre Dame, e vindo também Frankenstein, do romance de Mary W. Shelley (1797). Esse romance foi escrito por volta dos seus dezoito anos de idade, com o subtítulo de O Moderno Prometeu. Creio que a maioria deve conhecer sua história. Resumidamente, conta a criação de um monstro, pelo Dr. Victor, com partes de cadáveres humanos e dando vida a ele com eletricidade. Nessa época a eletricidade era ainda desconhecida, ele usou a força de um raio.


O Dr. Victor criou um monstro, como muitos pensam e viram, ou ele próprio seria um monstro por assumir o papel do nosso Criador, criando um ser que foi tão infeliz?! Ou por acreditar que somos apenas um amontoado de órgãos, fazendo da vida uma simples materialidade?





Se pensarmos em como somos criadores o tempo todo e em como estamos dando forma às nossas criações ou criaturas, seria de uma reflexão muito profunda. Sejam essas criações na vida física, de uma maneira mais real e palpável ou usando um tipo de transumanismo através das tecnologias e mais precisamente através das redes sociais, na internet. Digo redes sociais porque hoje são encaradas como um fato tão corriqueiro e de teor real, que muitos já perderam a noção da sua ilusória face perante o que tornou sua vida.


Pensando na criatura e no criador, metaforicamente, como internet e usuário de rede social, respectivamente. Nessa analogia o meu pensamento levitou para o insólito e as imagens vieram como um filme preto e branco transformado em cores vivas.


Vejamos.


Temos tantas coisas sendo criadas no mundo virtual que quase não acreditamos com as diversidades sendo expostas, isso a todo segundo. É um bombardeio gigantesco, afetando o dia a dia das pessoas de diferentes formas. Não só nossas vidas, mas o mundo está dominado pelos conteúdos expostos na internet. As exposições são tão abundantes, definindo e ditando tudo como um ideal de vida e objetivos a serem conquistados. Os chamados são muitos e as ofertas existem para todos os tipos de preferências. Cada qual escolhendo dentro do que permite o seu nível de maturidade.


Para serem inseridas ou aceitas na sociedade e agora muito mais no mundo virtual, as pessoas vestem-se com máscaras em todos os aspectos, seja a máscara social, seja a máscara da dor, seja uma máscara de preconceito e por aí vai tantas outras.



Perdeu a crônica de semana passada? Leia o texto na íntegra clicando aqui: Crônica | Download do vício

Pensando no que se refere de fato se esconder por detrás de uma máscara, existe o conceito de hipocrisia. Hipocrisia não como o conceito que usualmente conhecemos, da base cristã; mas numa base mais filosófica onde teremos na etimologia o significado como uma ação de desempenhar um papel, um teatro, pantomima, declamação.... Falsa aparência, máscara do ator.


A virtualidade proporciona muito mais o uso de máscaras.


Então nesse momento, ainda dentro de um afastamento social, onde o contato olho no olho não é tão possível; a vida virtual prevalece trazendo a possibilidade de mostrar a todos suas variadas faces. O seu negócio ou a sua vida pessoal, ou muitas causas importantes que engrandecem em atitudes a transformação desse mundo para um mundo bem melhor. Existem causas e mais causas, estudos, pesquisas, ciência, física, física quântica, entretenimento, viagens, espiritualidade, exoconsciência, consciência, meditações, e também muitos conteúdos de fake news, tragédias, enfim... impossível de se listar aqui pela extensa e infindável quantidade de assuntos. Dentro dessa imensa e vasta série de ofertas, cada um vai se identificando e seguindo os temas que mais lhe convém. Sem a internet não se conseguiria o alcance que hoje sabemos existir.


Então não se é de estranhar que os jovens são os mais atingidos ou favorecidos. Como já nasceram com todos esses emaranhados envolvendo suas vidas, não conseguem mais viver fora das redes, isso se tornou algo imerso, na qual a internet é o ar que necessita os seus pulmões e todo seu complexo corpo. Nas redes pode-se projetar todos os seus desejos, sejam eles pequenos ou grandes, simples ou complexos, modestos ou estranhos, mentiras ou verdades, sempre haverá um público que o aplaudirá com palminhas e coraçõezinhos; os emojis hoje dispensam comentários elaborados, simplificando a linguagem através de imagens. Os semelhantes se atraem resultando em somatória e às vezes os opostos também, pela lei da física, oferecendo uma neutralidade ou oportunidade com algum tipo de propósito.





