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Crônica #36 | “O Bem se paga com Bem!”

Atualizado: 15 de mar.

Como lindas flores o Bem desabrocha em pensamentos, em palavras ou em ações




Estacionei o meu veículo no local de retirada de materiais, do lado de fora do prédio exatamente a meio fio da rua, e estava carregando minha encomenda de madeiras.


Apesar de eu ter uma altura razoável, muitas vezes tenho dificuldades em colocar materiais sobre o seu bagageiro por ele ser alto e largo, é um veículo utilitário. Então, normalmente carrego uma pequena escada para auxiliar nessas horas, porém naquele dia tinha esquecido de levar. Em função disso eu estava com muita dificuldade com os materiais. E também me apressava, pois as escuras e pesadas nuvens que cobriam quase que totalmente o céu indicavam uma forte tempestade a caminho.





Começou a ventar mais forte e a impressão que dava era que a chuva estava prestes a cair. Então, me apressei mais ainda, e acabei me atrapalhando. Estava tão concentrado em coordenar tudo que nem percebi a aproximação de uma pessoa.


Quando vi, ele já estava do meu lado. Era um moço bem alto, de porte físico forte, e me disse:

- “Deixa te ajudar senhor. Sou alto e estou com uma grande vantagem. Não preciso de escada! Beleza?”


Eu sorri e vi que realmente os braços dele pareciam guindastes, e que não precisaria de qualquer auxílio ou apoio para levantar e carregar os materiais até o meio do bagageiro. No desespero e meio que sem graça, eu aceitei a sua providencial ajuda. A minha preocupação em não poder molhar as madeiras e carregar tudo antes da chuva, me fez não notar a aproximação desse homem. No primeiro momento confesso que levei um grande susto, e a reação muito ligada à mente coletiva me trouxe de imediato aquela sensação de insegurança. Nas seguintes frações de segundos imaginei que pudesse ser um assalto ou ele estivesse querendo algum dinheiro oferecendo sua ajuda.


Pasmem... Pareceu telepatia, ele leu o meu pensamento.

- “Não se preocupe viu? Vi o senhor, desde lá de baixo, carregando essas madeiras e com problema para cobrir com essa lona. E parei para te ajudar”. Exclamou calmamente. A minha mente ainda assustada e misturada com as dificuldades no carregamento me fez agradecer e aceitar.

- “Obrigado”, respondi.


O vento já estava bem mais forte e levou o seu boné, jogando-o a alguns metros longe dali.


Passamos alguns minutos em silêncio, concentrados nos movimentos para melhor distribuição dos materiais no carregamento.


Já quase no final exclamei:

- “Obrigado moço. Sem você estaria na maior enrascada com essa chuva que vem aí!”





Ele respondeu:

- “Não carece de agradecimento não, meu senhor. Com o bem se paga o bem....”


Nesse momento fiquei curioso, pois geralmente a pessoa falaria: “Gentileza gera gentileza...”


- “Alguém pagou você com bem?” perguntei, continuando com o carregamento das quase últimas peças.

- “Sim senhor. Tá vendo aquela bicicleta lá ó...” Aponta para um canto do muro.

-“Eu carrego o meu pão de cada dia...”.


Notei que na sua bicicleta tinha um bagageiro na garupa, cheio de ferramentas. Aparador de grama, enxada, rastelo, tesoura de cortar galhos e algumas outras ferramentas, distribuídas e amarradas organizadamente. Continua ele:

- “Eu estava desempregado, quase despejado do lugar onde morava com a minha mulher e minha filhinha, e o que era mais triste, não tinha nem mais o que comer... Então, eu saí desesperado para arranjar uns trocadinhos. Parei em várias casas pedindo esmola e comida. Muitos não me atenderam... Bati numa casa e saiu uma senhora. E ela, além de me dar comida e dinheiro, me deu algumas roupas... Como ela me deu dinheiro eu queria devolver com algum trabalho. Perguntei se podia fazer algum serviço pra ela. Ela pensou um tempinho e me pediu se podia cortar a grama do jardim. Eu disse que não porque não tinha cortador, mas que ia voltar um dia para retribuir. Daí essa senhora me pediu para esperar. Voltou para dentro de sua casa e saiu pela garagem com um cortador de grama elétrico. Passei algumas horas ali e consegui terminar o que ela pediu.”





Nosso diálogo foi apressado pela presença mais forte da chegada da chuva. Ele teve tempo para me contar que quem cuidava do jardim daquela senhora era o marido, que falecera. E também contou que toda semana ele passava lá na casa para prestar pequenos serviços e ajudar a cuidar da grama e das plantas, e que dos jardins de flores ela mesma gostava de cuidar. Com o passar do tempo ele comprou uma bicicleta e herdou dela outras ferramentas. Nasceu entre eles uma linda amizade. Ela sempre o ajudando e ele sempre retribuindo a ela toda sincera ajuda. Ambos foram abastecidos nas suas carências, preenchendo seus corações também com momentos de alegria e esperança. Ele disse que nos dias que ia lá faziam juntos o café da manhã, almoçavam e tinham o café da tarde. Sempre tinha um gostoso bolo, que ela mesma fazia. Além de sempre levar para casa umas gostosuras para sua filhinha. Essa senhora o tratou com muita dignidade. Imagino o quão grande e belo era o seu coração. Um dia essa senhora também partiu e aquele jardim de flores secou.


Disse que depois de tempos aquela casa foi consumida por um prédio de apartamentos.


Ele lembra e corre atrás do seu boné que estava enroscado num canto da calçada.


Voltou e disse:

- “Too indo! Antes que essa chuva me pegue... Minha patroa e minha “fia” esperam eu!”


Fui então em direção à porta dianteira do carro para pegar minha carteira e contribuir pela sua prestativa ajuda.


Quando voltei para o lado onde estávamos, não estava mais lá. Ele já tinha partido, também na pressa de não ser pego pela chuva, como havia dito. Incrível, pensei, assim como apareceu, sumiu... não percebi nem a sua chegada e nem a sua partida. E nem o seu nome sei dizer. Ia perguntar na hora de despedir.


Olhei por todos os lados procurando por ele. Entrei no carro e saí em sua busca, queria de alguma forma poder agradecer e retribuir a sua prec