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Crônica | Razão, justiça e paz interior (baseado em fatos reais)



Tudo aconteceu num estacionamento de shopping a céu aberto.


Em raras idas a shopping center resolvi naquele dia acompanhar minha família. Estacionei meu veículo de ré e permaneci dentro do veículo para ler um livro. Depois de alguns minutos presenciei um fato que me deixou indignado, perplexo com as atitudes de um rapaz; o que automaticamente trouxe à tona reflexões sobre princípios humanos.





Notei que um veículo já aguardava a vaga com a seta ligada, indicando a sua intenção de ocupá-la. Por frações de segundos poderia ter acontecido uma colisão com o outro veículo que adentrou na vaga muito rapidamente. Dentro desse, um rapaz com uma bonita acompanhante riam alto pela aparente esperteza do feito. Estavam num elegante carro Audi e, a que aguardava pacientemente estava num Ford Corcel. Não contente com o ocorrido de quase colisão, ele foi tirar satisfação com a condutora do veiculo que aguardava. Com muitas gesticulações e uso de palavrões o rapaz chutou o pneu, bateu no capô com as palmas das mãos e como se nada de anormal tivesse acontecido, rumaram em direção às lojas.


Percebi que a condutora, uma senhora com seus cabelos brancos, ficara descontrolada. Estagnada, tentou ligar o carro com a marcha engatada, parecia confusa e não estava conseguindo manter o controle veicular. Imediatamente fui em auxílio pensando evitar fatos piores. Devido ao acontecido iniciou um pequeno congestionamento no local, pois o veículo estava parado no sentido diagonal atrapalhando a passagem dos demais. Pedi para ela se acalmar. Vi lágrimas nos seus olhos; e eu lhe disse:





- “Minha senhora, vou tirar meu carro e logo a senhora estaciona na minha vaga, está bem?”


E assim eu fiz. Retirei o meu veículo e a esperei entrar, mas não houve reação. Ela não conseguia sair do lugar. Então estacionei em frente aos outros veículos e novamente fui ver o que acontecia. Pasmem.... Mesmo com muitas pessoas por perto, curiosas e em tumulto causado pelo “congestionamento” não houve uma sequer que se colocasse à disposição para ajudá-la.


Ofereci a minha ajuda para estacionar e assim o fiz.


- “Tudo já passou, minha senhora, tente se acalmar”. Respeitosamente ela me agradeceu por ter resolvido aquela situação.


- “Não sou muito de frequentar shopping center, hoje foi a minha primeira vez dirigindo. Não tinha ninguém para me trazer.” Ainda assustada explica tristemente sua presença no local.


- “Só vim comprar um presente para a minha bisneta, é aniversário dela...”





Agora um pouquinho mais calma e já sob um certo controle emocional, pegou sua bolsa e partiu para seu objetivo.


-“Antes, tranque o carro”, avisei que estava se esquecendo de trancar a porta.


Lançou um lindo sorriso marcado por poucas rugas, detentora de maquiagem perfeita e belíssimos olhos azuis. Acenou em forma de agradecimento.


Logo em seguida consegui estacionar em uma outra vaga.


Então nas minhas reflexões, um mundo de perplexidade aflorou:


RAZÃO e JUSTIÇA.


Todos nós temos nossas próprias razões e aquele rapaz dentro da sua, expôs apenas sua riqueza material. O fato do desprezar as diferenças fez denegrir e ressaltar a pobreza da sua alma. Talvez ele tenha ido até lá para adquirir joias para sua companheira ou qualquer outro produto, demonstrava priorizar material de alto valor, ressaltando o ter.


Aquela senhora, aparentando menor poder aquisitivo, estava dentro das suas razões de levar uma pequena lembrança à sua bisneta, um ato contendo uma riqueza de simplicidade e amor. Talvez o valor do presente pretendido não correspondesse nem um milésimo do rapaz, porém seria tão valioso quanto. Os valores são medidos conforme critério interior de cada um, mas serão efêmeros se não forem por um real e sincero sentimento de amor e gratidão.





Quando as atitudes e palavras ofensivas são proferidas para com o próximo, esses são lançados automaticamente para o Universo. E quem somos nós para requisitarmos o direito de reparos contra as pessoas que nos ofendem? Ninguém. Apenas agimos com compaixão pela ignorância e falta de conhecimento de quem nos ofende. A causa e efeito são regidos por uma outra lei; uma LEI MAIOR que nos proporcionam surpresas e age de forma independente do “querer”. Essa Lei rege de forma absoluta e ninguém está fora da sua ação, tudo o que lançamos a nós voltará, inevitavelmente, quer queiramos ou não, quer acreditemos ou não.


Vivemos numa sociedade onde ainda se tem muito o egocentrismo e, muitas vezes clamamos por justiça para com aqueles que praticam injustiça.

Do entendimento à compreensão, passando por paciência e silêncio da alma; quando acolhemos as diferenças desabrochamos em respeito, respeito a tudo e a todos. Respeito para com os mais idosos, como nossos pais por exemplo.





Aquela senhora me trouxe a imagem de minha mãe, que triste seria vê-la passar por uma situação semelhante.