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Crônica | Mãos

Atualizado: 27 de out. de 2021

Mãos que criam e mãos que destroem



Num dos meus deveres, que é mais um hobby do que um dever, eu estava cuidando do jardim da minha casa. Estava lá cuidando das lenhas, do gramado e das flores que circundam o cantinho aconchegante da nossa fogueira, chamado carinhosamente de “Dondon moeru” em homenagem à nossa querida “Batyan”, nossa quase centenária vovó.


Por uma distração e um pequeno descuido meu, um graveto atravessou a luva que usava provocando um ferimento. Apesar do graveto não ser grande a dor foi intensa, uma forte agulhada repentina.



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Em outras épocas eu sairia xingando até a última geração do graveto, teria lançado longe a ferramenta que usava e, nervoso, abandonaria a minha tarefa. Confesso que contei até três, pelo menos três vezes. Fiz o curativo necessário no local do ferimento e continuei com meu dever.





Porém, a dor continuava a me incomodar.


Resolvi então fazer uma pausa. Acomodei-me numa confortável cadeira de jardim e iniciei uma reflexão do acontecido.


A reflexão veio não sobre a dor e sofrimento que estava sentindo e sim, em relação ao sentimento de não “perceber” quão importante é cada parte do nosso corpo no dia a dia. E também do não agradecer as coisas normais, o estado natural. É na dor de um dente que percebemos a importância da mastigação e do prazer de saborear os alimentos. É na visão embaçada ou qualquer problema nos olhos que percebemos o quanto essa falta nos limita a vida, tirando além do belo a nossa capacidade de trabalhar, seja com o que for. A vida parece se apagar diante da impossibilidade de enxergar. E normalmente, no nosso dia a dia corrido, nem nos damos conta disso. O tato proporcionado pelas mãos representa uma ligação extremamente potente com a mente, na ausência da visão. É elaborar uma imagem somente com o sentir da textura, peso, temperatura ou consistência. É numa crise de labirintite que percebemos o quão é importante o equilíbrio sem vertigem ou tontura, o quão é importante o tão desprezado e esquecido estado normal.


Então, a dor é uma mensageira que nos desperta e nos tira da rotina, nos tira do piloto automático que a vida muitas vezes nos coloca, nos tira da lógica da existência das coisas.


Naquela imagem do pequeno graveto espetado na palma da minha mão, veio-me à mente a história de quando os soldados romanos cravavam os pregos nas palmas das mãos numa crucificação, e também, da coroa de espinhos na cabeça de um Grande Homem e Mestre... Pensando nisso, a dor que eu sentia passou a parecer desprezível. Mesmo que escorresse sangue da minha mão, seria incomparável com o sofrimento imposto nas crucificações daquela época.





Mãos... pensei nas mãos.

Pensei o que simboliza as mãos, o porque de machucar minha mão.

Pelas minhas mãos passaram minhas experiências de vida, através das minhas mãos alcancei o realizar dos meus sonhos. Não tinha parado ainda para refletir o tanto que precisava despertar sobre as minhas mãos. Agradeci às minhas mãos.


Quem não se lembra das mãos da nossa mãe? Uma vez lindas, sempre lindas! Nem o tempo, nem as rugas e nem as manchas senis a deixariam mais feias; pois houve o proteger, o alimentar, o repreender os nossos atos errados; assim como o acariciar elogiando. Quando tivemos febre ou fingimos doentes para cabular uma aula, sentimos a palma da mão na testa. Lá estava ela, mesmo sabendo da intenção infantil.


Mãos que sempre seguravam as nossas, nos passeios ou nos primeiros dias da escola.

Mãos fortes do pai que nos lançava ao alto e nos agarrava na queda...

Mãos que empurravam o balanço nos fazendo sentir o vento forte e divertido na face.



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Encontraria ainda infinitas maneiras de dizer ou enumerar o expressar de uma mão.

Também trago um lembrete aos que tem o privilégio de ter os pais nessa dimensão. Tome as suas mãos e silenciosamente, agradeça pela sua vida.


Na semana passada presenciei uma cena que me deixou triste e pensativo. Estava parado num semáforo perto de uma ponte, literalmente debaixo da Av. 23 de Maio, em São Paulo.

Duas garotinhas disputavam algo com as suas mãos estendidas para os motoristas. Ora recebendo uma moeda, ora uma bala ou um pacote de bolachas. Carros que passavam sobre a ponte lançavam mais água ponte abaixo.


A maioria apressada quase nem percebia a existência delas.





De repente, um entregador de moto parou ao lado delas, tirou algo da caixa de bagagem traseira. Pareciam pacotes de presentes. Entregou separadamente um pacote para cada uma delas e carinhosamente ele passou a mão na cabeça de cada uma como que levando uma benção do nosso Senhor para as pequeninas.


Com as vestimentas marcadas pelo tempo, sujas e com praticamente nada de recursos materiais, elas vivem e convivem debaixo de uma ponte, fazendo parte de uma família. Nas suas inocências são felizes com o pouco que tem.


O farol abriu e eu absorto nos acontecimentos não tinha percebido. Sons de buzinas dos carros me trouxeram de volta, colocando meu carro em movimento.


Numa esquina um pouco adiante novamente parei no semáforo, e percebi que o motoboy dos presentes parou do meu lado. Abri a janela e parabenizei pela atitude.


- “Parabéns garoto!!! O mundo precisa muito de pessoas como você!”


Ele levantou o visor do capacete e qual não foi a minha surpresa, não era um rapaz e sim uma mocinha. Vestida com capa preta contra chuva, estava lá uma simpática moça dirigindo a moto. Maquiagem perfeita e sorriso contagiante.