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Crônica | Coesão de fundamentos

Atualizado: 11 de ago. de 2021

Baseado em Fatos reais



Numa manhã fria de seis graus, eu encontro um rapaz sentado numa esquina de uma avenida em São Paulo. Apenas alguns transeuntes passavam com seus passos largos e apressados. Ao seu lado algumas caixas, sacola com roupas e um cão de médio porte que estava carinhosamente agasalhado e protegido pelo vento. Com um cobertor nas costas e uma boina na cabeça, ele manipulava com habilidade uma agulha de crochê. Resolvi então iniciar um pequeno diálogo.





- “Bom dia!! Como o seu cão se chama?”.


Ele levanta a cabeça e responde:


- “Batman...” e continua tricotando algo.


Percebi que o nome fazia jus, pois parecia que o cão estava com uma máscara.


E continua falando sem dar atenção a mim.





- “Ele é mais que um cachorro. É meu amigo!” responde firmemente.


Nesse momento vieram flashes de pensamentos. Percebi que o animal não representava apenas um companheiro de viagem. Era um relacionamento de cumplicidade um pelo outro. Provavelmente durante as noites, na sua convivência de rua, o rapaz devia expor seus segredos, angústias e devia também ter compartilhado as alegrias com o Batman.


- “E você, como você se chama”?


- “Pode me chamar de Zé do Bordado”.


- “Quer tomar um café?” indago.


- “Não, obrigado, meu senhor. Eu tenho aqui”; e mostra uma pequena garrafa térmica com um pacote de bolacha.





Nesse instante o Batman acorda, fica na posição sentada e rosna. Percebi seu relacionamento com o dono. Proteção incondicional de lealdade, independente de que momento for. Fidelidade. Fez do seu dono uma fortaleza. Zé dá um “psiu, quieto!”. Logo Batman abaixa as orelhas, mesmo assim não desvia sua atenção de mim.


- “Que bonito isso que você está tricotando. De quem você aprendeu?”.


Zé fica calado como quem não quisesse tocar no assunto. Interrompe seu trabalho por alguns instantes e esfrega as mãos para aquecer os dedos. Os raios de sol não podiam alcançar a sua posição devido aos prédios ao seu redor. A selva de pedra. Perguntei se ele podia me vender o seu trabalho. Apenas balançou a cabeça que não, porque aquela que estava tricotando era a primeira do dia. Sem jeito eu resolvi então me despedir. Ao me levantar ele me reponde.


- “Minha avó. Aprendi da minha avó”.


Foi uma abertura para um diálogo de emoções, sensações e sentimentos que jamais senti por dois seres. Sua vida poderia ser escrita e resumida num romance com encontros e desencontros de gente como a gente. Poderia expor suas aventuras excêntricas repletas de desafios, contendo fugas das drogas e ameaças de morte. A realidade existencial do Zé poderia se resumir na maior dor; a perda da família num acidente trágico. Não caberia episódios de ficção nem mesmo exposições de lamentações.





Com tudo isso, heroicamente, Zé resiste com garra a entrega da sua vida para o vazio, porque num determinado momento ele afirma que, quem tem direto de tirar a vida é somente Deus.


Ele fez a razão de existir para si. Não culpou nem o fato de estar sozinho no mundo e jamais apontou a sua desilusão do viver daquela forma contra Deus. Não se importou com opiniões, regras e imposições do certo e do errado que a sociedade lhe mostrou e tampouco pela dor e sofrimento que muitos não suportariam. Isolou completamente a medida do “tempo” deixando o passado como foi.


O que reserva o futuro para ele? Não importaria. Ele cumpre a sua missão, a que recebera. Talvez parecendo pequena na vida, mas grande no conteúdo. Desde o início demonstrou ausência de culpabilidade. Não se vitimizou. Sequer usou palavras de críticas para com os outros. Não ouvi termos de baixo nível. Percebi existir uma plena sintonia da sua alma com corpo e mente, apesar de aparentar sofrimento.


Nossa conversa foi interrompida quando a gerente da farmácia solicitou que nos posicionássemos um pouco para o lado oposto da esquina. Precisava abrir seu comércio. Zé reuniu seus pertences, guardou seu trabalho com muito carinho, colocou dentro de um saco plástico, dobrou e fechou com um elástico. Batman seguiu seus passos.





Nada é eterno nessa dimensão que estamos. Ora somos interrompidos por alguém, ora somos barrados pelos próprios pensamentos. Por alguma razão, Zé vive aquele momento. É uma parte incondicional da evolução.


Zé na sua simplicidade de pensamento deixou um grande e fabuloso exemplo de vida para mim; que a vida é uma escola de contínuo aprendizado. Quanto menor o egoísmo os testes ficam menos complexos. Quanto maior a generosidade as notas se aproximam do valor máximo. E quem sabe ao encontrar o amor incondicional e próximo da verdade absoluta o diploma seja merecido através de Mãos Divinas.





A vida é uma grande Dádiva, que nos é dada na medida certa e justa para o que precisamos.


Como vai sua vida?!! Já parou para pensar, refletir ou sentir?!!