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Crônica #44 | Solidão como caminho

Atualizado: 16 de fev.

A soberania de uma sagrada solidão



Numa das visitas a uma casa de repouso, fiquei me questionando a respeito de grandes escolhas que fazemos no decorrer da nossa existência.


O local é retirado, porém em conexão com um grande centro urbano. Cercado de matas, um vasto gramado bem cuidado, mesas e bancos sob frondosas árvores, lagos e animais silvestres compartilhando o mesmo espaço. Internamente existem alguns salões de oficina, salas de jogos, sala de tv e uma sala de refeições. A equipe é grande e composta por jardineiros, cozinheiros, cuidadores, médicos, terapeutas, psicoterapeutas, motorista... enfim, o necessário para manter toda a estrutura. O local é mantido por doações, trabalhos de voluntários e colaboração de grupos que visitam os internos para encontros, onde proporcionam momentos de convivência. Estávamos então, num desses momentos, acompanhando as atividades do amanhecer até o entardecer.





No salão de oficina de artes um grupo estava bordando, outros confeccionando bolas de papel, algumas pessoas costurando bonecas e outros se divertindo com as dobraduras de papel, origamis. Semblantes alegres, algumas gargalhadas se ouviam nos cantos e alguns cantavam baixinhos em respeito aos demais. Reparei que numa pequena mesa, isolada do grupo, uma senhora estava sentada sozinha.


Eu me aproximei e pedi licença para me sentar numa cadeira de frente a ela. Ela levantou a cabeça, um olhar sobre os óculos e apenas gesticulou com a cabeça que sim. No início fiquei observando sua atividade. No verso de uma folha de sulfite já usado, pintava algo. Tinha um pouco de dificuldade no preenchimento de cores por causa do tremor das mãos. Cabelos marcados pelo tempo, mãos com manchas senis e marcadas pela árdua dedicação da vida. Rugas que marcavam a face de tantos anos vividos e pareciam não ter sido fáceis.


Ela era uma imigrante japonesa e assim a minha comunicação precisou ser totalmente em japonês. Lembrei da minha mãe e da minha avó, esse momento tocou meu coração... silenciosamente ela pintava casas, montanhas, lagos e uma parte de uma cerejeira. Ela fazia um mix perfeito de cores, com dosagem certa de água para representar as cores em tom pastel, em aquarela. Eu lhe disse que queria pintar também e se poderia pegar uma folha que estava na caixa ao seu lado. Com a página em branco, precisei fazer a base do desenho com um lápis e tentei repetir uma imagem similar, silenciosamente.


Tentei um pequeno diálogo, mas ela não respondia. Apenas balançava a cabeça respondendo sim ou não. Num determinado momento eu disse meu nome e escrevi em ideograma (kanji) japonês. Foi a primeira vez que fixamos os olhares. Virou a minha folha para o sentido dela e ficou atenta na escrita. Gentilmente ela corrigiu um pequeno traçado e realmente deu a verdadeira forma.



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Surpreso vejo que ela me dirige o olhar e fala comigo em japonês:

- “Dei aulas de língua japonesa por muitos anos...”


Percebo pelo seu olhar, que um vasto campo da sua memória se abriu naquele momento. Deixou os óculos na mesa, sobre o pano onde seu pincel ficou descansando. Assoprava o papel para uma secagem mais rápida da pintura.


Ela nada me questionou. Um monólogo começou com seus olhares, ora observando a linda paisagem externa, ora o ambiente interno que nos rodeava. Começa a falar lembrando da sua escola no Japão, quando todos os alunos eram obrigados a ficar em frente dela e com bandeirinhas nas mãos, cantavam uma música de incentivo aos jovens que passavam enfileirados, convocados para a guerra. A cada semana que passava, as carteiras iam ficando vazias em razão daquela realidade. Triste situação, não ficou sabendo sobre o fim de cada um.

Ela se alistou como voluntária para fazer parte do exército na guerra sino-japonesa como telefonista de front, para ir em busca do seu pai que já havia partido para frente de batalhas, anos antes. Seu amor pelo pai era tanto que o medo pela guerra não a intimidou, apenas sua missão era estar e voltar junto dele. Depois de uma busca perseverada de meses em busca do paradeiro do pai, ficou sabendo que fora atingido em uma das batalhas e ali falecera.