A diminuição dos contatos físicos faz com que as amizades sejam superficiais, talvez hoje, já não se tenha mais amigos e sim seguidores ou simplesmente contatos. São tão superficiais que eles podem num simples toque, sem nenhum argumento, serem deletados ou bloqueados. Essa comunicação indireta faz do seu usuário o senhor controle total... será?!! Será que é possível manter todos sob total controle?


Seria de muito valor o preço a se pagar por essa dita considerada fama, dentro da virtualidade?

Uma fama baseada no número que se tem de seguidores, conseguidos de forma orgânica ou simplesmente comprados, pois tudo vale para mostrar e impressionar. Tudo se faz para receber likes, para ter os views e através de tudo desejar uma monetização. Então, a rede é também um grande local de negócios. O grande desejo na internet é sair do anonimato, buscando de todas as formas uma maior visibilidade.


Assume-se um papel de controle e liderança, onde se dita moda, estilos de vida, dicas de consumo e até condutas perante a vida... influencer ou influenciador, esse é o nome.


Existem muitos tipos de influencers nas redes, com tipos variados de conteúdos. Os mais famosos têm milhões de seguidores e mantém um público fiel e interessado em suas vidas. Assim como existem os pequenos, que lutam para aumentar e conquistar mais e mais seguidores. Sem falar dos aceleradores... estes trazem as tragédias, os desastres, assassinatos e todas as notícias chocantes; impulsionando o recebimento de likes. Violência em textos provocativos e de enfrentamentos e uso constante de inteligência irônica. Os temas quentes com os views ganham força da discussão e na polarização dos sentimentos ganham-se as curtidas.


Hoje temos também os outsiders, diferente do influencer, eles a tudo criticam. Os haters dentro dos seus sentimentos específicos e destrutivos, para ele só existe a sua verdade. Todos atuando intensamente dentro da internet, cada qual a sua maneira e idealização. Todos buscando sua realização ou monetização e trazendo à tona o sentir do seu imaginado prestígio.


Esse suposto domínio sobre as pessoas seria para satisfazer o que? Os desejos, a vaidade, o orgulho? O que mais seria tão importante para o ego?


Para se atingir um número cada vez maior de seguidores, onde se tem praticamente um tribunal sem fim, haverá de se empenhar em produzir cada vez mais, de forma permanente e sem repouso. Ter que se mostrar sempre feliz, mostrar ambientes bonitos, famílias unidas, excesso de positividade, tirar fotos a todo momento, mostrar o que come, o que faz, o que veste e assim consumindo todos os instantes da sua vida e principalmente da sua mente. Sempre, a todo momento, fotografando e filmando todos os seus passos.


Como é possível mostrar tudo em perfeição se a própria vida geralmente está num outro nível? Ou será que a vida pode realmente ser perfeita em todos os momentos, cheias de felicidade, sem nenhum contratempo nunca? A necessidade de se usar máscara para agradar e conquistar a todos, por exemplo, ou ser sempre perfeito pode levar a um esgotamento, entrando inclusive em colapso psíquico; o tão falado e discutido atualmente, síndrome de burnout.


Mesmo com tanta tecnologia a nosso dispor, que deveria facilitar e nos proporcionar mais qualidade nas nossas vidas, vemos as pessoas mais cansadas, sem energia, sem disposição e na inércia.


Num determinado momento do romance o monstro diz “Você é meu criador Dr. Victor, mas eu sou o seu senhor”. Aqui temos um profundo significado e uma profunda lição também. O monstro provoca o criador e o submete às ameaças aplicando pavor e medo.



Leia também: Crônica | A garotinha de patins



Ouvimos falar de muitos distúrbios, existe um menos falado e talvez até desconhecido, a síndrome de Frankenstein. Ela existe quando uma pessoa, ou o cri