Abalada ela voltou para sua terra natal. Com seu país devastado pela derrota e sua família vivendo em condições insustentáveis, ela entrou sozinha para o programa de emigração. Envolvida em coragem e determinação não esperou a sua vida desabar e veio ao Brasil já na idade adulta; foi a única entre cinco irmãos. Casou-se antes de deixar seu país. Contudo, passou por um forte sofrimento durante a viagem com a perda do seu marido. Fora um percurso por volta de sessenta dias dentro de um navio.


Ainda mais só, ao desembarcar no porto de Santos foi levada para uma fazenda de café no interior de São Paulo. Num ambiente hostil, alimentação totalmente inadequada, vivendo em casas de taipas a sua vida prosseguiu...



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Seus olhos se enchem de lágrimas. Entoa um trecho da música que cantavam para os soldados convocados para a guerra. Ela disse que essa música surge insistentemente na sua cabeça, então acaba por cantar sempre, toda vez que ela aparece. Fortes lembranças, um tipo de neurose de guerra. Pediu desculpas pela história triste... E assim continuou me contando inúmeras outras histórias da sua vida.


Passou o dia e vivenciei muitas outras atividades diferentes, com uma dinâmica bastante saudável, envolvendo todos os grupos que ali estavam. Houve momentos de muita alegria, de muitas risadas, de muitas trocas que enriqueceram a vida de todos os presentes. Foi realmente rico de tantos sentimentos que brotaram e transbordaram.


Voltei reflexivo e pensando na vida. Vi tantos exemplos ali hoje... Minha alma chorou... as minhas lágrimas embaçavam a visão da pista do meu caminho de volta. Sob uma intensa chuva, estacionei meu carro num local seguro, debaixo de uma ponte onde outros veículos já estavam parados, com as luzes pisca-alertas ligadas.


Suspirei fundo...


Ter compartilhado o dia com os idosos e em especial um tempo maior com aquela senhora, foi muito importante para uma infinidade de questionamentos que surgiram.






Fiquei a imaginar se era solidão ou isolamento ela estar sozinha com as suas pinturas.


Ela disse que gostava de ficar sozinha. Eu também gosto dos meus momentos sozinhos, mas sei que tem muita gente que não suporta. Dizem que traz tristeza, sentem solitários, isolados e perdidos sem saber o que fazer. Em conversas com amigos sei que muitos ao ficarem sozinhos, logo colocam uma música, ligam uma televisão ou qualquer outra coisa que tragam movimento. É o barulho do mundo, o movimento que nos faz ficar virados para fora o tempo todo, que faz nossa mente estar ocupada com qualquer coisa. Tudo é válido para não nos sentirmos só. Ficamos entorpecidos, não dando espaço para sequer sentir e ouvir o silencio. O silêncio é assustador!


Pensei; a falta do outro ou de alguém não é solidão. A falta de nós mesmos, isso sim, é solidão!


É o vazio interior que nos causa tanto medo, e aquela senhora se mostrou tão dona de si, tão resolvida e preenchida com tudo que apreendeu na sua caminhada, que não se sentia sozinha por estar isolada. Sua alma preenchida não dava espaço para esse sentimento. Vi que durante atividades em grupo ela ria, dançava e até cantava canções alegres. Interagia perfeitamente com todos, nada de traços antissociais. Pelo contrário, irradiava alegria e a todos contagiava. A sua alma preenchida sabia compartilhar quando assim se manifestava o seu eu social. Uma alma vazia não tem como compartilhar. Como oferecer algo que não se tem?


Pensei então que, quando ocorre de fato o isolamento externo é porque existe morando dentro da pessoa o isolamento interno. Ele se manifesta através dos nossos defeitos, das nossas imperfeições, das nossas sombras e muitas vezes vem acompanhado da terrível conduta de vitimização. A falta de vida interior gera processos de busca de culpados; todos são culpados menos a própria pessoa. Infeliz e árduo caminho escolhido.


A solidão no sentido que a maioria conhece, no seu sentido equivocado, se torna maléfica na falta de vida interior.


Vejamos por um outro ângulo, levando em conta o prisma iluminado de uma outra perspectiva: o verdadeiro sentido da solidão, a solidão saudável é um fantástico laboratório gerador de identidade, de individualidade, de construção de si próprio, potente gerador de vida interior. É ela que no silêncio dialogar conosco mesmo preenche nossa alma e nos dá a capacidade de sermos donos de nossas próprias vidas. Senhores do nosso próprio destino.